12 novembro 2012

Entrevista a O Clarim de Macau


MIGUEL CASTELO-BRANCO DEFENDE TESE DE DOUTORAMENTO SOBRE AS RELAÇÕES LUSO-TAILANDESAS

Macau foi importante no redesenho do Sião

Fez investigação histórica, consultando importantes acervos de Portugal, da Tailândia e do Cambodja. Viveu três anos em Banguecoque, onde aprendeu a falar, ler e escrever Tailandês. Na tese de doutoramento, em Inglês, que irá defender perante um júri internacional, em Janeiro do próximo ano, Miguel Castelo-Branco não esquece o importante papel que Macau desempenhou na construção e manutenção do Estado que deu origem à actual Tailândia. Até porque – segundo disse, em entrevista a’O CLARIM – «Macau será sempre, para os tailandeses, um pedaço da sua relação com o Ocidente».


O CLARIM – No início de 2013 irá apresentar a um júri internacional, na Universidade Técnica de Lisboa, a sua tese de doutoramento sobre as relações entre Portugal e o Sião, no chamado período Banguecoque. Por que razão escolheu os acontecimentos decorridos entre 1782 e 1939?

MIGUEL CASTELO-BRANCO – Na historiografia portuguesa têm merecido prioridade os séculos XVI e XVII. Sobre a permanência dessas relações nos séculos XVIII, XIX e XX, pouco ou nada se fez. O período mais recente, ou seja, o período Rattanakosin (Banguecoque), riquíssimo em fontes documentais existentes nos arquivos portugueses e tailandeses, bem como em colecções francesas, britânicas e macaenses, merecia investigação aturada. Foi o que fiz e o resultado desse trabalho lança nova luz sobre a intensidade e profundidade do impacto de Portugal na actual Tailândia.

CL – Curiosamente, parece não incluir o Chefe de Estado mais antigo do mundo ainda em exercício, o monarca tailandês, Bhumibol Adulyadej (Rama IX), que ascendeu ao trono a 9 de Junho de 1946...

M.C.B. – O último capítulo da tese dedica uma trintena de páginas às relações entre Portugal e a Tailândia, após a Segunda Guerra Mundial, não deixando de aludir à visita do Rei Rama IX a Portugal, em 1960; à passagem por Banguecoque do embaixador Mello Gouveia (repensou com pleno êxito o lugar da representação portuguesa no País); e às recentes comemorações dos 500 anos de relações luso-tailandesas.

CL – Como classifica as relações do Sião com Macau, entre 1782 e 1939?
M.C.B. – O Sião de Rama III, Rama IV e Rama V continuou a entender Macau como um objectivo permanente da sua política externa. É preciso não esquecer que Rama IV deu prioridade ao estabelecimento de um consulado siamês em Macau (em detrimento de Hong Kong), que partiram de Macau para o Sião vagas sucessivas de futuros quadros superiores dirigentes do Estado siamês do período das grandes reformas (1855-1910) e que sucessivos governadores de Macau – por inerência ministros plenipotenciários, junto da corte de Banguecoque – foram intermediários nas tensas relações entre o Sião e as potências europeias no Sudeste-Asiático, sobretudo a França e a Grã-Bretanha.

CL –Qual o episódio mais marcante? 
M.C.B – Destacaria, entre tantos, o importante papel dos conselheiros macaenses no redesenho do Estado siamês durante os reinados de Mongkut (Rama IV), Chulalongkorn (Rama V) e Vajiravudh (Rama VI). Diplomatas, militares, juristas, mas também empresários de sucesso, fotógrafos e músicos macaenses, emprestaram a Banguecoque parte do fascínio cosmopolita que permitiu a sobrevivência do Sião, enquanto Estado independente no momento da preia-mar do imperialismo europeu na região.

CL – Como vê as actuais relações da Tailândia com Portugal e Macau? 
M.C.B. – O estatuto de «Potência Histórica» que mantemos junto dos tailandeses não é conjuntural, nem ditado por mero interesse comercial. A prová-lo, a atenção com que a família real tailandesa seguiu as celebrações do meio milénio de relações entre os dois países. Quanto a Macau, será sempre, para os tailandeses, um pedaço da sua relação com o Ocidente.

CL – Como desenvolveu a sua investigação?
M.C.B – Para que o meu estudo não se confinasse à redutora e parcial perspectiva portuguesa oferecida pelas colecções da Biblioteca Nacional de Portugal, da Torre do Tombo, da Biblioteca da Ajuda e do Arquivo Histórico Diplomático, estive em Banguecoque ao longo de três anos, ali aprendendo a falar, ler e escrever o «thai» para desenvolver investigação nos Arquivos Nacionais da Tailândia, mas também no quase desconhecido Arquivo da Igreja Católica. Estive, também, em Phnom Pehn, onde – escapados às razias de Pol Pot – localizei importante safra documental sobre os luso-khmers (parte do «Império Invisível Português», que estudo com pormenor na tese) e, depois, nas Missions Étrangères de Paris, Dos mais de três mil documentos recolhidos, transcritos e estudados resultou um trabalho que estimo inovador e rompe com a ideia miserabilista de uma sempre falada «decadência» de Portugal.

BIOGRAFIA
Miguel Castelo-Branco, nascido em Lourenço Marques, é licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Concluiu mestrado em História Cultural e Política, na Universidade Nova, e possui ainda uma especialização em Ciências Documentais, também pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. É técnico superior da Biblioteca Nacional de Portugal, foi assistente universitário e bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, entre 2007 e 2010. Assinou, entre outras obras, «Homem Cristo Filho: do anarquismo ao fascismo» (2001); «Antes da Playstation: dois séculos de literatura de aventuras em Portugal» (2003); «Os Portugueses e o Oriente (1840-1940): Sião, China, Japão» (2004); «The Portuguese-Siamese Treaty of 1820» (2011); e «Das Partes do Sião» (2011), esta em co-autoria com o professor António Vasconcelos de Saldanha.




1 comentário:

João Amorim disse...

caro Miguel

Muitos parabéns.