20 novembro 2012

Efeitos devastadores da ignorância


Obama acaba de destruir num ápice a reputação de Aung San Suu Kyi aos olhos dos birmaneses. Ao abraçá-la e beijá-la em público no decurso da visita que realiza a Myanmar, gesto localmente interpretado como indecente - no Sudeste-Asiático um beijo a uma mulher coloca-a na condição de meretriz - Obama exibiu a absoluta inépcia dos serviços de assessoria de protocolo da Secretaria de Estado, confirmando tudo quanto se deixara entrever nos explosivos ficheiros divulgados pela Wikileaks. Beijar alguém, tanto mais tratando-se de uma viúva, significa, tão só, que essa mulher não é merecedora de qualquer respeito, que está disponível e, também, um preliminar ao acto sexual. No Ocidente há quem exulte com estas torrentes de abraços e beijos. Obama foi mais longe. Por duas vezes colocou a mão na cintura e por duas vezes a mão pousou sobre os ombros da anfitriã. Na região, porém, basta consultar um reles do's and don'ts para viajantes para compreender tratar-se de  interditos.
Infelizmente, os americanos são tolos, são ignorantes e absolutamente insensíveis à cultura.Ouve-se habitualmente dizer que as generalizações são sempre perigosas. Discordo. Em ciências sociais trabalha-se sempre com regularidades estatísticas. Há comportamentos colectivos - isto é, que se repetem por padronização - e Obama não terá feito nem mais nem menos que outro qualquer americano. A América, o que resta do Ocidente, parece não ter competência para carregar as responsabilidades de uma potência global.

7 comentários:

João José Horta Nobre disse...
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Combustões disse...

O João José não está a trabalhar com regularidades, mas com uma excepção. Confesso que considero um qualquer lavrador médio dos arrozais do Laos mais civilizado que um norte-americano médio.

João José Horta Nobre disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Combustões disse...

Sim, caro João José, mas os hunos, os citas e os vândalos também foram casos bem sucedidos de projecção de poder. A força não parece ser o indicador mais eloquente para aferir o nível de crescimento cultural de um povo.
Um abraço
Miguel

DaJuba disse...

admitindo que ser tolo, ignorante e insensível é uma propriedade com distribuição gausssiana, já para não falar de que se admite que seja mensurável, precisaria de conhecer a média e a variância para poder definir a distribuição e poderia assim inferir algo sobre ela. o que define estatisticamente como comportamentos que se repetem por padronização? o comportamento esperado? o mais frequente? o mediano?
pode não gostar deles, como eu também não gosto, mas não tente justificar preconceito com estatística. muito menos não a aplicando bem, como é comum nas ciências sociais e nas letras.

Combustões disse...

Eu falo, obviamente, na curta margem que separa as normas aconselhadas pelos manuais diplomáticos e no saber-fazer que tem, implícito, a consideração por atitudes e comportamentos aconselhados pela cultura de origem do actor social. No caso vertente, parece terem falhado as primeiras por ignorância e ter-se manifestado o absoluto desrespeito pelos códigos do local.

OCTÁVIO DOS SANTOS disse...

Miguel, você terá (alguma) razão para generalizar se encontrar exemplos semelhantes feitos por anteriores presidentes dos EUA: Reagan, Bush pai e filho, Clinton... «Atrevo-me» a antecipar que não encontrará: a actual administração é, de facto, marcada por uma profunda arrogância e incompetência, que, claro, não se limita à política externa...

As «excessivas» demonstrações de carinho para com Suu Kyi são, afinal, «normais» para quem já fez várias vénias a chefes de Estado estrangeiros (o que é proibido pelo protocolo norte-americano), nomeadamente o imperador do Japão, o primeiro-ministro chinês e o rei da Arábia Saudita. A esposa, por sua vez, já tentou abraçar a rainha Isabel II (o que é proibido pelo protocolo britânico). Não acuse os compatriotas de Obama por um «crime» de que, para já, ele é o único «culpado».