22 novembro 2012

Alter-história:o pai de Magarila Machel, aliás Samora Machel, em 1973


Notícias da Beira, 31 de Outubro de 1973


"LOURENÇO MARQUES, 30 (Delega­ção) — «Meus olhos choram e meu coração fica triste quando o pessoal vem dizer o que meu filho faz», afirma, com voz em­baraçada, comandante Moisés Machel. 
A nossa, frente está um negro de feições duras, cabelos esbranquiçados, olhos perspicazes. Fato escuro, camisa cor-de-rosa, bem vestido. É praticante da Igreja Metodista Livre. Pesa as palavras, falando lenta e prudentemente. A nossa frente está o pai de Samora Machel, presidente do movimento anti-português (FRELIMO) (ou Frente de Libertação de Moçambique). À sua volta, reúne-se grande parte do clã, constituído por três mulheres (uma é a mãe de Samora), vários filhos, irmãos, sobrinhos. Ele não é só comandante de nome; é também o comandante de facto, no conjunto das cinco palhotas maticadas da sua terra.
«Nasci aqui mesmo, a 1 de Fevereiro de 1900. Esta terra, que era já dos meus pais, chamava-se Mananganine», refere papá Machel. Hoje aquela terra situa-se à entrada da Aldeia da Madragoa, onde vivem quase duas centenas de europeus, e que é o núcleo de povoamento mais progressivo do célebre Co­lonato do Limpopo, a duas cen­tenas de quilómetros de Lou­renço Marques.
«Esta é a mamã de Samora», apresenta o comandante. «Chama-se Gougnia Thema Zimba. É filha de Matonga, chefe do gru­po de povoações Zungula (já fa­lecido), da regedoria Canheze, aqui vizinha. Nasceu em 1902».
Thema Zimba, pequenina, tem uma cara prazenteira. Sor­ri. O cabelo branco tapado com o chapéu «beige» como usam as mulheres da Suazilândia.
E comandante Machel pros­segue: «Desta mulher tive 13 filhos. Nove morreram. Quatro estão vivos. O mais velho chama-se Josefate Moisés Machel. Enquanto trabalhou na garagem dos Oliveiras, em Chilunguine (Lourenço Marques), fez a quarta classe. Depois estudou mais. Hoje é lá enfermeiro, no Hospital Miguel Bombarda. O segundo filho chama-se Magarila Samora Machel. Fez a quar­ta classe na Missão Católica de S. Paulo de Messano, Bilene, do Distrito de Gaza. Depois mandaram-no estudar para a Ilha da Inhaca. Parece que fez o quarto ano do Liceu, enquanto aprendeu para enfermeiro. Em 1951, mais ou menos, empregou-se no Hospital Miguel Bombarda».
Interrompemos. Trata-se do chamado Samora Moisés Ma­chel, actual Presidente da FRELIMO ? O pai reafirma que seu nome verdadeiro é Magarila. Que ele optou pelo nome Sa­mora, porque assim era conhe­cido. Que também nasceu ali, naquela «sua» terra, a 11 de Maio de 1932, numa palhota on­de, mais ou menos, fica hoje o edifício da Administração. Que Magarila tem um filho de cer­ca de onze anos a estudar em Lourenço Marques.
Comandante Machel, sempre lentamente, fala ainda dos ou­tros irmãos de Samora: de Boa­ventura Moisés Machel, nascido em 1936, a trabalhar numa la­vandaria em Benoni (Transval, África do Sul); e de Enosse Or­lando Machel, nascido em 1939, electricista, a residir no Sul de Moçambique.
Perguntámos subitamente se sabem que Samora é viúvo. Não mostraram espanto, mas a mãe, Thema Zimba, comove-se e cho­ra com visível comoção. Fica­mos convencidos que, tal como ainda recentemente afirmou Feliciano Dimbeju (ex-FRELIMO regressado de Nairobi com o apoio da Cruz Vermelha In­ternacional), eles sabem que Samora mandou envenenar a mulher, Josina Mutemba.
O pai de Samora, porém, in­flexível, quebra o gelo da situa­ção, continuando a falar, embo­ra com palavras ainda mais mastigadas: «Ele visitou-nos, pe­la última vez, no Natal de 1961. Nada nos disse do que pensava fazer. Nunca nos disse nada, tal como nunca escreveu. Nesse Natal, eu fiz grande festa, aqui mesmo, na minha terra. Mais tarde soube que ele foi para «outra parte». E meus olhos cho­ram e meu coração fica triste quando as pessoas vêm dizer o que o meu filho faz. Porque eu não gosto, e a mamã também, que ele ande na «outra parte».
E mais adiante: «E usei que ele tem muitos inimigos, muito perigosos. Que esses inimigos são os camaradas dele, os macondes e outra gente do Norte. Querem matá-lo. E isso traz sempre o meu coração triste. E o meu coração ainda sofre mais, quando sei que ele também tem medo...»
«Como sabe isso, se não rece­be notícias?», interrompemos.
O comandante Machel sentiu-se apanhado. Hesitou pela única vez. Mas respondeu mui­to lentamente: «Eu sei disso porque conheço o Samora».
«Acha que Samora poderá ga­nhar a guerra? E, se ganhar, poderá ser um bom presidente de Moçambique?» — indagámos ainda.
«Samora tem muitos inimigos ao lado dele», responde. Nunca pode conquistar Moçambique, que é muito grande. Também nunca poderia ser o governa­dor, pois para isso é preciso es­tudar em muitos liceus, ter muito saber. E Samora é ape­nas um bom enfermeiro.»
O pai do Presidente da FRELIMO, velho agricultor, aceita um dos nossos cigarros. Começa a desenhar-se mais confiança no seu rosto, enquanto disparámos a máquina fotográfica, e falá­mos da sua gleba.
Tem vinte mil metros quadra­dos de terreno, irrigados e apoiados tecnicamente pelo Ga­binete do Limpopo, que integra o maior núcleo de povoamento de Moçambique, incluindo a ci­dade de Trigo de Morais, uma dúzia de aldeias com todos os requisitos, uma Cooperativa Agrícola com cinco fábricas transformadoras. A sua terra, outrora estéril, está hoje inte­grada num dos maiores planos de irrigação do Ultramar português (cerca de 80 mil hecta­res) que lhe permite ser, por exemplo, a maior produtora de arroz, tomate e luzerna de Mo­çambique. Desse plano faz par­te a barragem de Massingir, obra no montante de 590 mil contos, em adiantada fase de construção.
Comandante Samora fala: «O Governo tem trabalhado bem. E eu colaboro, até nas «banjas» (reuniões das autori­dades com as populações), quando é preciso. Mas agora pedi mais 40 mil metros qua­drados de terreno, porque só assim poderei expandir à vontade a minha casa. Porque o meu filho mais novo, aquele que ali está, tem quatro meses. E meu irmão, Tanquisso Gabriel, também precisa de mais quatro hectares».
Estávamos a poucas horas das eleições para deputados à As­sembleia Nacional. Perguntámos ao pai do Presidente da FRELlMO se iria votar pelo Governo que o filho combate. “Voto pelo Governo Português, porque fez da minha terra uma grande terra”, salienta com energia. «Na­da percebo das ideias do meu filho. Só desejo mais quatro hectares para aumentar a gle­ba. E Samora pode voltar, que muita alegria dará aos nossos corações. Não sabemos se as autoridades lhe fariam bem ou mal. Mas pelo que vemos em relação aos outros, haviam de o receber bem. E eu e mamã havíamos então de morrer feli­zes...».



1 comentário:

António Bettencourt disse...

Um bom resumo. E é só a primeira parte:

http://dragoscopio.blogspot.pt/2012/11/forum-descolhonizacao-1-antestoria.html