01 novembro 2012

Conselheiros e pró-ministros estrangeiros contratados


Conde de Lipe, reorganizador do Exército Português

Como esta gente da comunicação social e do parlamento é de uma ignorância espantosa, há que esclarecer que a contratação de peritos estrangeiros não é coisa nova, nem anti-patriótica, nem é sinónimo de dependência, colonização ou ingerência. É praticada há mais de três séculos e pode, até, ser agente de fortalecimento do Estado e do país.
Deve ou não Portugal recorrer a peritos estrangeiros para a realização de reformas profundas do Estado? A questão está na ordem do dia e concita reacções violentas. O PS e as restantes bancadas da esquerda opõem-se a qualquer interferência de técnicos contratados. Por mim, tenho por adquirido que essa é a única via para redesenhar o Estado. Em abono da verdade, a questão é que não há Estado há mais de trinta anos e, se o há, é o Estado dos partidos e das clientelas que vivem disto. Em Portugal, após décadas de subversão do lugar e papel do Estado, não há serviço público, a superioridade do Estado foi usada e abusada por interesses e agendas que nada têm a ver com o interesse colectivo e qualquer reforma anunciada entra em colisão com lóbis, grupos, panelinhas e interesses de campanário. Há sempre uma tia, um irmão, um amigo, um cunhado, pelo que tocar na Saúde, na Justiça, no Ensino, na Defesa ou na Cultura implica entrar em coutada alheia.

A figura do conselheiro técnico estrangeiro foi prática comum no século XIX, sobretudo em Estados desejosos de integrarem a comunidade internacional e em busca de reconhecimento pleno, num tempo em que a todos eram reclamadas provas claras de aceitação do modelo ocidental. Tal como no Japão Meiji, na Pérsia dos Qajar, no Egipto dos kedivas Tewfik Pascha e Abbas II ou ainda na China do movimento de auto-fortalecimento – cujo maior animador foi o Príncipe Gong – o Sião de Chulalongkorn e Vajiravudh recorreu a centenas de peritos estrangeiros para conceber reformas estruturais, aplica-las e monitorizá-las, treinar quadros e permitir a transferência de tecnologias, mas igualmente para assistir os governantes em delicados processos negociais com as potências ocidentais. Antes, no século XVIII, os governos recorriam a estrangeiros - sem vínculo familiares, sem interesses a defender - para introduzir novos processos de governança.
Esse trabalho de redesenho do Estado era animado pelo declarado propósito de fazer avançar reformas genéticas que permitissem aos estados queimar etapas. Os meios disponíveis eram escassos, pelo que para o escalonamento das prioridades foi necessário criar uma hierarquia de conselheiros que garantissem efectiva arrumação orgânica do processo de mudança e permitir fiscalizar os vários planos de desenvolvimento. Como o governo se encontravam quase inteiramente nas mãos da parentela real – irmãos, meios-irmãos e, depois, filhos do Rei – ou da alta nobreza, importava que os conselheiros detivessem margem de liberdade para fazer aquilo que os naturais não podiam. No caso português, é manifesto que a elite nativa não consegue produzir reformas. Está manietada, tem medo ou está conluiada com interesses profundamente enraizados, pelo que a única solução é o recurso a gente não comprometida, ou seja, estrangeiros. Quem disser o contrário está a mentir, ou, se preferirmos, a lutar pela preservação de privilégios oligárquicos que não querem abrir mão das regalias de casta que se foram encastelando.

1 comentário:

Marco disse...

Miguel,
A Persia dos Qajar tiveram peritos estrangeiros que os levaram À revolta do tabaco.
E o Egipto dos Kedivas tiveram os famosos conselheiros britânicos e franceses, que os meteram em negócios ruinosos (conseguidos à bases de empréstimos sobre empréstimos). Seguiu-se a revolta popular e o bombardeamento de Alexandria.
Conselheiros estrangeiros? Porque não.
Mas vamos lembre-mo-nos que nem tudo o que eles dizem é adequado ou certo.