28 novembro 2012

A profanação do passado, génese do totalitarismo


Com quatro anos de atraso sobre a publicação, chegou-me finalmente às mãos o Livre Noire de la Révolution Française, tremendo juízo historiográfico sobre a mãe de todos os totalitarismos. Não se trata, bem entendido, de peça de propaganda, mas de obra colectiva de grande envergadura que conta com a colaboração da nata da academia francesa: Pierre Chaunu, Emmanuel Le Roy Ladurie, Xavier Martin, Jean Sévillia, Jean Tulard, Christophe Boutin. Quem não leu a Revolução Francesa, de Pierre Gaxotte, Le Terrorisme Révolutionnaire 1789-1799, de Bernard Lerat, Le Terrorisme Intellectuel, de Jean Sévilla, poderá persistir na ingénua opinião de pensar a Revolução como um bem manchado por erros e excessos. Contudo, lendo os autores que levaram à Revolução, aí encontra-se o pan in herbis dessa hacatombe, a ideologia homicida, o ódio à cultura que fazem a genética de todos os totalitarismos.
Foi com sobressalto e indignação que li o capítulo dedicado ao vandalismo revolucionário, essa guerra sem quartel que os governantes da Convenção votaram aos tesouros da memória do seu povo, num entusiasmo paranóico que não poupou abadias, mosteiros, palácios, bibliotecas, teatros. Entre estes feitos criminosos, que prepararam as matanças generalizadas que encheram a França de valas comuns, avulta a destruição metódica da Basílica de Saint Denis - um manifesto em pedra da arte gótica - alvo do ódio à história e à cultura. Saint Denis, o equivalente francês ao Escorial, era mais que o panteão das dinastias francesas, dos Merovingios aos Bourbons. Ali percorria-se um milénio de arte sacra que se confundia com a cristianização da Europa.

Em 31 de Julho de 1793, da tribuna da Convenção, Bertrand Barrere pedia em nome do Comité de Salvação Pública a destruição dos mausoléus reais em Saint-Denis . O deputado ganhou facilmente o apoio dos seus pares. A destruição ritual serviria para comemorar os eventos de 10 de Agosto de 1792, que haviam derrubado o trono. No dia seguinte, a Convenção Nacional decretava a imediata destruição dos "túmulos e mausoléus dos reis levantados na igreja de Saint-Denis, bem como em templos e outros lugares em toda a extensão da república", operação que devia terminar até um prazo de dez dias. A população não aderiu, pelo que foram criados grupos, coordenados por uma comissão mandatada pela Convenção para executar tal medida. A comissão foi entregue a um antigo beneditino, Germain Poirier, pedindo-se-lhe que procedesse à localização dos corpos das cinco dinastias dinastias presentes em Saint Denis.

Ao longo do mês de Outubro de 1793, dezenas de sepulturas de reis e rainhas, membros da família real, assim como as de nobres do reino foram profanados: a matança póstuma de Dagoberto, Hugo Capeto, Henrique IV, São Luís, Francisco I, Luís XIV, Isabel da Baviera, Maria de Médicis, Carlos Martel, de Constable Bertrand du Guesclin foram algumas das muitas vítimas sacrificiais de uma raiva revolucionária aparentemente irracional. Estes abusos continuaram com a exumação do Cardeal de Retz, 19 de novembro de 1793, de Margarida de Flandres, filha de Filipe V, 18 de janeiro de 1794.
Não foi, porém, um movimento espontâneo. Foi um crime metódico, legislado, pago pelo governo. Que diferença, pois, entre Pol Pot, a queima dos livros na Berlim de 1933, a dinamitação da catedral de Moscovo e a destruição de Saint Denis pelos comités revolucionários ? No próximo ano celebram-se 220 anos sobre esse acto de barbárie. É evidente que Hollande passará ao lado. Há coisas que não interessam aos baladeiros das mentiras reverenciadas. Em 1793, precisamente em Outubro, plantava-se a Árvore da Liberdade sobre a morte do passado. As tiranias só crescem entre gente privada de passado.


10 comentários:

Paul disse...

Une Révolution toujours d'actualité…

Le maire de Londres: "les sans-culottes ont capturé le gouvernement français"
uesdbl

Rodrigo Lobo d'Ávila disse...

Graças ao Napoleão que correu com a corja toda da revolução!

Mário disse...

Apenas um comentário sobre a génese do totalitarismo.

A Revolução Francesa foi o evento em que já estava presente, de forma inegável, a marca dos totalitarismos modernos, mas colocar aí a sua génese é um exagero. Não temos que colocar essa génese em Platão, como o faz Karl Popper, mas devemos remontar, em termos históricos, pelo menos, à revolta protestante, especialmente no que diz respeito ao calvinismo e ao controlo da vida privada, e ao absolutismo, que colocando o rei acima de todos os outros poderes foi em si o primeiro acto decisivo do movimento revolucionário. A Revolução Francesa foi um segundo passo, que mostra o que é a própria dinâmica revolucionária: a revolução avança destruindo-se a si mesma, renascendo mais forte e com outras roupagens, mas sempre com o objectivo de concentrar o poder em nome de um futuro melhor, que sempre será adiado.

Portugal, não tendo nem absolutismo, excepto nas tentativas do Marquês de Pombal, nem contaminação protestante, começa a receber a influência das ideias totalitárias apenas por via dos ecos da Revolução Francesa. Os monárquicos deverão ser os primeiros interessados em restaurar apenas aquilo que é genuinamente português.

Daniel Azevedo disse...

Curiosamente, das primeiras vezes que visitei Paris e buscava uma (alguma) obra sobre a revolução francesa numa FNAC (of all places) foi precisamente a de Gaxotte que encontrei - não havia mais nenhum que falasse do assundo de uma forma abrangente.
Fiquei bastante surpreendido por se tratar de um texto altamente crítico do evento.

Mário Rodrigues disse...



A Aletheia tem uma edição em português a 20 euros. A edição francwsa custa cerca de 65 euros...

OCTÁVIO DOS SANTOS disse...

Concordo, e já escrevi sobre o assunto...

http://centenario-republica.blogspot.pt/2009/07/mortandade-rapacidade-calamidade.html

Duarte Meira disse...


Só na região mártir da Vendeia, entre 1791-93 foram dezenas de milhares de mortos!

Mas permita-se me uma advertência à obesrvação do ssr. Rodrigo Lobo d' Ávila, totalmente equivicada. O corsário Buonaparte foi e exportador da Revolução para a Europa! Desde a prisão do Papa - a que nem um Hitler se atreveu -, até à hecatombe da Grande Armée na campanha russa, até à sua herança cultural (Códigos Civis...)de educação estatizada e "ensino obrigatório", que ainda nos afecta hoje... O estado actual da França é o retrato chapado das consequências dessa herança, que não mudará enquanto o francês médio continuar a homenagear um tal bandido - o primeiro exemplar típico daqueles ditadores que se lhe seguiram.

MIGUEL disse...

O CORSÁRIO CÓRSICO OU CORSO DA CORSEGA ?
CONCORDO: O HOMEM NAO CORREU COM NINGUÉM, FOI CORRIDO !
E COMEÇOU AQUI.

Chardon Ardent disse...

L'assassinat de Louis XVI décidé en 1784 - 1785 par la Franc-Maçonnerie

Chardon Ardent disse...

Cet article qui me paraît majeur quant aux agissements des maçons non seulement dans la période qui a précédé la Révolution française mais encore aujourd'hui :

L'assassinat de Louis XVI décidé en 1784 - 1785 par la Franc-Maçonnerie

est publié par le site Démocratie Royale qui l'a extrait d'un ouvrage publié en 1904 sous le pseudonyme Maurice Talmeyr : La Franc-Maçonnerie et la Révolution française.

Cet ouvrage peut être librement téléchargé dans son intégralité à partir du lien :

http://archive.org/details/lafrancmaconner00talm