29 novembro 2012

A "carta aberta" e outras tecnologias do passado


As cartas abertas tiveram o seu tempo. Faziam parte do horizonte tecnológico nos anos de ouro do jornalismo - entre finais do Oitocentos e os do advento da rádio - e confundiam-se com o mundo, nos termos em que os frequentadores das tertúlias e dos cafés da conspirata e da maledicência entendiam o mundo: uma centena de senhores bem-postos, umas dezenas de jornalistas à cata de fofocas, políticos em busca de lugar, uns miúdos em volta dos velhotes do reviralho aguardando um lugar na revolução que se esperava. As cartas abertas, hoje, há-as aos centos circulando com profusão de praga na internet. Há abaixo-assinados para tudo o que interessa e não interessa e não há dia em que no facebook ou no twitter não nos interpelam para deixar uma assinatura virtual. Em suma, cartas abertas e ácaros é o que não falta.

Tomei conhecimento da carta aberta que Soares, encabeçando um comboio de octogenários, enviou à Assembleia e ao presidente de Belém exigindo a demissão do Primeiro-Ministro. Mário Soares (88), Eduardo Lourenço (89), Júlio Pomar (87), Pires Veloso (86), mais uns amigos reformados (Bruto da Costa, 74; Siza Vieira, 78; Boaventura Sousa Santos, 70, João Cutileiro, 75) e uma lista interminável de gente independente, que nunca amesendou, que sempre repeliu a canga de um alfinete na lapela (Eduardo Ferro Rodrigues, Fernando Rosas), "teólogos" (Bento Domingues), "filósofos" (Barata Moura do fungagá), "artistas" (Abrunhosa e Tordo) e até o omnipresente Jojó papa-prémios, todos com exigências de diktat pedindo a cabeça de Passos Coelho. Vão-se despir, tenham vergonha, usufruam das reformas e deixem que outros, eleitos, amenizem os efeitos dos quarenta anos de regime de benefício e senhorialização que os abaixo-assinantes aplicaram ao país. Há dias em que não tenho paciência para compreender terapias ocupacionais, muito menos demências senis.

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