18 outubro 2012

Que volte a oratória


Dizem os estudiosos da língua portuguesa que houve um tempo em que os portugueses falavam abrindo as vogais e que Os Lusíadas, os Sermões de António Vieira e as alocuções de D. Francisco Manuel de Melo só poderão ter éclat se ouvidos na variante portuguesa do Brasil; ou seja, como falavam os nossos antepassados. Depois - vide Telmo Verdelho, vide Massaud Moisés - a língua fechou-se, enrolou-se, perdeu sonoridade. Com Camilo, o último grande sopro da vernacularidade portuguesa antiga, morreu uma era. A subtileza substituiu a inteligência da língua, a estreita fórmula, repetitiva, envergonhada e académica separou para sempre a língua escrita da língua falada, o arrebite à Eça (um grande destruidor) instituiu o adorno para ocultar a falta de pensamento. Os portugueses têm medo da língua, falam mal e escrevem pior. Um medo quase infantil impede-os de comunicar sentimentos, estados de alma e o sic et simpliciter necessário para saber exprimir convicções e lidar com o contraditório. A fórmula escapatória é o ataque pessoal - tudo em Portugal envolve remoques e ódios pessoais, adjectivos e não-pensamento - e dessa carapaça que matou a comunicação de ideias, o rigor dos conceitos e a festa da criatividade, nasceu esta gente cinzenta, com a espontaneidade de uma pedra, incapaz de usar a língua como anteparo e complemento da inteligência. Não há graça, não há ironia, não há riso nem paradoxo para além da mais pobre das figuras semânticas (o sarcasmo). A vida parlamentar - feita de gente apagada e semi-letrada - oferece o instantâneo da queda da língua e os escaparates das livrarias são dominados pela prosa medíocre das teses académicas sem chama, pretensiosas e afectadas que repetem à exaustão os mesmos topos. Fulanos há, conhecidos pela "obra", que nunca excedem os limites do manual escolar: comboios de citações, glosas, leituras de leituras. Perdeu-se, meus caros, a tradição jesuítica e a gramática aristotélica da clareza.
Ontem pela madrugada ouvi Catarina Molder na RTP-2 - o último reduto de cultura num país sem espírito - e espantei-me. Aquela mulher parece tudo menos uma portuguesa. Fala com paixão, convence, assedia, é inteligente e culta, não tem medo do ridículo e faz parte daquela raça em extinção que são os oradores. Hermano Saraiva e o Padre Manuel Antunes morreram, Joaquim Veríssimo Serrão - extraordinário palestrante - está nos 90 anos e não deixaram discípulos. Ficaram uns homenzinhos gorduchos, uns leitores de papéis, uns falantes envergonhados. Destina a nossa.


5 comentários:

Luciano disse...

Seria Catarina Molder, e não Cristina?

Luciano disse...

Excelente cantora, de fato...

Duarte Meira disse...


Lembremos o padre jesuíta e professor bracarense António Freire, classicista emérito, latinista que arrebatava congressos internacionais com uma oratória que foi comparada a Cícero.Ainda chegou a ter um programa sobre Língua Portuguesa na RTP2, após Abril, que era tansmitido a desoras e breve acabou, mas inesquecível na memória de quem o viu.

Poderia ter ficado tão famoso como outro inesquecível orador (com muito diferente estilo), o saudoso Vitorino Nemésio.

Bonaparte disse...

Esse grande vulto da cultura portuguesa e clássica, um humanista, sobretudo, um grande homem. Recordo-o com muita saudade.

Bic Laranja disse...

Posso enganar-me, mas cuido que se mitificou essa elevação das vogais átonas em Portugal e, pior, assimila-se exageradamente a entoação antiga do português ao sotaque brasileiro.
Pois o mito é desmentido pela grafia medieval de «Purtugal», na «Coronica do Condestabre», entre inúmeros outros documentos bem anteriores à colonização do Brasil. E assemelhar o português do sotaque ao entoar do português moderno (o de Camões e Vieira, bem entendido) tem muito romantismo, mas, haveríamos provavelemente de ter de recuar à fase do galego para entroncar o martelar sonoro das sílabas átonas dos brasileiros hodiernos no português, o que é anacrónico.
Cumpts.