09 outubro 2012

Os ricos que paguem a crise



Eis os trabalhadores da estiva - os tais que vencem mais que um médico cirurgião, um juiz, um professor catedrático ou um general de três estrelas - dando largas às mais elevadas exibições de criatividade  linguística dos salões literários da oposição "cidadã" ao governo. Desde os primeiros momentos do micro-PREC de Setembro que levantei as mais ponderadas reservas a respeito da espontaneidade destas manifestações. Gente nutrida, ataviada com a traparia das lojas do Colombo e da Rua Augusta, gente que viveu os vinte gloriosos do despesismo sem jamais se haver questionado sobre as razões da vida airada que nos trouxe à beira do despenhadeiro, fulanos que não estudaram, que aspiravam ao conforto, que tinham a servi-los bancos e cartões de crédito ( para os carros, as motos, os apartamentos, os divano divani, os cruzeiros e as noitadas) que um dia teriam de ser pagos com juros, gritam contra um Primeiro-Ministro que ganha menos que qualquer um deles.

Não se trata, não senhor, dos ventre-ao-sol dos velhos tempos. Não é povo, nem têm a coroá-los a heroicidade do trabalho suado, a luta pela malga do caldo, a ganga surrada das duras jornadas da carga e descarga. Tempos houve em que a classe operária tinha classe, com a sua elite de autoditactas, as associações de classe que abriam escolas nocturnas, constituíam caixas de aforro, cooperativas de habitação proletária, publicavam jornais, promoviam sessões de teatro e palestras. Essa classe operária morreu. A gloriosa classe operária do sindicalismo do trabalho que lutava contra a exploração das jornadas de 18 horas de trabalho, do trabalho infantil, dos salários de miséria para as mulheres, da vida insalubre nos tugúrios da tísica e da promiscuídade, acabou.

Agora, trata-se tão só de burguesia iletrada, malsã e eriçada de reivindicações a que não têm qualquer direito. Deviam ter um pingo de vergonha e passar umas férias de trabalho nos sucateiros do Bangladesh, nas fábricas da MITAL em Bombaim, nos compounds das cidades industriais da China e aí reaprenderem - se querem brincar com bonecos neo-realistas - o que é sobreviver nas canseiras sem esperança das velhas e gloriosas classes laboriosas. Se os visse, Azedo Gneco vomitava.

4 comentários:

Gonçalo Correia disse...

Era uma vez um mundo feito de valentias plutocráticas, a crédito, possuídas por um bando de heróis. Gente que vivia entre orgias financeiras (gente obscena!) e viagens para destinos exóticos (quanto mais exótico, melhor!). Lá, nesses paraísos, qualquer cartão de crédito era rei e senhor, claro. Os heróis devidamente encartados, a crédito, e as suas roupas, impecavelmente lavadas, transpareciam candura. Branco mais branco, só a crédito! No entanto, este bando tinha um pavor especial de outro Geraldo dos tempos modernos: Troika, a sem pavor. Sempre que Troika aparecia, o bando mostrava o seu verdadeiro (e único) vocabulário pós-PREC, sem crédito, gemendo contra a temeridade de tal personagem saído de uma qualquer banda desenhada série Z. A cobardia contra a temeridade. Afinal de contas, a enésima repetição milenar…

scheeko™ disse...

Pelo menos são adeptos da reciclagem. Os coletes e os slogans já têm, pelo menos, três anos:
http://www.tvi.iol.pt/videos/13149029

Duarte Meira disse...

« Não é povo, nem têm a coroá-los a heroicidade do trabalho suado ....»

Excelente e justiceiro comentário!

EstivadoresAveiro disse...

Quando se generalista uma classe cometem-se erros do tamanho do mundo,sou estivador e o único privilégio que tenho é ter trabalho neste momento.Os estivadores não estão a fazer greve para verem os seus salários aumentados - logo, o argumento do seu salário é pura demagogia. Os estivadores não estão a fazer greve para trabalharem menos. Nem para terem mais direitos. Estão a fazer greve para defenderem os seus postos de trabalho. Sabendo que esses postos de trabalho correspondem a funções que continuam a ser necessárias.

O único crime dos estivadores é levarem o direito à greve a sério. A greve não é um mero gesto simbólico. Não cumpre a função de uma manifestação. É o momento em que o trabalhador usa a única arma que tem: a do lucro do seu empregador depender do seu trabalho. Só há um responsável pelas perdas económicas que resultam desta greve: um governo que, servindo a ganância de quem prefere ter escravos ao seu serviço, em vez de profissionais especializados, se recusa a negociar.

Os estivadores, pela sua coragem, determinação e firmeza (que os faz perder muito dinheiro todos os meses), são um exemplo. De quem não aceita perder a sua dignidade sem dar luta.