15 outubro 2012

Morreu o Rei-deus


Se no mundo contemporâneo ainda há espaço para o fantástico, Preah Karuna Bat Sâmdech  Sihanouk do Camboja (ព្រះករុណាព្រះបាទសម្តេចព្រះនរោត្តមសីហនុព្រះមហាវីរក្សត្រ) ocupará decerto lugar proeminente. Rei-deus (devarajá) que levou o seu povo à independência (1954), abdicou no seu pai para ser líder de uma via budista para o socialismo (1963), foi deposto por um golpe republicano pró-americano (1970) para regressar ao trono (1992) e abdicar no seu filho Sihamoni (2004). Personalidade mercurial, errática e imprevisível como o são os deuses bramânicos, marcou uma era, surpreendeu e deixou sempre atónitos os mais experimentados analistas.
Inteligente, político carismático que acumulava com as prendas de realizador de cinema, prolífico autor de novelas, ensaísta e memorialista, bem como compositor de mérito (ouvir música de fundo), Sihanouk ofereceu ao Camboja uma década de grande abundância e orgulho. Em 1965, o Camboja era um dos mais progressivos países da Ásia -mais rico que a rica Singapura - mas tudo se perdeu no perigoso jogo de dominó da luta pelo Sudeste Asiático. 
Amado pelo povo, morreu em Pequim, onde foi sempre tratado por Mao e seus sucessores com todas as deferências reservadas aos reis. Há dois anos, quando estive em Phnom Penh a desenvolver investigação nos Arquivos Nacionais do Camboja, confrontei-me com o culto ao Rei Pai, sentimento entranhado e vivo que foi ganhando força ao longo das décadas mais brutais de guerra e genocídio. Sihanouk foi um grande homem e uma história que excede a ficção.

1 comentário:

Arun Mai disse...

His movies are quiet entertaining even though Sihanouk usually staged as play writer, director, producer, music composer and leading actor at the same time. Nice choice from among his music Sir, and a very charming portrait of HM on the top…^-^