29 outubro 2012

Grandezas pretéritas: já ninguém lembra o boticário de Dom Manuel I



Passaram este ano 500 anos sobre o início da redacção da Suma Oriental, de Tomé Pires (c.1468- c.1540). Infelizmente, tão importante acontecimento passou quase despercebido pela nossa academia e pelo movimento editorial, marca do alheamento e incúria que nos vão lentamente alienando das referências, dos homens, dos factos, circunstâncias e ideias que fizeram outrora a grandeza de Portugal no mundo. Que eu saiba, só a Biblioteca Nacional lembrou a efeméride. Com os poucos meios disponíveis, organizou-se uma mostra. Tomé Pires merecia um congresso, mas parece haver coisas mais importantes para quem detém o sim e o não das coisas da cultura. Lembrando tardiamente a passagem desse acontecimento, aqui transcrevo passagens do texto que então escrevi sobre o boticário do Rei Dom Manuel. 

Mandado à Índia em 1511 como “feitor e vedor das drogarias”, passou sucessivamente por Cochin (1511-1512) e Malaca (1512-1513), onde inquiriu, com descrição minuciosa, sem adornos de estilo, mas incontida inclinação para o humor – e até para a revelação de coisas escabrosas para a sensibilidade do tempo – a origem e atributos das drogas e especiarias que faziam a fortuna da Coroa. Missão cumprida e cabedais amealhados, foi-lhe negado o regresso ao Reino por Lopo Soares de Albergaria, que o mandatou para encabeçar uma embaixada à China por ser o “mais hábil e apto que podia ser, para além de ter pessoa, e natural discrição com letras, segundo sua faculdade, e largo de condição, e aprazível em negócios, era curioso de inquirir, e saber as cousas, e tinha um espírito vivo para tudo” (João de Barros). Nas Lendas da Índia, Gaspar Correia dele informava tratar-se de homem “muito prudente e muito curioso em saber todas as coisas da Índia”. Porém, a missão à China foi um clamoroso fracasso, pois no Império do Meio perdeu-se-lhe o rasto, após execução dos seus companheiros por ordem dos mandarins, e ali terá placidamente morrido, já entrado nos anos, deixando como filha uma Inês de Leiria, que Mendes Pinto encontraria em 1543 no decurso da sua Peregrinação.

Giovanni Battista Ramusio dera conta da existência da Suma no seu Navegazione e Viaggi. Em meados do século XIX, o texto foi referido pelo Visconde de Santarém nos seus Estudos sobre Cartografia Antiga, sem contudo a ter podido consultar nem indicar o seu paradeiro, pelo que a obra só ressuscitou para os vivos pela mão de Armando Cortesão em finais da década de 1930, quando o manuscrito há muito perdido foi finalmente identificado na Biblioteca da Assembleia Nacional de França. Tão surpreendente como a descoberta do manuscrito, foi a aventura e deambulações por que passou até chegar à biblioteca onde actualmente repousa. Da biblioteca de Dom Jerónimo Osório, bispo de Silves e figura proeminente do Humanismo português de Quinhentos, fora parar às mãos de um corsário inglês – talvez em finais do século XVI – e depois vendido a um bibliófilo francês que o arrematou em Londres . O exemplar terá sido confiscado e nacionalizado por alturas da Revolução em França. Armando Cortesão dispôs-se e publicá-lo, mas e primeira edição foi publicada em língua inglesa em 1945. Em Portugal só conheceria a letra de forma em 1976.

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