13 outubro 2012

Adornai !

Interessa-me mais o clamor povo que o chinfrim da burguesia indignada. O povo dos 60% que nunca protestaram, que nunca teve ilusões, que foi forçado a destruir o seu sustento secular, obedecendo a criminosas determinações da burocracia de Estrasburgo, nunca ouvido pela nova classe média, também sai à rua. Porém, se a manifestação hoje se pôde orgulhar de ter por si o povo do trabalho, gente simples e verdadeira na expressão do medo e da ansiedade, a CGTP teima em abusar das vítimas da crise. A crise - deviam dizer-lhes - foi produto de trinta anos de desastrosas políticas em que todos foram culpados. A CGTP recusa-se explicar aos trabalhadores que, sem a detestável Troika, Portugal ("lixo financeiro") estaria neste momento a passar fome, que as escolas estariam fechadas, assim como os hospitais, os tribunais, os mercados, que não haveria combustível nem farinha para o pão. Perdida a indústria pesada, a indústria metalomecânica, abatidas a marinha mercante e a frota pesqueira, desagregada a produção agrícola - fatalidade de uma entrada a empurrões, primeiro na CEE, depois na UE - os comunistas nunca ofereceram alternativa ao descaminho que nos trouxe a esta situação
Onde estava a CGTP quando Portugal aderiu ao Euro ? Onde estava a CGTP para travar o passo ao Tratado do Comércio Livre, à globalização, à disseminação do crédito e dos bancos ? A essa gente convém o caos, caldo que alimenta messianismos desvairados. Tiveram décadas para se ambientarem às novas condições e não o fizeram; antes, resistiram obstinadamente aos sinais do tempo, assinaram por baixo todas as políticas de alienação, com medo de perderem clientela iludida com a abundância, o "bem-estar", o "rendimento mínimo garantido" e tantas outras quimeras que agora terminaram para todo o sempre. A CGTP fez frente à privatização do ensino? A CGPT fez frente à destruição do comércio familiar ? A CGTP contrariou um certo sindicalismo terrorista - vide greve dos portos, que acumula já prejuízos de 500 milhões - e alguma vez se preocupou com a venda do Alqueva a empresas espanholas? A CGTP procurou plataformas de negociação com o patronato, flexibilizando a lei laboral para permitir maior competitividade à nossa economia? Esboçou a CGTP o mínimo protesto quando a Portugal chegaram 600 000 trabalhadores estrangeiros ? A CGTP contestou a criação das PPP ? A CGTP mostrou alguma reserva perante projectos megalómanos de novos aeroportos e TGV's ? A CGTP levantou objecções às auto-estradas, ao abandono de Lisboa e à especulação imobiliária ?  Não foi a CGTP cúmplice na destruição dos grupos económicos portugueses, aqueles que tinham rosto, investiam na indústria, fixavam tecnologia e especializavam o operariado? A CGTP não fez guerra sem quartel às multinacionais, afastando de Portugal as maiores empresas europeias, que daqui saíram vinte anos antes da globalização ? 
Alguma vez - à imagem do que acontece em Itália, na Alemanha e no Reino Unido - procurou a CGTP angariar linhas de crédito para organizar cooperativas de produção e comercialização? Alguma vez passou pela cabeça dos líderes da CGPT abrir um instituto politécnico, destinado a garantir formação especializada aos seus associados, bem como assessoria jurídica e técnica destinada a favorecer o nascimento de micro empresas? 
Custa-me, decididamente, que os trabalhadores sejam usados e manipulados pelos profissionais do protesto.


Os flagelados do vento leste. A procissão passa, lenta, fúnebre, arrastada. Velocidade, 1 km por hora.


Tanta gente: 4 pessoas. "Luísa sobe, sobe a calçada, sobe e não pode que vai cansada".


Maria de Belém Roseira, versão do Monte da Carocha, Beja.


Muralha de aço, pormenor.


Cristero da igreja dos últimos dias anunciando a boa-nova.


Chetnik e seus enfermeiros.


Concheiro de Muge e homens de Ötzi.


Brigada mista Enrique Líster, frente de Aragão, 1937.


Colectivo Vladimir Ilyitch Uliánov após sessão de leitura crítica de "Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo".


Prometeu não proferir palavrões, mas não se conteve. O médico passou a declaração; diagnóstico, coprolalia.


Um cadáver mais pela largura que pela altura.


Romeiro de Fátima do marxismo-leninismo.


Sortudos, estes pregoeiros vão de berlinda.


O Lord Hallifax da manif.


Advogado sem honorários em luta pelo pão com manteiga.


Volkssturm em marcha para as trincheiras da Groß Lissabon.


O homem de 2003-2004-2010 e 2012.


Komsomol de Fialho. 


Erich Honecker foi à Zara comprar uns algodões produzidos pelas chinesinhas do compound de Xining, 20 cêntimos à hora.


Arménio Carlos, penteado cacheado.

3 comentários:

João Amorim disse...

Miguel

É impossível não dar umas gargalhadas com a sua cáusticidade e bom humor! O recorte dos "profissionais do protesto" resume-se a isto.

Combustões disse...

É, caro joão, não obstante haver sempre quem queira tirar proveito da exploração deste povo usado e abusado por gente sem escrúpulos. A eles não interessa um povo instruído, educado, elevado. Querem-nos assim, desesperados e aos caídos. Tivemos 40 anos para desfazer as enormes bolsas de subdesenvolvimento e não o fizemos.

zazie disse...

eheheheh

Eu também acho que se resume a isto mas pode ter consequências que não são apenas folclore.