06 outubro 2012

A Santa Censura que teima em funcionar


O dia foi rico em pantomimas: a bandeira de pernas para o ar na blindada cerimónia para os apparatchik, o discurso de Costa fazendo de Secretário-Geral do PS e do Presidente fazendo de Sumo Sacerdote, planando sobre píncaros obscuros; a gritante de serviço, rábula obrigatória para qualquer cerimónia que meta hierarcas do regime, mais a canora protestante cobrindo de ridículo, medo e consternação os senhores do aquário em que se foi transformando o regime, caquético de 38 anos. O 5 de Outubro foi, sempre, uma não-cerimónia, mas este ano a dita república terá perdido, caídos no tropel da fuga para os carros blindados, os anéis e as gargantilhas, temendo que um mais ousado lhe cortasse os seios.

                 Os últimos dias do regime

Pela tarde, minuto sim, minuto não, a baterias da manipulação das tv's - as tais que badalam os sinos freneticamente para chamar o povo das indignações e das manifestações "ladrões-vão-trabalhar-gatunos" - para dar corpo a uma indignação compostinha. Dois mil burgueses ataviados das gangas da praxe metidos na Aula Magna, dois mil que lá estão desde sempre, o sorrisinho bem-aventurado, o destrambelhado discurso arqueológico que fez a fortuna dos PC's de outrora, os abaixo-assinados sobrepondo-se à legitimidade do voto, a alacridade da ideologia salva-mundos. Os dois mil - que só multiplicados por dez dariam um deputado - falaram em nome do povo, pediram a cabeça do Primeiro-Ministro e quase que deixaram confessar o propósito do ajuntamento, ou seja, catapultar Carvalho da Silva para a presidência.

Da digníssima sessão patriótica que teve lugar no Palácio da Independência, nada. A Mesa Censória continua como dantes, cortando, silenciando, torcendo, escolhendo aqueles que existem e impedindo de falar aqueles que detêm, talvez, a chave para a salvação da liberdade deste país que se vai despenhando lentamente pelos caminhos do caos e da anarquia. O Senhor Dom Duarte, de mãos limpas - os monárquicos não roubaram, não traíram, não engaram - preferiu uma comunicação que devia ter sido ouvida, lida e reflectida por todos os portugueses. Falou de pátria, de salvação colectiva, de amor e cooperação entre todos os portugueses, lembrou que estamos todos juntos e que a salvação reside na unidade. Para os lápis vermelhos do garrote da censura que não reconhece o nome, a única sessão do dia que convidava à elevação não aconteceu. Este país é, manifestamente, merecedor das maiores reservas. Recusa a mão que lhe estende a paz, a dignidade e a restauração.

Temo que nos próximos dias algo de terrífico aconteça. Estamos, caros leitores, na iminência de um magnicídio. Vai acontecer. Há no ar pólvora e ódio prestes ao deflagrar de um espectáculo que nos deixará atónitos pela imprevisibilidade brutal. O regime e os censores não querem ver. Espero não ter razão e que a minha intuição me engane.

4 comentários:

António Luís disse...

Concordo!
Com tudo!

jorge.oraetlabora disse...

Deus o oiça, Miguel !
De facto, com esta gente não há qualquer hipótese de voltarmos a ter um País, muito menos a regeneração da Nação Portuguesa. Estes indivíduos, que pretensamente governam Portugal,não têm o mínimo gabarito para desempenhar quaisquer funções, as mais simples que sejam. Falta-lhes um mínimo de inteligência e de sensatez. E... quanto a valores morais... nem vale a pena falar...

Duarte Meira disse...

«Temo que nos próximos dias algo de terrífico aconteça. Estamos, caros leitores, na iminência de um magnicídio. Vai acontecer.»

Já aconteceu. Caiu sobre nóe em 1975. Aconteceu em 1 de Janeiro de 1986. Aconteceu em 11 de Fevereiro de 2007.

Caro Miguel, tem de estar preparado para aguentar mais do mesmo... e pior. Lembre-se de o que o pensamento teológico dizia sobre o inferno...

Duarte Meira disse...


Seja-me permitido acrescentar :

Tivemos ontem o símbolo eloquente da situação. Por um lado, o hastear público da Inversão por pseudo-governantes, que governam nada e representam ninguém, apenas números e siglas abstraídos de urnas eleitorais. Por outro lado, o Real Representante e a sua mensagem – que diz tudo -, vital para os representados, completamente abafada, como que reduzida a nada.

A tentativa de reduzir a nada e abafar tudo o que é vital na vida real de um povo – eis a infernal inversão em que prosseguimos vai para três décadas. O resultado da tentativa – o nada – é impossível; mas a força obstinada em consumar o impossível provoca sofrimento. Um sofrimento que se pode prolongar por tanto mais tempo quanto já não temos autonomia política para nos livrarmos sozinhos duma situação – que já não nos afecta só aos portugueses.

Mas a vasa do inferno sobre a terra, atomisando os indivíduos, despersonalizando e desalmando as pessoas, tornando a existência em geral cada vez mais penosa, desorientada, entediante e vazia - não é o Real, inerradicável.

Uma perspectiva realista, meu caro Miguel, parece aconselhar menos ênfase no “político”. (Por exemplo: menos tempo perdido com comparações entre um caricatural boneco e uma coisa séria como foi a Nova Monarquia.) Não é aqui,na dimensão do político, aliás nunca foi, que se joga já o decisivo. Eis o que também se aprende com o sofrimento. Os nossos reis cristãos sempre o souberam...

( El-rei D. Carlos estava desde a noite anterior, em Vila Viçosa, avisado do que se preparava contra ele e toda a Família Real; e sabe-se o que ele terá dito quando assinou o decreto de 31 de Janeiro; pois nem o acidente com o combóio, nem João Franco, nem Vasconcelos Porto o fizeram optar por um landau fechado... Como já antes D. Sebastião... )