15 outubro 2012

Alter-história: a pauperização histórica de Portugal


Se as pessoas são na generalidade avessas ao raciocínio especulativo, são-no em absoluto à projecção estatística e à quantificação interpretativa, teimando em não querer ver a evidência daquilo que, sabem, contraria lugares-comuns, crenças e  mitos profundamente ancorados. Há alguns anos, no mestrado em Geopolítica e Geostratégia, comecei a trabalhar com tabelas de avaliação de poder dos Estados. Se é certo que o Produto Interno Bruto não faculta, por si, mais que informação genérica que requer comparação com outros dados, permite situar o nível de riqueza das nações e, assim, garantir maior legibilidade ao sistema internacional e às relações de poder existentes entre os actores.
Se analisarmos a posição de Portugal no mundo, entre 1500 e 1820, isto é, entre o início da construção do Estado moderno e a Revolução Liberal, verificamos que Portugal oscilou entre a 7ª e a 9ª posições, ou seja, o lugar ocupado pelas grandes potências. Depois, entre 1870 e 1913, decaiu para o segundo grupo dos Estados ditos médias potências. A República atirou-nos para a condição de pequeno Estado, posição revertida entre 1950 e 1973, mercê de sólidas políticas genéticas de transformação económica. Em 1973, Portugal era, em termos comparativos, o 14º mais rico actor económico mundial. Trinta anos depois, cheios de nós - europeus, grandes consumidores - éramos o 39º, em 2017 seremos o 52º e em meados do século que corre estaremos na 73ª posição, atrás do Bangladesh.
Há que fazer uma leitura política dos dados. Não o fazer é enterrar a cabeça na areia e atalhar o caminho para a absoluta insignificância.

Produto interno bruto
1500: Portugal na 12ª posição (tabela Madison), de facto 7º.
1600: Portugal na 14ª posição (tabela Madison), de facto 9º.
1700: Portugal na 12ª posição (tab. Madison), de facto 8º.
1820: Portugal na 13ª posição (tab. Madison), de facto 9º.
1870: Portugal na 15ª posição
1900: Portugal em 21ª posição
1913: Portugal na 20ª posição (ponderada)
1938: Portugal na 23ª posição (tabela Bairoch 1830-1938)
1950: Portugal em 16ª posição
1973. Portugal em 14ª posição
2005-2011: 39ª posição
2017: 52ª posição (estimativa 2010-2017)
2050: 73ª posição

2 comentários:

João José Horta Nobre disse...

Muito bom o seu blog.

Já o adicionei na minha lista de blog's.

Abraço,
João Nobre

www.venenopuro2010.blogspot.com

Pedro Leite Ribeiro disse...

Estes dados referem-se apenas à Metrópole, depois, Portugal, ou ao Império? No caso de se tratar de Portugal no seu todo, isto é, o Império Português, temos que assinalar as épocas em que as colónias, primeiro Brasil, depois PALOP, obtiveram as suas independências. Parece-me admirável a descida de apenas uma posição, entre 1700 e 1820, tendo em conta os ataques dos espanhóis e franceses dos inícios do s. XIX. O mesmo em relação ao período seguinte (perda do Brasil, Guerra Civil e rebeliões populares) em que se verifica uma descida de apenas dois lugares. Há que ter em conta, em períodos seguintes, as industrializações de novos países, como a Alemanha, por exemplo, além de Japão, EUA, Austrália, Canadá, e o aparecimento de novos Impérios Coloniais (Alemanha, Bélgica, Itália). Depois a ascensão económica de antigas colónias nas Américas, na Ásia e no Índico. O crescimento dos países do Norte da Europa e o aumento vertiginoso do PIB de países produtores de petróleo. Os BRICS... Enfim, uma panóplia de factores a considerar. Mesmo a melhoria verificada entre 1938 e 1950 estará também relacionada com a destruição dos países envolvidos na II Guerra. Nos primeiros períodos referidos, apenas tínhamos a concorrência de outros Impérios europeus.