19 setembro 2012

Alter-história:um carniceiro honoris causa


Santiago Carrillo morreu ontem na sua cama. Tributaram-lhe os jornais da estupidez inteligente os mais rasgados panegíricos. Carrillo foi, talvez, o mais brutal dos líderes comunistas espanhóis escapados à guerra civil e à justiça. Enquanto Conselheiro da Ordem Pública, respondendo directamente perante Largo Caballero, foi o responsável pela aplicação do terror de massas, pela coordenação das duzentas checas existentes em Madrid, assim como da gestão dos massacres multitudinários de Paracuellos del Jarama, onde em inícios de Novembro de 1936, foram executadas cerca de 3 000 pessoas tidas por inimigas da República. A maioria dessas vítimas eram padres, religiosas - algumas de setenta e oitenta anos de idade - membros da aristocracia, simples professores, comerciantes e até crianças de colo.
Há poucos anos, familiares e descendentes das vítimas moveram uma acção a Carillho, ao PCE e ao governo espanhol. A acção judicial foi recusada por Baltasar Garçón, o homem que provocou a detenção de Pinochet com o argumento do envolvimento do ex-chefe de Estado chileno na desaparição de 3000 opositores. A eterna protecção dada aos comunistas !

Muitos defenderam a inocência de Carrillo naqueles massacres. Contudo, após o colapso da URSS, abertos os arquivos do Comintern, confirmou-se o directo envolvimento do líder comunista na preparação de listas, logística, transporte e abate de prisioneiros. Carrillo foi acusado por Enrique Lister nas suas Memorias de un luchador, e Dimitrov confirmou o carácter implacável do homem que viria a ser um dos fundadores do chamado euro-comunismo. Mais, Carrillo foi também responsável pelo morte de muitos anarquistas do CNT e de centenas de comunistas espanhóis libertados dos campos de concentração alemães no imediato pós-guerra, considerados "infectados pelo vírus do fascismo". Como dele disse Lister, "Carrillo é um gangster da política e actuou sempre como um gangster".

Há anos, a Universidade Autónoma de Madrid concedeu-lhe o título de doutor honoris causa. A justiça dos homens é hemiplégica. A falta de vergonha, o embotamento voluntário da memória e a cobardia moral de tantos são prova que, afinal, tudo é relativo. O homem era um bandido. Escolheu sempre o momento certo para escolher os seus protectores: estalinista sob Estaline, democrata na Espanha da transição.

9 comentários:

jorge.oraetlabora disse...

Parabéns, Caro Miguel !
O seu retrata a verdade límpida.
Infelizmente, os jornalistas (?!) de hoje além de revelarem supina ignorância, são manobrados pela esquerda mentirosa.

Liceu Aristotélico disse...

Um ASSASSINO patrocinado pelo jornalismo cúmplice... um jornalismo dito imparcial, objectivo e quiça democrático.

Von disse...

Não sou vermelho, nem sequer do Benfica, mas o menino sabia que sem a influência deste senhor, a trnsmissão de regime após Franco teria resultado em nova guerra civil? Não invalida as ideiad e muitos actos, mas a verdade não pode nem deve ser ocultada.

Von

Combustões disse...

Von
O PCE era, em 1975, pouco mais que nada. O PCE teve 9% nas eleições de 77, aproximadamente a mesma votação da Alianza Popular.

Domingos disse...

Von
Já foi colocar hoje a sua vela pro Carrilho?

Agnelo Figueiredo disse...

A eterna superioridade moral da esquerda...

Isabel Metello disse...

Miguel, não conhecia, mas confio plenamente na sua perspectiva, até porque parece que o m.o. deste perfil é sempre o mesmo sejam de esquerda sejam de direita! Lá está-são superfiocialmente opostos, mas estruturalmente iguais pois são maus, uns psicopatas! Monstros são monstros com doutoramentos honoris causa cá no mundo das ilusões, mas com um Julgamento comme il faut Lá! Mais um que as perderá e que muito já se arrependeu do que fez ou mandou fazer!
Nós por cá, tb temos uns que pensam ser eternos, mas nenhum de nós é, logo, as honrarias mundanas não os vão safar!

João Pedro disse...

Não deixa de ser verdade a sua implicação nos acontecimentos de Paracuelos. Mas nessa Guerra não havia prisioneiros, nem inocentes: era a total barbárie, matavam-se e triam-se todos uns aos outros, quer fossem comunistas, anarquistas, falangistas, requetés, militares. Provas de heroísmo houve muito poucas. Por isso, e como cristão que sou, quero acreditar que Carrillo mudou realmente, que se redimiu e que aceitou sinceramente a democracia e a monarquia parlamentar, como forma de reconciliação entre os espanhois, já depois de ter recusado o modelo de Moscovo. Desapareceu poucos meses depois de Fraga Iribarne, com quem tinha relações cordiais.

Isabel Metello disse...

Meu caro,

Psicopatas destes não se redimem, pois nem remorsos têm. E, mesmo que fossem só loucos, e se arrependessem, um dia, A Dinâmica da Purificação das Almas não funciona assim- terá que se redimir A Sério por cada barbárie, cada Sofrimento inculcado no Outro e Esse Julgamento não É humano, mas Muito Superior a esta nossa realidadezinha...
A Redenção não funciona à la carte e muito menos em regime de indulgência!