01 setembro 2012

Sião: 80 anos da revolução constitucional


Em 1932, uma junta militar tomou o poder proclamando a chegada da liberdade. O Rei Rama VII não se opôs, tentando com todo zelo desempenhar o papel de monarca constitucional. Chegados ao poder através de um golpe militar, os jovens revolucionários de 1932 impuseram ao Rei Prajadiphok uma constituição - jamais referendada - e conseguiram durante os primeiros quatro de poder manter a aparência de uma frente política que incluía os elementos mais reformistas e ocidentalizados. Esse grupo heteróclito integrava monárquicos liberais, socialistas, comunistas e fascistas, jovens que haviam partido para o Ocidente e dali regressaram carregados de ideias e fantasias. Tensões iniciais foram resolvidas, pois os laços pessoais de amizade que os uniam pareciam poder conter as divergências profundas que os separavam. Porém, a democracia prometida pelos jovens militares transformou-se no seu contrário: uma ditadura dividida internamente entre uma linha "socialista" e uma linha "nacionalista". A revolução, que começara sob os melhores auspícios, terminou numa brutal ditadura que mudou para sempre o destino e feição do país, trouxe os militares e a burocracia para o poder e ensaiou, no quadro tailandês, a via siamesa para o totalitarismo.

Em finais da década de 1930, a facção nacionalista venceu. Entre 1939 e 1942, legislaram-se os chamados Doze Mandatos Culturais cobrindo um amplo leque de medidas que visavam impor normas de conduta sobre o trajar, o decoro, a atenção devida aos idosos e aos doentes, os horários do sono e de vigília, o uso obrigatório de uniforme, aquilo que se devia comer e o que não se devia, a natalidade e a fertilidade, expressões de cortesia, a nova caligrafia, o uso obrigatório de cinzeiros, o teatro legal, a música que se devia ouvir, a obrigatoriedade da exposição em cada casa de uma fotografia do líder. Assim prosseguiu o regime no seu Chartniyom – nacionalismo – até ao início da guerra. Outros decretos impunham o "trajo civilizado" - com abolição da indumentária tradicional - a proibição de instrumentos musicais "não-thais" e uma safra impressionante como detalhada de "normas de decoro", com regras minuciosas sobre o comportamento caseiro das famílias e a obrigatoriedade dos maridos beijarem as mulheres quando partiam de casa, o uso obrigatório de luvas para as senhoras e a indispensabilidade do uso de chapéu para cavalheiros. Os thais eram igualmente proibidos de saírem de casa descalços, mascarem betel, sentarem-se no chão e contarem anedotas. Até as formas de tratamento foram impostas. O hoje tão usado tratamento por khun (senhor/senhora) nasceu em 1939, assim como a saudação kob khun krab (obrigado) e Sawadti krub (bom dia). 

O caso siamês da vida para o totalitarismo constitui um case-study para todas as experiências de engenharia política. Ontem, essa engenharia tinha por agentes homens de formação socialista e fascista - como foram também os casos do Egipto, da Síria e do Iraque - e hoje fulanos que vêm dos EUA sobraçando MBA's da nova religião dos negócios. Todas são, convenhamos, formas de colonização ou auto-colonização condenadas ao fracasso.

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