19 setembro 2012

Será Portugal um Estado falhado ? A terrível pergunta que todos evitamos formular


Sociedades há que, tendo funcionado ao longo de séculos, são subitamente acometidas por incontroláveis forças internas de desagregação. A este fenómeno chamam os sociólogos de anomia - incapacidade de viver em conjunto, de estabelecer objectivos comuns - aplicando-lhe os politólogos o conceito de "Estado falhado". O conceito de Estado falhado recobre um largo espectro de modalidades e manifestações epifenoménicas, as quais não apresentam forçosamente relação entre si. Surdas, imperceptíveis, as tensões e a incomunicabilidade vão-se acastelando, provocando comportamentos de rejeição de viver em conjunto, de renúncia da identidade colectiva, até se corporizarem em corpus doutrinais irreconciliáveis . Inicialmente, os indícios parecem circunscritos a indivíduos, mas, depois de instalados, logo que transformados em sub-cultura, abrem porta ao enfrentamento. 

Não estamos, certamente, a entender o fracasso de uma comunidade organizada em Estado como uma guerra civil, em que dois grupos se batem pelo domínio do Estado, mas nunca assumindo a possibilidade de romper com a unidade de destino. Muitas são as guerras civis que, no desenlace, permitem o revigoramento da unidade social e da autoridade do Estado. Porém, há sociedades que, não chegando ao extremo de uma guerra civil, perdem a vontade de subsistir, se alheiam da unidade, recusam o nós. Procurando compreender a evolução da sociedade portuguesa nos últimos 30 anos, assisti ao longo da minha vida a este lento e inaudível esfacelamento do amor entre os portugueses, do desinteresse pela sorte colectiva, do embotamento e até da ridicularização do patriotismo, bem sem o qual não há vida social. O ódio, os ressentimentos, o despeito, as invejas, o destilar de fel, a evacuação substancial das instituições sem que outras preencham as funções de preservação, renovação e transmissão de valores que concorrem para a unidade, trouxeram-nos a este vazio odioso.

Há gente excelente neste país, mas quanto mais procuro, só as encontro exiladas, indiferentes e ensimesmadas. Temos tratado os melhores deste país com uma crueldade criminosa. A direita e a esquerda têm gente capaz. Os melhores da esquerda e da direita renunciaram voluntariamente à cidadania. Ficaram os mais incapazes, os carreiristas, os predadores e os diluídores. A crise é má conselheira e pode terminar em falência colectiva do valor que justifica a existência de Portugal. Portugal está a correr aceleradamente para a condição de Estado falhado. É triste, mas surge como evidência, até para os mais desastrados observadores. Talvez faça falta ao país uma monarquia. Estou tão certo disso como do colapso que se avizinha se não tivermos tino.

4 comentários:

jorge.oraetlabora disse...

Está prestes a concretizar-se o sonho de Cunhal, que, desde que regressou da sua amada URSS, tudo fez para gerar ódios e dissensões na sociedade portuguesa.

Nelson Marques disse...

Quero crer que a singularidade portuguesa perdura apesar do abismo que se vislumbra. Nessa medida, falhado ou não, falido ou não, independente ou não, Portugal não carece de justificação. Carece sim de cuidados e gente capaz, dentro e fora - sempre fomos andarilhos e sempre com impacto por esse mundo todo. Tendo vivido uns anos em Londres como emigrante, recordarei sempre a primeira página de um qq tablóide onde, sem ser visível o rosto da criança, uma enfermeira algarvia segurava um bébé e era citada: "É lindo!". Tratava-se de uma criança abandonada pelos pais ingleses no hospital em Faro, com uma fissura labiopalatal ainda por reparar.
Entre muitos problemas como os que o Miguel aqui tão bem comenta, a minha tese - por ventura errada e a que estarei pronto a renunciar a troco de um projecto mobilizador de recobro nacional - é a de que a nossa matriz cristã nos torna particularmente suscetíveis aos piores aspectos das ideologias de esquerda. Dito de outra forma, se o comunismo é a doença infantil do socialismo, então o socialismo é a doença infantil do cristianismo. Pior, agora, porque vivemos numa sociedade sem Cristo ou, para tomar as suas palavras Miguel, numa altura que nem uma esmola recebe da Idade Média em termos de espiritualidade.
A sua pergunta, no entanto, é absolutamente pertinente. A resposta que cada um der contém em si mesma uma definição pessoal.

...arrisco ainda um stemunho pessoal e deveras imperfeito:

http://terrigenum.blogs.sapo.pt/9429.html

Duarte Meira disse...

«Talvez faça falta ao país uma monarquia.»

“Talvez”? Não imagino que o Miguel Castelo Branco tenha qualquer dúvida quanto a isso!

Se a expressão “Estado falhado” quer dizer politicamente inviável, já o somos desde Julho de 1974. O prof. Adriano Moreira, com a sua característica linguagem precatada, esbatida, de punhos de renda, há anos que fala em “Estado exíguo”.

Politicamente, não temos autonomia. A perda de autonomia foi a consequência histórica inevitável do sistema de governação enxertado em Outubro de 1910; esfumou-se com o que restava da tradição histórica no patriotismo dos velhos republicanos, e com a trágica ilusão dos “nacionalistas” e monárquicos que sustentaram a 2ª República do pseudo-monarca Salazar.

Nacionalmente, somos o que sempre fomos, mesmo antes de haver o nome “Portugal”. Preservar, recriar, refinar o melhor da cultura nacional, eis o que cumpre. Os portugueses dignos do melhor deste nome, que restam - com os lusíadas do futuro -, virão ao de cima, aqui na Europa, em África, no Brasil e no mundo.

Por cá, que Deus nos guarde o Príncipe D. Afonso de Santa Maria.

Bonaparte disse...

Quando estado se confunde com as elites partidarias cleptocráticas e o partido com grupos secretos da maçonaria, o resultado é de estado falhado.