04 setembro 2012

Saber apertar e saber recusar o aperto


Não há códigos universais. Só quem desconhece ou despreza os códigos dos outros se pode surpreender com coisas destas. O Ocidente tem de reaprender a viver com as diferenças civilizacionais e não ousar ensinar os outros a macaquear fórmulas nossas, importantes para nós, mas que para outros não passam de ofensas. Certamente que na aldeia global dos propagandistas da pseudoformose exigida pelos Zakaria e pelos BH Levy's - com bombas e corpos expedicionários, se necessário - um aperto de mão, um afago na cabeça de uma criança, umas patorras em cima de uma mesa, um beijo, uma conversa sobre doenças ou dinheiro; tudo isso faz parte da civilização. Ora, para os outros que não são como nós, coisas dessas são tidas como exibição de grosseria. Durante muito tempo - demasiado tempo - não nos preocupamos e eles fingiam, calavam ou disfarçavam o mal-estar. Agora, isso acabou. Ao longo dos anos em que vivi na Tailândia, apercebi-me que os europeus (pomposamente chamados expatriados, pois recusam a palavra emigrante) ali faziam tudo, sem nunca se preocuparem em abrir um vulgar dos and dont's. No fundo, esses insignificantes sátrapas - que semanalmente nos surgem na tv num programa inqualificável que dá pelo nome de Portugueses pelo Mundo - julgam que estar num país é conhecer um outro mundo: o portugês que leva como prenda uma garrafa de vinho ao casal marroquino amigo, o "expatriado" que em Israel exige que os seus convidados comam a chouriçada na brasa, o europeu que obriga o chinês a comer o coelho à caçadora,ou aquele outro - vi com os olhos que a terra há-de comer - que insistia em falar sobre as intimidades da família real aos tailandeses; tudo isso faz parte do reportório infindo de patetices que acaba por sair caro à nossa imagem de ocidentais. Já nem falo, claro, da imposição dos horários e dos regimes  laborais, do dia de descanso, do tipo de regime político, da exigência de leis sobre o divórcio, da contracepção, das regras de urbanismo, dos modelos de ensino, da ideia de natureza, da maioridade legal, do "trabalho infantil", da "idade legal para o casamento", dos prémios de produtividade e dos 13.º e 14.º vencimentos, dos "rendimentos mínimos garantidos", das objecções de consciência... uma lista que nos ocuparia em fastidioso elencar de diktats. 


Ontem, no Trio de Ataque, um desses debates descabelados que bem podiam ser substituídos por uma hora de música clássica, um dos vociferadores terminou o estendal canoro falando dos "países civilizados", referindo-se à Europa e aos EUA, contraponto de "países bárbaros" como o Irão, a Índia, a China e, por que não, à Rússia. Esquecia-se o bípede que o Irão carrega 4000 anos de civilização às costas, a China 5000 e a Índia para mais de 8000. Os europeus - ou o que deles sobra nesta brilhante civilização do consumo e dos patetas engalanados com as "regalias" e os "direitos" - não se dão conta que o melhor que poderiam fazer, enquanto é tempo, seria reaprender um pouco o papel de pastores do ser, enterrar bem fundo as engenharias e os experimentalismos, readquirir um pouco a contenção e sobriedade da Europa anterior ao capitalismo e - já é pedir demais - pedir umas esmolas de espiritualidade à nossa Idade Média.

3 comentários:

Cláudio Silva disse...


Sobre o Irão gosto muito disto
http://www.youtube.com/watch?v=E5pSP2kheKo

PS: A legenda está errada, não é nem nunca foi o Hino nacional.

JdB disse...

O seu post pareceu-me algo amargo.
Segundo li "por aí" (expressão vaga) não seria a primeira vez que um iraniano apertaria a mão a uma senhora com quem não tem relações próximas. Este atleta poderia ter feito o mesmo, a não ser que arriscasse uma pena por fazê-lo. Além de mais está em casa alheia, pelo que poderia adaptar-se... É claro que a duquesa poderia ter poupado o embaraço não lhe estendendo a mão.
Não vi o Trio de Ataque nem sei bem o que é. É sobre futebol? Assim sendo, não poderia comentar o que foi entendido como países civilizados. Do ponto de vista dos direitos humanos, naquilo que são os valores ocidentais básicos - respeito pela vida, para além de outros direitos humanos - não me parece que a China ou o Irão tenham o que quer que seja a ensinar-nos. Seria isso que o comentador referiu?
Quanto a esse "programa inqualificável". Devo reconhecer que vejo com frequência e que gosto. Não me parece que seja mais do que a experiência de emigrantes que falam (normalmente com afabilidade) dos países que os acolheram. Sátrapas? Não me parece ter visto nenhum.
Eu percebo a sua irritação pela civilização ocidental tal como ela está hoje. Mas assim como assim, antes a Europa como ela é hoje do que o Irão como ele é hoje. A antiguidade, para estes efeitos, não me parece ser um posto.

Xico disse...

Também eu pasmo por vezes com a grosseria de nós ocidentais. No entanto acho que generalizou em relação ao programa dos portugueses no mundo e faço minhas as palavras do comentador JdB.
Percebo a questão do iraniano, mas não percebo que nós, em países como o Irão, dispensemos de exigir que nos tratem de acordo com as nossas convicções, crenças e cultura.