18 setembro 2012

Os alucinados da peste negra e o futuro de Portugal


Um bom amigo meu, pessoa que muito considero pelo esforço, lisura e preparação, foi à manifestação de sábado. Disse-me que aquilo foi um estado de alma e esconjuro colectivo do medo e da ansiedade que afectam a generalidade dos portugueses, sobretudo aqueles, menos sagazes, que se sentiam seguros pela educação, pelos rendimentos, pelos hábitos de consumo. É humano que o tido por adquirido, subitamente retirado, provoque ira, tumulto nos espíritos, sensação de engano e traição. Nada nesta vida é garantido. Se as pessoas prestassem menos atenção às generalizações e às abstracções filosóficas, se lessem a literatura como ensinamento histórico e a história como literatura despida de ficção, compreenderiam que poucas são as certezas que temos sobre o futuro.

Porém, o futuro, se não se pode prever, pode ser evitado; ou antes, em cada momento devemos ter sempre presentes os futuríveis. Ora, a grande objecção à tal "classe média" do regime - filha do regime, filha diletca e mimada que agora se volta contra tudo o que foi um modo de viver inculcado pelo regime - assenta precisamente na total inconsciência com que durante décadas (e sem o mínimo reparo) aderiram a um modelo que findaria. Dir-me-ão que a culpa não é das pessoas. Concordo, pois a noção de "culpa colectiva" é incómoda e quase sempre injusta. Aflige-me, contudo, que com tanto curso, tanto currículo académico, tanta viagem pelo estrangeiro, as pessoas não se tenham jamais questionado sobre o rumo seguido pela sociedade portuguesa. Não, a culpa não é só dos "políticos"; a culpa é de quase todos, com exclusão dos tais 60% de pobres que nunca participaram em "projectos", nunca abriram "espaços", não foram para as "privadas", não "jogaram na bolsa" e do regime receberam apenas as migalhas de um festim que agora terminou.

As reservas de capital disponível dão-nos para quatro meses. Estamos dependentes de credores. Somos, para todos os efeitos, reféns. Se o acordo fosse denunciado, 500 000 funcionários públicos deixariam de receber a partir de Novembro: os hospitais encerrariam, assim como as escolas, as bibliotecas, os museus, as repartições públicas, as esquadras de polícia, as câmaras municipais... Mais, 80% do que comemos deixaria de poder ser importado, o combustível  - temos reservas para duas semanas - deixaria de chegar aos terminais e às bombas de gasolina.

Os alter-troikistas moderados sonham com a "renegociação", não se dando conta que estamos a lidar com gente que detém o dinheiro, quer os juros e tem uma pistola. É gente capaz de tudo. Estamos a lidar com plutocratas. Os alter-troikistas exaltados e radicais, esses sonham com o colapso. São os videntes, os alucinados e os pregadores que surgem para anunciar o fim do mundo, o novo dilúvio e prometem a parúsia que virá após o fogo purificador. Os tempos de crise permitem que prédicas de loucos recebam os favores e a atenção das pessoas que nunca os ouviriam noutras circunstâncias.

Fala-se em 190 biliões destinados a revitalizar as economias dos países mais afectados pela presente crise. Se tal fundo for disponibilizado, poderemos, então, denunciar, atrasar pagamentos, renegociar e até protestar. Se não queremos conhecer a fome que martirizou a Argentina em 2001, importa que nos contenhamos. Estou certo que, passada a grande crise, os portugueses sairão mais fortes, mais sábios e mais contidos. Parece um lugar comum, mas deve ser dito e redito até que a "indignação" se transforme em programa. Nada será como dantes. Os portugueses aprenderam que nada, mas mesmo nada, é certo na vida. Talvez voltem a ter orgulho em Portugal, talvez descubram que Portugal merece sacrifícios, deixando para trás as fantasias de mentes desocupadas e "europeias" que tão mal lhes fizeram.

4 comentários:

txticulos disse...

O discurso da austeridade e dos sacrificios na monarquica Holanda.

http://txticulos.wordpress.com/2012/09/18/few-surprises-on-budget-day/

Combustões disse...

Certo, mas a Holanda é um dos países mais ricos do mundo. A Holanda não está à mercê da fome nem de uma Troika.

Duarte Meira disse...

«Fala-se em 190 biliões....»

Esses 190 mil milhões do BCE sempre nos estiveram garantidos. A Alemanha, sabiamente, vai descobrindo o jogo (e o dinheiro) a pouco e pouco, na gradual medida em que se vai cimentando como a única soberana ordenadora da UE.

E desde o princípio estavam de reserva, porque o que no fundo está em jogo é uma guerra pela supremacia mundial entre o dólar e a moeda em que já hoje se fazem a maior parte das transacções a nível mundial. Pura e simplesmente os norte-americanos queriam - e querem -, desmembrar a zona euro e prejudicar todo o esforço por uma maior "integração" dos países da UE.

Isto é, o que Alemanha menos queria é que a Grécia ou Portugal saiam sequer do euro.

Se tivéssemos por cá políticos realmente portugueses e com visão estadista e geopolítica destas coisas - e não meros gestores jotinhas e capatazes funcionários do estrangeiro -, políticos que ameaçassem a sério os alemães com a saída do euro ou da UE, muito menos "austeridade" nos pesaria e, por extensão, aos gregos. Mas, para isso, eram precisos outros políticos e, naturalmente, - outro regime.

Pedro Marcos disse...

Nem mais, Duarte Meira.
Dos melhores postais que tenho lido em qualquer blog.
O "doutor despido" que o tenha em consideração.