16 setembro 2012

O povo e a barricada


Hoje recebi mais de 100 mensagens de indignados; 3/4 foram para o lixo por não cumprirem as condições que sempre impus a esta tribuna. Sou "livre, sem lóbi, seita, loja, templo e partido, absolutamente indisponível para entrar em camarilhas, carregar malas e fazer de mainato". Aqui, também não se pratica o ataque pessoal, não se cultiva o palavrão, não se proclamam votos de adesão a povos em marcha, coisa rara numa sociedade onde cada um se tenta aboletar em institutos, fundações, organizações secretas, grupos discretos. Há tempos, por ocasião da manif. dos "indignados", aqui lavrei testemunho presencial que mantenho. As pessoas pensam pequeno e tomam 10.000, 20.000 ou 100.000 - o bárbaro fascínio pelos números - como medida de certeza. Nesse pressuposto, os 6.000.000 que esperaram Khomeini no aeroporto de Teerão em 1979 estavam cheíssimos de razão; como o estariam os 9.000.000 de indignados chamados a Pequim por Mao no arranque da Revolução Cultural, em 1966. Os números são irrelevantes. Servem para tudo, até para legitimar as sucessivas maiorias com que o povo português tem premiado os notáveis que trouxeram Portugal à presente situação. Lembro que Adriano Moreira, em 1987, disse as verdades que todos repeliam e viu-se reduzido a 4,6%. As pessoas detestam que lhes digam a verdade !

Entendamo-nos !

Os portugueses viviam derrancados no sonho da riqueza, das Donas Brancas às croissanterias, dos montes alentejanos aos apart-hotéis. Queriam ser ricos, queriam "viver bem", dois carros à porta, cinco cartões de crédito, televisor de plasma, trapos de marca, uma saltada às Londres a às Romas duas vezes por ano. Trabalhar ? Ora, que viessem esses reles russos, essa turba de ucranianos, mais os negros e os brasileiros fazer as autoestradas, as pontes, as urbanizações crescendo como tortulhos em torno de Lisboa. Lisboa era para os patêgos, os velhos, os sem-beira, coisa a abater. Para sair da caquética antiga capital do império, um carro fazia o trabalho. Todos se motorizaram. Os carros topo-de-gama tornaram-nos conhecidos na Europa. Em 2004, a produção de Mercedes e Bentleys não chegava para as encomendas reclamadas por Portugal e anunciava-se ao mundo que se vendia um Maserati por dia no país do verde pinho. Comprar sapatos portugueses ? Comprar as camisoletas de algodão das nossas fabriquetas ? Ora, havia tanto para comprar nas lojas de marca !

Em 1998, por alturas da Expo, recebi dezenas de reportagens encomendadas aos mais influentes periódicos europeus e norte-americanos. Cantavam loas ao despertar de Portugal, ao crescimento do consumo - crescimento que nos empurrava para a condição de "novo dragão" da Europa do Sul -, exibiam os ricaços do dinheiro novo como modelos da nova "elite portuguesa". A elite cresceu depressa. Cada português, uma revistazinha do "coração" - a Holla, a Gent[inha], as Cara[ntonhas],  as Lux, as Premiere - com o "must" das "pessoas bonitas" e do  "tout monde" português: as Caneças, as Soraias, as Cátias da fama... Outros, mais afoitos, queriam descobrir o segredo de Midas e lá iam sobraçando o Portugal Global, a Gestão & Negócios, Ideias & Negócios, Capital de Risco, a Fortuna...

Para acelerar a ascensão, impunha-se cobrir o sucesso com o status universitário. Abriram-se centos de universidades, institutos e politécnicos. Assim, tivemos as brilhantes "privadas", que tornaram possível o enorme dislate da "mais bem preparada geração que Portugal jamais teve". As pessoas queriam ser europeias. Vai daí, todos ao Colombo, todos ao Vasco da Gama, ao Aqua Portimão, ao Guimarães Shopping, ao Corte Inglês. Comércio tradicional, merceariazinhas de bairro, cafés e papelarias ? Que se danassem !

***

Tenho, como tantos outros, razões e autoridade para reclamar inocência no vórtice de parvalhização em que Portugal se precipitou. Este Vosso criado começou a trabalhar aos 15 anos de idade, trabalhou numa tipografia, passou seis anos no exército para pagar os estudos, trabalhou em Elvas, Évora e Beja, dormindo em quartos para garantir o seu sustento, deu aulas a ciganos nos "bairros problemáticos" em regime de quase gratuidade, deu aulas no secundário e no superior, trabalhou para jornais, percorreu de autocarro metade da geografia portuguesa para localizar, catalogar e inventariar o património bibliográfico nacional a que ninguém prestava atenção - o importante era o futuro e as "novas tecnologias" - e ainda teve tempo para tirar um mestrado e um doutoramento, publicar meia dúzia de trabalhos, candidatar-se a um concurso público para chefe de divisão, que venceu perante o estupor de uns quantos (cartão do partido no bolso) que se insurgiram contra a deslealdade. Este Vosso criado perdeu 1500 Euros por mês para se estabelecer na Tailândia durante três anos, aí aprendendo a ler, escrever e falar uma língua estranha, só para poder cumprir os termos exigidos para um doutoramento que plasmasse o impacto de Portugal no Sudeste-Asiático, coisa de somenos para os meninos dos 3+2 das Bolonhas, afoitos na religião das liberalices made in USA, para os quais Portugal, a sobreviver, só com torres de vidro de setenta andares, meninos patetas a gerir negócios inexistentes e a bolsa das fantasias. Este Vosso criado trabalha 14 horas por dia, é fiel servidor do Estado, paga os impostos, não falta, nunca teve um processo disciplinar, cumpriu sempre. Este Vosso criado tem uma micro-empresa que dá trabalho a cinco pessoas. Paga-lhes aquilo que não vence um técnico superior do Estado, mais alimentação, passe, descontos para a segurança social. Sou tudo, menos um desses patrõeszitos à Fagin do Dickens que enchem as fantasias dos protestatários inúteis e dos  novos meninos do business.
Este Vosso criado poderia - era só querer - meter-se numa máquina e obter um lugar. Nunca o fez. Vejo por aí muito exaltado que, ainda há um ano, esperava por um lugar em S. Bento ou num dos gabinetes ministeriais, mas que perdida a corrida aos lugares, milita em excessos de linguagem contra o governo.
Este Vosso criado teria mil e uma razões para detestar o modelo de sociedade que alegremente se foi impondo como fim da história e ao qual a "classe média" aderiu com entusiasmo. Como tantos, habituei-me a calar, a aceitar chefias ineptas, verdadeiros imbecis, aves canoras, gente má, mesquinha, incapaz de riscar uma linha. Há fontes de enorme ressentimento na sociedade portuguesa. A má-língua, o rumor, a difamação, o "não vale ultrapassar", o comodismo, o desinteresse e o servilismo causaram estragos que estimo irreparáveis. Poderia ser um extremista e clamar por direitos, mas quem me ouviria ? Por isso, como tantos outros, resolvi emigrar. Há uma emigração interna tão forte como a saída física do país. O país é injusto e requer a tal "mudança de mentalidades" que tem sido mote para todas as falhadas regenerações. Não me dêem, por favor, lições de moral.

***

Algumas dezenas de milhares de portugueses saíram ontem às ruas. Tanto importa que fossem 10.000 como 100.000 ou dois milhões. Não tinham razão, pois foram cúmplices. O que ontem aconteceu foi o protesto da dita "classe média", a mesma que votou sempre pela "vida confortável", que aplaudiu Cavaco, Guterres, Ferro Rodrigues e as fantasias sem pensar nas consequências. Essas pessoas têm dores, passam por sofrimentos, angústias e até desespero, mas não é o povo. O povo, na acepção sociológica de classe de baixos rendimentos - isto é, o salário mínimo - nunca saiu à rua. Tem vivido do banco alimentar e da caridade das ONG's, de associações católicas e até da Jerónimo Martins, tão atacada por todos, mas que garante 60% do total de contribuições que assistem as vítimas da fome. 
Ontem, cantaram a Vila Morena e o Povo Unido Jamais Será Vencido. Sei que custa perder o sentido da vida e os mitos, mas há que abrir os olhos e ter um mínimo de lucidez. Afinal, não se ouviu uma ideia. Não têm qualquer ideia de como sair da situação. O governo tem feito o que se deveria ter feito há vinte ou trinta anos. Mas não, ninguém quis saber. Queriam "viver bem", queriam ser "europeus". Isso acabou. A crise pode ser boa conselheira. O governo que comece a pensar num plano de resgate económico, não se atenha às finanças e dê exemplo, começando por atacar os vergonhosos privilégios da matulagem que vive do sistema. A "classe média" que pense, mas proponha saídas. Afinal, com tanto "intelectual" e tanto "quadro", só se limitam a pedir direitos. Os direitos estão na lei, mas mais importante que os direitos de cidadania são os deveres, que estão na ética. É só!

É evidente que um texto destes não desperte os habituais pruridos. A generalidade das pessoas afoga-se no ódio gratuito. É mais cómodo. Querem sentir-se acompanhadas e aderem a todos os unanimismos. A tentação totalitária existe nos mais cândidos; pior, não há melhor maneira de legitimar uma nova tirania que canalizar o ressentimento das massas para inimigos imaginários. A extrema-esquerda pensa que, a cair o regime, teria a oportunidade por que espera há décadas. Engano tremendo, o novo regime seria o contrário.

24 comentários:

FMS disse...

Olá, Miguel.

Ainda o leio. Se pegarmos neste post e no anterior, ficamos sem saber onde enquadra aqueles que, nunca tendo participado, comungado ou embarcado no delirio que denuncia - e bem! - ainda assim foram ontem para a rua.

O que me diz?

Combustões disse...

FMS
As pessoas andam a procura de um ponto de fuga. Não se vinguem na verdade, mas pensem no que fizeram para permitir que isto acontecesse. Ontem, só falaram em direitos, mas onde está a alternativa? Onde está o programa político, o modelo de representação, o modelo económico para a retoma? Calcula o que aconteceria se a Trioka denuncasse o acordo ? Onde está o crédito para reanimar a produção? Tem sugestões? Serão bem vindas.

FMS disse...

Miguel,

uma coisa é apodar a manifestacao de inutil, outra bem diferente é nela incluir, de forma estanque, apenas a camada do ecossistema que vinga na turfa partidaria e na excrescencia do PREC, no atavismo cosmopolita-à-alcochete.

De igual modo, uma coisa é pedir-me sugestoes, que as tenho, e outra bem diferente é pretender firmar uma conexão entre o meu silencio acerca delas, e a nulidade do que enfim afirmo: a manifestacao de ontem foi um game changer porque mostrou a todos, os que estiveram e os que ainda querem vir a estar, a rugosidade do caminho em frente.

Carlos Velasco disse...

Caro Miguel,

Compartilho essa opinião no que toca àqueles que foram pedir mais benefícios do estado, mas há uma fracção bem significativa que foi para a rua exigir uma verdadeira austeridade.
Até agora o governo nada cortou, só aumentou a influência nefasta da camarilha sobre todos os sevtores da vida económica e continuou a endividar a nação, para além de ceder soberania com a venda de activos estratégicos a preço de banana.
Um governo sério teria cortado na despesa e nos impostos de maneira significativa, em níveis entre os 30-50%, e teria desarmado o descontentamento através do exemplo, cortando os próprios salários numa proporção ainda maior e acabando de vez com os benefícios das fundações, com regime de pensões dos privilegiados e as PPP.
Não o fez no princípio pois mentiu, e não é agora, depois de ter perdido o apoio daqueles que esperavam um governo patriota e não um governo ao serviço de quem vive de emprestar às nações de modo que se assemelha ao que fazem os agiotas da máfia, que conseguirá. Se não é um governo tão nefasto quanto o anterior, então é um governo de gente incompetente.
E que não se esqueça que os participantes deste governo são todos euro-federalistas, preferem sacrificar Portugal em nome da sua manutenção na zona euro e não se incomodam com a transofmração da nação num protectorado só para garantir os recursos necessários para continuar a pagar o regime de opressão fiscal e de clientelismo que une o PSD, o PS, o CDS-PP, o BE e o PCP.

Saudações.

Pedro Marcos disse...

A pergunta é boa, Miguel. Não é boa, é óptima. Mas eu devolvo-a ao movimento monárquico, que confesso me estar a dar verdadeiros ataques de caspa de tanta bimbice.

"mas onde está a alternativa?"

Onde está D. Duarte?

Apesar de pensar que D. Duarte corra risco de vida se começar a levantar fervura, é bom que se arrisque mesmo assim a menos que queira não passar de figura de anedota de hermans e outros maricões de mau gosto. Se D. Duarte aparecer, ele arriscar-se-á mas não estará tão só como poderá julgar.

"Onde está o programa político, o modelo de representação, o modelo económico para a retoma?"

Idem para os monárquicos betos e aqueles que desdenham daqueles que dizem adorar. Alternativas?
Zero!
Onde estão?
Nas manifestações da Tailândia?

É aqui e agora, meus lindos!
E se querem que vos diga e seja sincero:

Eu tenho muito apreço por D. Duarte. É sério, honestíssimo, sereno e simpático. Uma jóia de pessoa que merece todo os respeito e mais algum. Infelizmente não suscita muita adesão por parte desse povo chão, tão lisonjeado mas gozado por trás, mas que é gente rija e capaz de ignorar muita propaganda, se Van Uden aparecer.

O resto é conversa.
É bom que as dondocas monárquicas de ambos os sexos abandonem os seus pretensiosismos e defendam efectivamente o povo que dezem amar mas que no fundo parecem desprezar.
Como o Miguel, caramba!

Desçam das vossas liteiras e ajudem a puxar os canhões!
Deem-se ao respeito!

D. Duarte que apareça. A minha espingarda será sua.

Pedro Marcos disse...

A pergunta é boa, Miguel. Não é boa, é óptima. Mas eu devolvo-a ao movimento monárquico, que confesso me estar a dar verdadeiros ataques de caspa de tanta bimbice.

"mas onde está a alternativa?"

Onde está D. Duarte?

Apesar de pensar que D. Duarte corra risco de vida se começar a levantar fervura, é bom que se arrisque mesmo assim a menos que queira não passar de figura de anedota de hermans e outros maricões de mau gosto. Se D. Duarte aparecer, ele arriscar-se-á mas não estará tão só como poderá julgar.

"Onde está o programa político, o modelo de representação, o modelo económico para a retoma?"

Idem para os monárquicos betos e aqueles que desdenham daqueles que dizem adorar. Alternativas?
Zero!
Onde estão?
Nas manifestações da Tailândia?

É aqui e agora, meus lindos!
E se querem que vos diga e seja sincero:

Eu tenho muito apreço por D. Duarte. É sério, honestíssimo, sereno e simpático. Uma jóia de pessoa que merece todo os respeito e mais algum. Infelizmente não suscita muita adesão por parte desse povo chão, tão lisonjeado mas gozado por trás, mas que é gente rija e capaz de ignorar muita propaganda, se Van Uden aparecer.

O resto é conversa.
É bom que as dondocas monárquicas de ambos os sexos abandonem os seus pretensiosismos e defendam efectivamente o povo que dezem amar mas que no fundo parecem desprezar.
Como o Miguel, caramba!

Desçam das vossas liteiras e ajudem a puxar os canhões!
Deem-se ao respeito!

D. Duarte que apareça. A minha espingarda será sua.

Álvaro Queirós disse...

do seu texto, retive o seguinte:

..."O governo que comece a pensar num plano de resgate económico, não se atenha às finanças e dê exemplo, começando por atacar os vergonhosos privilégios da matulagem que vive do sistema."...

porque o que senti ontem, foi o povo dizer que de partidos está cheio,,, quer soluções... afinal é para isso que o povo os lá colocou,,, representação.

Bonaparte disse...

Sou funcionário do estado e trabalho 10 horas por dia. Tenho uma carro com 20 anos e passo um mês de férias na minha aldeia todos os anos. Tenho poupanças é certo e não são muitas gosto da vida austera que levo compro um livroe vou a um concerto uma vez por mês. Gasto a roupa até ao fim, às vezes até ultrapassa o fim. Sócrates cortou-me 7,8 % no meu salário Passos tirou-me o subsidiu de férias e o de natal. Passei 4 ANOS da minha juventude no serviço militar 2 ANOS na Guiné descontei esses anos para a reforma. Hoje, dizem-me que não vou ter reforma. O que acha? estou contra Passos e contra todos que governaram este país sem excepção. Não vou a minifestações, mas quando tocar a reunir, estarei lá!

zazie disse...

Eu não tenho medo de manifestações populares e indignações quando existe motivo para isso.

Neste caso, até existe. Não se pode negar que nos caiu uma tremenda ameaça em cima da cabeça e que só agora se começa a sentir.

O que não consigo entender, de modo nenhum, é a facilidade que uns slogans completamente imbecis, feitos por cripto-comunas e palermas, consiga levar tanta gente atrás deles.

Se calhar não levaram. As pessoas é que precisam sempre de um batuque para a galvanização. E estes batuques que existem são os mesmíssimos da alternativa que oferecem.

zazie disse...

Só por curiosidade: quem foi, lembrou-se à última hora por ter dado nos media ou foi pelo flash-mob do facebook?

(Eu temo que o facebook ainda venha a conseguir reviralhos- com muitos likes em vez de cravos)

zazie disse...

Já agora, que tenho mesmo curiosidade nisto, quem foi pelo facebook, seguiu a convocatória !Que se lixe a Troika" ou seguiram estes:

https://www.facebook.com/movimento12m

É de reconhecer que, nestas coisas de agit prop, a escardalhada é imbatível.

Luís Ferreira disse...

Quando insinua que as 25 familias por dia que estão a entregar a casa aos bancos, são culpadas por causa das playstations e das férias á rep dom. então eu pergunto, se o sistema monetario planetário é matemáticamente uma fraude um esquema em piramide em que algumas pessoas (nunca os estados) criam dinheiro a partir do nada para os outros todos lhes deverem, o que acabaram de criar com uma varinha mágica, mesmo assim a culpa é das pessoas que não quiseram ir viver para uma tenda se se endividaram para comprar casa?
Para mim chegou a duas conclusões quanto à sua perspectiva de algum modo pouco definida:
Uns vão bem e não sentem o chão a fugir debaixo dos pés;
As pessoas acabam sempre por ser uma desilusão...

PS: 3/4 de 100 não é igual a 4

Combustões disse...

Luís Ferreira
As pessoas foram manipuladas ao longo de anos. Talvez a culpa não fosse delas, mas continuam, impenitentes, a pedir o que não podem ter. O Luís tem várias soluções para minimizar esta crise, que é sistémica antes de ser económica e financeira. Alguém se atreveu já a colocar a possibilidade do fim do regime?

Artur disse...

Responda-me só a isto, por favor:

Concorda com a medida TSU?

Caso não concorde, qual a sua alternativa?

Obrigado.

Combustões disse...

Artur
Sou contra o aumento da tributação sobre o trabalho. O protesto contra a TSU está a ser usado como justificação inconsciente, pois o verdadeiro problema é outro, e nesse a "classe média" não quer ver. trata-se da "classe política". Não me parece que ter lá Seguro ou Passos Coelho seja solução. Estarei com Seguro ou com Passos Coelho se assestarem o golpe nas sinecuras, na oligarquia parasitária e sua floresta imensa de lugares. O problema é o REGIME. Ninguém quer ver isso ?

Artur disse...

Eu vejo, e há muito tempo. A alternância que se vive nas últimas três décadas gerou uma enorme família que tem lucrado com a nossa conivência.

Em minha opinião, a mudança só se iniciará a partir de duas reformas essenciais: Sistema Político e o Sistema de Justiça. Enquanto não existirem consequências e responsabilização real nada vai mudar.

Aquilo a que assisti no Sábado não era apenas um protesto contra a TSU ou a Troika. O sentimento é mesmo esse, contra esta classe política e a forma como tem dirigido este País. Os acontecimentos dos últimos meses, e em especial da última semana, foram a gota.

Aladdin Sane disse...

Caro Miguel,

totalmente de acordo, com o "post" e os restantes comentários.

Se tivéssemos de resumir a situação do chamado "português médio" - queira desculpar-me a generalização - dir-se-ia que até há pouco tempo, não poupou porque não quis; agora não poupa porque não pode. Nas últimas eleições tive a esperança de que o voto em PPC se devesse a uma mudança de mentalidade, e que o eleitorado estivesse ciente do que aí vinha. Infelizmente, apenas quiseram "despachar" o antigo PM, que foi resistindo a todas as falcatruas até que o Estado ter começado a ir em força "ao bolso" dos contribuintes.

Um ano e poucos meses depois, os eleitores aperceberam-se de que PPC não cumpre o programa eleitoral. Infelizmente é verdade. Infelizmente o mesmo acontece com os anteriores PM`s, desde que me lembro de atentar na política. "Regimices".

Pobre povo pobre.

jorge.oraetlabora disse...

Este regime não vai conseguir restaurar o País, já moribundo e destruído moralmente. Foram muitos anos de saques imensos feitos pelos piratas que têm governado Portugal. E o saque perpetrou-se a todos os níveis.

E corrompeu-se a moral, instilando ideias néscias e abstrusas na mentalidade dos Portugueses, sobretudo nos mais jovens, que hoje não têm - nem sabem... - o que são valores autênticos. A cartilha de A. Gramsci foi bem aplicada...

Esta gentalha de políticos ordinários tem de ser rapidamente substituída por gente séria e imaculada. Não vai ser fácil, porque as más práticas estão já enquistadas e a política caseira deve obediência a lóbis e grupos perversos (todos sabemos quem são).

Se quisermos sobreviver como Nação independente, terá de haver uma mudança radical de regime, e a desvinculação total a tais grupos que destroçaram o corpo e a alma do nosso Portugal.
Terão de ser chamados os mais competentes e verdadeiros Portugueses - os que amam a sua Pátria, não os porcos vendilhões sujeitos ao nefando e vil metal -, e ter-se-á de lançar mãos à ingente tarefa de restaurar e renovar os espíritos, conduzindo-os no caminho do amor à Pátria e ao conhecimento dos autênticos valores morais e éticos.

Bonaparte disse...



Por favor, não se ofenda. Na verdade, o Senhor é um marxista virado ao contrário. É evidente em todos os seus textos a preocupação pela luta de classes. Tal como os marxistas ainda não reparou que essas classes já não existem.

Pedro Marcos disse...

"O problema é o REGIME. Ninguém quer ver isso ?"

Safa! Até que enfim se está a ir a algum lado.
Boa parte das pessoas que está descontente, sabe que o sistema está podre e irreformável. Todavia, tem as ideias mal arrumadas e não me espantaria nada que se refugiem nos modelos falhados que conhecem - Leia-se esquerdelhices.
Alternativas?
Nenhumas, porque os conservadores e monárquicos melhor colocados se enojam de descer aos hílicos para lhes dar a conhecer as vantagens de um sistema monárquico (em que o rei tem poderes a sério!).
Experimentem os monárquicos de salão e so que vivem o mundinho das reais associações fazer passar a mensagem junto de gerações com lavagens de cérebro "pró-esquerda"!
Iam ver o que era bom para tosse.

Desçam cá baixo. Há uma batalha cultural que quanto mais tarde não começar a ser encarada a sério mais irremediável será manter um vislumbre de nação.

Há que jogar o jogo da esquerda e batê-la em todos os campos, não ficar pela vitória na tertúlia de salão!

Duarte Meira disse...

«O governo que comece a pensar num plano de resgate económico, não se atenha às finanças e dê exemplo, começando por atacar os vergonhosos privilégios da matulagem que vive do sistema.»

Caro Miguel castelo Branco:

O governo já teve tempo para pensar e fazer isso, se soubesse, quisesse e pudesse. Por exemplo, e para falar em um plano nacional (não estrangeiro) de "resgate económico": atacar os mais de 25% do PIB de "economia paralela". Por que não o faz ? Disse-o Medina Carreira, que postou aqui há dias: - FALTA DE AUTORIDADE.

Quanto às "classes médias". o Miguel parece esquecer que são as que têm sido mais assaltadas e saqueadas (desde, por exemplo, as sucessivas reformas do IRS, que começaram em 95 com Guterres) e... estão cada vez menos "médias".

Quanto ao admirável currículo seu que expões aqui, é relevante neste sentido: bem pode ser inevejado por toda aquela cáfila de jotinhas oportunistas e carreiristas que, com os seus cursos bem ou mal cozinhados, nada sabem da vida real do comum dos mortais, do valor e da dignidade do trabalho difícil, honesto e, tantíssimas vezes, mal retribuído e mal pago.
O sr. Passos Coelho (como o seu gémeo Seguro), parece ser desta medíocre qualidade.

Nada tenho com o esquerdalhismo do pré e pós-Abril. E não fui à manifestação de sábado. Mas compreendo os motivos da indignação de muitos, que se resumem numa só palavra - Equidade. Que não sejam sempre os mesmos a pagar, mormente quando já pagaram muito mais do que era justo e razoável(refiro-me sobretudo a impostos. É a vez dos donos do Estado e dos seus capangas, espalhados por uma miríade de instituições, empresas públicas, fundações e lugares inúteis começarem a pagar também.

Mas não me espantaria nada que lá na manifestação tivesse compareceido alguém empunhando um cartaz com... as 9 medidas que o Miguel aqui apresentou no passado sete deste mês!

Quanto mais tempo precisa o Miguel para reconhecer que apostou no cavalo errado, e que este medíocre Passos Coelho, mai-lo seu medíocre governo, nada fazem nem sabem fazer senão fazer pesar - apenas sobre os cidadãos que não podem escapar - as medidas dos credores estrangeiros, para... obterem mais benevolência alemã, mais créditos dos "mercados" mais e cobertura do BCE... para a clique do sistema continuar no gozo dos seus privilégios?

Isabel Metello disse...

Miguel,

Subscrevo integralmente, nem necessário é acrescentar algo que seja!

zazie disse...

Falta acrescentar que essa classe média também foi fabricada pelo sistema e vive sob a dependência do Estado.

Portanto, sente quando baixa o ordenado mas não sabe o valor dele. E assim, é óbvio que tenderá sempre a defender quem lhe promete mais, mesmo quando deixa de haver.

alberico.lopes disse...

Miguel: Fantástico texto!Parabéns pela coerência,frontalidade e por ter dito neste artigo tudo o que devia constituir um manual de reflexão para TODOS os que,durante tantos anos,andámos a fazer de barões quando nem sequer tínhamos tostões!
Mais uma vez:parabéns!Virei aqui todos os dias!É um refrigério que nos consegue fazer esquecer a mediania de muitos dos "fazedores"de opinião que nem sabem falar nem escrever!