15 setembro 2012

Falhou a intentona do 15 de Setembro





17.00 horas. Falhou o golpe de Estado da "classe média" e do poujadismo dos crédito-dependentes. Em Lisboa, não obstante a fúria da SIC e da TVI - de facto, os verdadeiros organizadores da lamúria - os indignados não terão excedido 10 000. No Porto, terão sido 5 000. As imagens vistas do ar não eganam, mas há quem queira inchar e mitificar. Os 0,20% que acorreram a estas pândegas manifestações não oferecem manobra para Belém recorrer ao Conselho de Estado e, assim , tutelar um golpe de Estado contra o governo saído das urnas há um ano. Passos que continue, mas deve assestar o golpe na imensa rede de favoritos, nipoti e Odoricos Paraguaçús do regime. Se o não fizer agora, perde o apoio dos 60% de portugueses, aqueles que, sendo pobres, não se indignam.



22.42 horas. A maratona mantém-se nas tv's. Figuras cativas, gente do regime: um ex-governador de Macau, ex-ministros, jornalistas comprometidíssimos com a alienação exercida sobre o povo, comentadores e comentadeiros saídos da pobre "academia" portuguesa, de fórmulas arrevesadas e falar cerrado para evitar compromissos. O Daniel Oliveira - a única figura inteligente da extrema-esquerda - já aquecido e delirante no programa da multimilionária SIC. Os olhos reluzentes, as quixotadas e gabarolices do épico trazer-por-casa, instantâneo de weltanschauung adolescente de uma burguesia que se exalta com as revoluções, mas que nunca teve precalços, nunca conheceu o desemprego, teve sempre mesada pontual e os trapos passados a ferro pela criada.
Começa a ganhar vulto uma lenda, um "novo 1.º de Maio", "um novo 25 da Silva". "Eu estive lá", "eu não fiquei em casa". Dos dez mil às 5 da tarde, logo  inflacionados pelas tv's, pela noite já havia quem ali quisesse ver "a maior manifestação de sempre". O delírio a crescer na proporção directa da inconsequência do acto. Importava mitificar. Para gente que de actos multitudinários só teve as experiências dos futebóis, 60 000 é coisa imensa, número mágico que se impunha multiplicar por quatro, por cinco ou por seis. Acreditaram e assim ficou: "a maior de sempre", pedindo o céu.

***

Ninguém explica a esta santa gente que estamos em resgate financeiro; que a Portugal ninguém empresta um cêntimo; que tudo isto começou há muito com o tal 25 da Silva, com as nacionalizações, a fuga do investimento e das multinacionais, a destruição sistemática da competitividade das nossas empresas; que a entrada a empurrões na CEE foi paga com a destruição dos sectores mais produtivos da nossa economia; que os responsáveis têm nomes (Soares, Cavaco, Gueterres, Barroso, Sócrates); que a classe política e seus partidos foi responsável por isto. A "classe média", essa também foi responsável - e de que maneira - e deu hoje triste expressão de uma teimosia cega ao querer manter um sistema que caiu, morreu, não tem retorno. Sei que não compreendem. Afinal, quiseram tudo, pensando que o trabalho sujava, que estávamos na vanguarda do mundo capitalista, que éramos, finalmente, europeus. O regime mentiu por quarenta anos, teve filhos e netos - pequenos, atrevidos, ociosos e sem  cabeça -; aqueles que saíram à rua, que inventaram um país que nunca existiu e ainda teimam e pedem mais do mesmo. Grandes e fundas bolsas de subdesenvolvimento subsistem. A poesia constitui, para a literatura, a fase primitiva da descoberta da ficção. Precisamos de prosa, de acatar regras de sintaxe, conhecer a gramática, saber pensar. Os arroubos poéticos de hoje, a explosão da lágrima e da voz trémula, são sintomas alarmantes e vêm demonstrar que o povo português não quer acordar, não quer assumir responsabilidades e está, novamente, à espera que alguém o venha manipular, usar e abusar.

***
Noite de decibéis em frente da Assembleia da República, a tal que foi eleita há um ano e tem de ser dissolvida pela votação das ruas. Dois feridos ligeiros, uma multidão que vai dispersando com a fome do bife a apertar, a polícia - os únicos filhos do povo ali presentes - a aplacar os bravos da revolução que o não foi. Este país é uma pilhéria.

PARA OS IMPULSIVOS E PARA OS CONVERSACIONISTAS DO DESASTRE, AQUI UMA EXPLICAÇÃO.

Sair da crise, como ?

23 comentários:

Pedro Góis Nogueira disse...

Aprecio bastante o Combustões, mas com todo o respeito, acho este post um delírio. Estive na manifestação em Lisboa e eram 18 horas eu ainda estava na cauda,entre o Saldanha e o Campo Pequeno, o meu irmão já em plena Praça de Espanha. 10 mil? Peço desculpa, mas falta aí um zero, pelo menos...

Adenda: nem falemos nas dezenas de cidades e vilas em todo o país.

Combustões disse...

Pedro
Daqui a uma hora estarão todos nas Docas e no Bairro Alto. Amanhã é dia de praia. As revoluções não se fazem com burguesia em busca de crédito perdido. Os bancos não dão mais, acabou-se.

Joao Quaresma disse...

Subscrevo totalmente o comentário de Pedro Góis Nogueira: também lá estive e também aponto para, pelo menos 100 mil pessoas. Sei do que falo porque já passei por várias concentrações dessa dimensão, em Fátima, na Fonte Luminosa e a visita do Papa em 2010. Penso que o que aconteceu merece reflexão, não negação.

jorge.oraetlabora disse...

Caro Miguel,
há muita gente a viver já na miséria, em Portugal.
É imperioso que o governo comece, de imediato, a cortar a sério nas gorduras e nas mordomias escandalosas de muitos parasitas do Estado.
Como aliás, o Miguel o reconhece num dos seus últimos posts.
Sejamos serenos e prudentes, para não irmos atrás de falsas motivações e enganos. Mas não deixemos de chamar a atenção para as imoralidades da gente da política e dos negócios de compadrio...

Bonaparte disse...


As poucas revoluções que se conhecem foram apenas feitas pela burguesia.
O problema não está e nunca esteve na rua, o problema está e sempre esteve na ruptura da coligação. Era evidente que o aquecimento político levaria a uma repentina mudança estratégica do PP (Paulo Portas).
A Passos Coelho só lhe resta, com toda a dignidade que sempre manteve ao longo deste mandato, pedir ao PR a demissão.

José disse...

Peço desculpa, mas o Miguel não está a ver a coisa. Não estive em qualquer das manifestações ocorridas no país, mas reduzir a motivação dos que lá estiveram a um protesto egoísta por falta de crédito bancário que subsidie os vícios deles, parece-me revelador de notória falta de sensibilidade de quem, afinal, parece viver encerrado numa torre de marfim.
Há um país que está a sofrer, há uma classe outrora média cada vez mais proletariazada, há vastas camadas da população a quem tudo está a faltar - trabalho, casa, emprego, alimentação, capacidade de satisfazer compromissos básicos como o pagamento de água, gás e electricidade -, que vê a sua dignidade cada vez mais reduzida por força dos devoristas que saqueiam Portugal e por força da política selvagem e inumana de austeridade do governo de Passos Coelho. Estas pessoas, que de certeza foram muito mais do que 10.000 em Lisboa (uma mancha compacta de pessoas entre a Praça de Espanha e o Saldanha, via Avenida de Berna e da República são no mínimo dez vezes dez mil), têm toda a razão para se manifestar. E a reacção do Miguel, como o devido respeito, está ao nível da anedota histórica que se conta de Maria Antonieta: vendo o povo reclamar pão, reagiu mandando-o comer "croissants".

zazie disse...

O elevado número significa que existem muito mais apalermados do que se podia supor.

Josué disse...

o povo começou a dispersar. a democracia já pode respirar de alívio :D

Cão que fuma disse...

Muito bom, adorei!

Cão que fuma disse...

Muito bom!Adorei!
http://www.ocaoquefuma.com

Combustões disse...

Não foram 100 000, foi um milhão, milhão e meio ou mesmo dois milhões. A imaginação à rédea solta.

pecanot disse...

Caro miguel, se a a sua idiotice pagasse imposto ja estariamos safos da austeridade.

Combustões disse...

Pois é, caro pequi-not, da Assembleia da República a mole passou-se em peso para o Bairro Alto. As Kaipiroskas esgotaram.

Pedro Góis Nogueira disse...

Engraçado que aqui tenha o tipo de atitude do "cromo da bola" que tanto execra. Até parece que a culpa foi do árbittro. Kaipiroskas, 24 de Julho, realidade é que não...

José Freitas disse...

Caro senhor, por favor não saia do palácio onde vive. Não cometa o disparate de se juntar à multidão infecta que ontem saiu às ruas. Aquilo é só gente que de endividou para comprar casas, carros, computadores, máquinas de lavar louça e roupa (imagine-se), até mesmo telemóveis. Gente, veja lá, que tentou ter uma vida digna, como os nobres cidadãos que residem noutras nações. Quem sabe até compraram livros... Como de facto é possível que os inúteis que se endividaram queiram agora outra coisa se não a escravidão. Já os santos homens e mulheres que governaram o país, que o endividaram à conta dos tais inúteis, é ergue-lhes uma estátua.
Por isso, deixe-se estar no seu cantinho e nunca, por nunca, se junte aquilo que se chama de povo. É gente que não merece dois segundos do seu tempo. Só não percebo é que é que aplicou uns cinco minutos a escrever sobre eles.

TMC disse...

O autor do texto é intelectualmente desonesto e sabe que assim o é; o seu conservadorismo sem qualquer ligação com a realidade é o que o protege da da mesma, e por isso as suas interpretações serão sempre as mesmas, num funesto círculo vicioso. Gosta de generalizar a torto e a direito e apodar todos os manifestantes como escravos do crédito consumista, donos de grandiosas ilusões e esquecidos dos responsáveis políticos. Tamanho mofo é lamentável. Já nem falo da "fome do bife"

Valha-nos a sua ombridade e postura por nos mostrar como as coisas são.

O Miguel dá dó.

Pedro Marcos disse...

Grande desilusão que me suscita, oh Miguel.
Partilho da ideia do José quando o acusa de estar desligado da realidade, acusando quem se manifestou de meninos mimados.
Tão desligado está que demonstra estar desligado desse "povo chão" que diz adorar, mas que depois ataca se o estilo da indignação não lhe cair no goto.
O trágico é que se diz monárquico!
Trágico também é assistir ao silêncio do campo monárquico (no qual me insiro) ao não se apresentar como alternativa, preferindo a comodidade snob, vaidosa e cómoda do "sentido de estado" de quem não quer arriscar nada.
Eu estive em Aveiro e confesso que tinha receio de ver bandeiras vermelhas e de sindicatos. Não vi. Vi a bandeira da república (e nenhuma das verdadeiras bandeiras). Vi gente ordeira e a cantar o hino. de todas as classes. Onde estava o Miguel? O das manifestações em Bangkok?
O Miguel está desligado da realidade e a insultar bons portugueses!
Onde está a alternativa monárquica?
Só se preocupa com jantares e tertúlias, entre os seus, é?
Se sim, é colaboracionismo!

E já agora, explique-me como consegue defender Passos Coelho e Sócrates (a quem lhe dedicou amáveis palavras por lhe ter respondido a uma carta - ou alguém por ele), apesar da "obra" por ele realizada. Como se o gesto simbólico fosse capaz de redimir os factos!

Saia do seu mundinho e deixe-se de pretensiosismos bacocos para justificar a sua inacção, e o seu apoio a ultra-liberais internacionalistas, cúmplices de gerações no Grande Roubo Abrileiro!

Este postal é adolescente, superficial e... beto!

JP disse...

Falhou a intentona do 15 de setembro

JP disse...

Falhou a intentona do 15 de setembro

Josephvs disse...

"Thumbs up" para si Miguel

Ricardo Venâncio disse...

Eu estive no meio da Praça de Espanha às 6 da tarde e posso assegurar que, entre a Praça a rebentar pelas costuras, mais a Avenida de Berna desde o Campo Pequeno, mais a Augusto de Aguiar para lá do El Corte Inglés, mais o fim da marcha que ainda vinha na Avenida da República, o ajuntamento não excedia a meia dúzia de okupas de rastas e 3 djembés. Ah, e um cão. Foi um protesto insignificante que não reflecte em nada a realidade gloriosa em que o país se encontra. Obrigado pelo relato sóbrio e nada parcial do que se passou ontem, só com esta honestidade e fibra moral é que o país pode avançar, estando confrontado com o abismo da crise.

Sério Baralho Simpson disse...

Excelentíssimo Sr. Miguel Castelo Branco.
Não imagina o nojo que o que acabei de ler me provocou, em relação à sua pessoa.
Presumo que vossa excelência é um dos “bempóstos” neste país de pobres coitados como eu, certo?
Alguém que se sente superior à populaça (Segundo as suas contas, os tais 0,20% que participou + 60% de pobres que não o fez + n% de classe média que também não foi).
Pois fique sabendo que segundo as minhas contas, os mais de 8% que participou + 60% de pobres(números seus) + n% de classe média que pelos mais diversos motivos não compareceu, todos juntos. E todos juntos somos efectivamente um numero muito significativo, acredite.
Mas todos juntos, dizia eu, desejamos a si e aos da sua laia que algum dia valham pelo menos algo que se pareça com o que nós valemos. Pois são os seres da sua espécie, os principais provocadores das doenças que os humanos como nós sofremos. Os principais responsáveis pela Peste que abateu sobre esta sociedade.

O Escravisauro disse...

Não argumento. Apenas aponto uma contradição ontológica.

Leitmotiv deste blog: "AQUI NÃO SE DIZ MAL DE PORTUGAL"

Remate deste post: "Este país é uma pilhéria."