13 setembro 2012

Arruaças periodiqueiras


Só hoje tive a oportunidade de assistir na totalidade à entrevista concedida pelo Ministro das Finanças. Moveu-me a curiosidade, depois de ouvir duas figuras discretear sobre o tema. Eriçados de bem-aventuranças e das indignações da "classe média" que quer, manda e pode, os depoimentos dos comentadeiros eram, sem tirar, eco das impertinências com que o José Gomes Ferreira - não o escritor, que esse era alguém e deixou obra - brindou um titular ministerial. 
Pasmado fiquei com a raiva com que o Ferreira interpelou o Ministro das Finanças, abeirando-se, pelo palavreado e pela falta de subtileza, do vox populi , ou, se quisermos, do besabafo do taxista. Tudo naquela entrevista tresandou a deseducação: pelo tom agastado e atrevido perante uma pessoa que acedeu (é esse o termo, acedeu, desceu, condescendeu) a uma entrevista (Gomes Ferreira não é ninguém no ordenamento político nacional); deseducação nas formas de tratamento, escusando-se a um elementar "senhor ministro"; falta de polimento que interpreto como marca de uma burguesiazinha sem outra leitura que os catrapácios dessa ciência social menor que dá pelo nome de Economia. Os portugueses atingiram tal estado de embrutecimento e esquecimento dos códigos que se tornou  possível que periodiqueiros se instituam em justiceiros sem procuração.
Depois, compreendi. Gomes Ferreira é dos tais que considera que 3000 Euros são coisa pouca para uma "família média", com dois filhos estudando "no colégio", uma prestação de 500 Euros para a casa, mais 500 para o carro e 1200 para a comida. Três mil não é pouco nem muito, mas para os 60% de portugueses que vencem pouco mais que o ordenado mínimo, tal quantia diz pouco, pois nunca a tiveram. A fronda da burguesiazinha dos Gomes e dos Ferreiras está aí a estourar. O governo que não se incomode com os pobres, mas com a tal classe média que teve tudo, esbanjou, pensou-se rica e europeia sem esforço e agora não abre mão. Se lá puseram Passos Coelho, amanhã vão votar em Seguro, por sua [deles] inconsciência e para nossa desgraça.
Vá, toca a relaxar com uma melopeia khmer.


2 comentários:

cardo disse...

"...falta de polimento que interpreto como marca de uma burguesiazinha sem outra leitura que os catrapácios dessa ciência social menor que dá pelo nome de Economia. "

Carlyle foi um que escreveu muito sobre este assunto:

"The question of money-making, even of National Money-making, is not a high but a low one: as they treat it, among the lowest. Could they tell us how wealth is and should be distributed, it were something; but they do not attempt it. Political Philosophy! Pol. Ph. should be a scientific revelation of the whole secret mechanism whereby men cohere together in society; should tell us what is meant by “country” (patria), by what causes men are happy, moral, religious, or the contrary: instead of all which, it tells us how “flannel jackets” are exchanged for “pork hams,” and speak much about the “land last taken into cultivation.” They are the hodmen of the intellectual edifice, who have got upon the wall, and will insist on building, as if they were masons" (Two Notebooks of Thomas Carlyle, p. 144, ed. Charles Eliot Norton. New York: The Grolie Club, 1898) .

João Pedro disse...

Palavra de honra que me escapa o sentido deste post. Não vi a entrevista toda e portanto talvez me tenha escapado algum tom menos polido de Gomes Ferreira. Mas não é a missão dos jornalistas confrontarem o poder, procurarem a verdade? Deveria ele ter assumido um tom submisso, timorato? Numa altura em que o governo sobrecarrega os portugueses de impostos, em que nem os que pensionistas e os que ganham o salário mínimo escapam, em que se açambarca receita e pouco se corta na despesa, como tinham prometido, deveriam os jornalistas fazer genuflexões perante o poder ou confrontá-lo?
E quanto à "burguesiazinha sem outra leitura que os catrapácios dessa ciência social menor que dá pelo nome de Economia", no governo não haverá exemplo perfeitos disso, a começar por Vítor Gaspar?