12 setembro 2012

A sério, digam-me onde fica o país da Cocanha


O governo está em exercício há pouco mais de um ano. Em Julho de 2011, Portugal perdera crédito internacional. Os funcionários públicos tinham vencimento garantido até Outubro, os GNR's não sabiam se venceriam o mês de Agosto, na tropa não havia orçamento para pôr os aviões no ar. O PSD e o CDS foram levados ao poder por medo. As pessoas não queriam pensar. Julgavam que tudo ficaria na mesma.
Vieram as sinistras figuras da Troika, sinistras mas garantindo o mínimo que tem mantido o Estado a funcionar. O governo fez o que lhe mandaram fazer e disse aos portugueses aquilo que se exigia há mais de duas décadas: que estávamos falidos, que o glorioso ciclo empréstimos-cartões de crédito - carro novo de dois em dois anos- computador de ano a ano - viagens e férias a pagar tinha terminado. As medidas foram aplaudidas, mas aplaudidas platonicamente. O português gosta de palavras, mas foge da realidade. Verbalizou, chorou à pieguice, mas secou as lágrimas, julgando que a palavra crise fazia a crise. O governo acabou com as bondades melicianas, com as guterradas e ferro-rodriguices - todas pagas com empréstimos, mais os juros, pois a banca internacional não dá, finge que dá e tira a dobrar - e logo começou a gritaria. A vociferadora "classe média" - a tal que vota PSD e PS desde 1975 - sente-se atingida.

As "classes trabalhadoras" - essas que por tão pouco ganharem, não foram beliscadas pela tributação - foram atrás e gritam também. Mas gritam porquê? Porque ouvem a "classe média" PS+PSD gritar que lhe tiraram o carrinho a crédito, o apartamento novo, os cartões-de-crédito, o 13º e 14º ordenados ? No fundo, habituaram-se mal. Todos barafustavam contra Sócrates, e antes de Sócrates contra Barroso, mas acreditaram - tão medianos são, em bom-senso como em credulidade - que Portugal era uma Suécia sem a eficiência da Suécia; que Portugal era uma Alemanha, mas uma Alemanha sem mittelstand; que Portugal era o país das "novas oportunidades" e do "empreendedorismo", não de fábricas e de empresas, mas de ajudas e subsídios, de rendimentos mínimos garantidos.
A parte dolorosa e não platónica está a ser vivida por cada um e por todos. Helás que pedem a queda do governo. Um ano foi suficiente. É sabido que o governo não deitou mãos à oligarquia, pois a oligarquia em Portugal são os 100 000 que vivem "disto". Querem mais Sócrates e mais Guterres? Não, pois não há mais crédito. Ninguém dará um cêntimo a Portugal enquanto não voltarmos a proceder como um país pobre.
Aqui não há revoluções, nunca as houve, mas há janeirinhas e há, duas ou três vezes em cada século, um José Júlio da Costa. Continuo a apoiar o governo - que não é de coligação, mas de Salvação Nacional - e fá-lo-ei a redobrar se os tais institutos, as tais fundações e observatórios, os senhores administradores PS e PSD foram postos fora, mais metade dos senhores deputados, mais 14 000 dos 15 000 funcionários políticos que ultrajam o serviço público. Nesse dia, mandarei colocar na minha sala de visitas a fotografia de Passos Coelho!
Se Passos não vingar, então, o regime está perdido. Este é, sem dúvida, o último governo da III República.

4 comentários:

jorge.oraetlabora disse...

Caro Miguel, subscrevo na íntegra estas suas palavras:

"(...) Continuo a apoiar o governo - que não é de coligação, mas de Salvação Nacional - e fá-lo-ei a redobrar se os tais institutos, as tais fundações e observatórios, os senhores administradores PS e PSD foram postos fora, mais metade dos senhores deputados, mais 14 000 dos 15 000 funcionários políticos que ultrajam o serviço público. Nesse dia, mandarei colocar na minha sala de visitas a fotografia de Passos Coelho!
Se Passos não vingar, então, o regime está perdido. Este é, sem dúvida, o último governo da III República."

Abraço patriótico!

Duarte Meira disse...

«Este é, sem dúvida, o último governo da III República.»

Era bom que fosse. Não será. depois deste, seguir-se-á outro mais ou menos igual, e depois outro mais ou menos igual, e depois outro mais ou menos... Sempre mais do mesmo, por longos e maus anos (décadas).

O caro Miguel parece-me que ainda não caiu bem na conta do "regime" em que já estamos a viver. Não há nenhum "governo" português nesta região chamada "Portugal". Não há já nenhuma "República" comparável às duas que conhecemos e há 3º finada em 1 de Janeiro de 1986. O que há, ao nível do que era classicamente conhecido como "política", são APARÊNCIAS mediáticas. Não há "regime", há um CAOS induzido e gerido. O poder total e totalitário já em acção ambiciona muito mais do que a mera "política". Todos esse velhos conceitos e práticas do passado estão a evolar-se.

Se me permite o atrevimento da sugestão (repetida): reflicta com muito cuidado no que é isso de "absolutismos de salvação" (na expressão que utilizou). E, se esta expressão sua tem alguma coisa a ver (pela amostra de certos apontamentos que aqui tem deixado) com uns barbaçanas que aparecem aí nas televisões vestidos à maneira bíblica e a fazerem de "terroristas" e "fundamentalistas", não se deixe impressionar com o espectáculo, mesmo sangrento e abominável. Também eles são contribuidores inscientes para o tal caos.

Duarte Meira disse...

Caro Miguel Castelo Branco:

Espero que o meu comentário anterior não o leve a pensar em "teorias da conspiração", que não perfilho. Existem encenadores detrás do proscénio, mas eles também fazem parte do teatro. Acredito, sim, na conjugação e convergência de factores múltiplos e de diversa natureza, mais ou menos controláveis, mas não absolutamente controláveis. Acredito, também, que o nosso caso nacional já nos escapou das mãos - enquanto entidade política "Estado" no sentido moderno (pós-Renascença) do termo.Aliás, não só a nós. Sobra a nação, que é a de alguns portugueses e uma certa cultura dela e deles.

O caso deve ser apreciado à luz daquelas diferenças sintomáticas que o Miguel aqui tem referido, como ainda agora na referência (justíssima) que fez ao velho Pompidou, por comparacção (dramática) com bonecos como o sr. Obama.

Ahmed Al Zarauabi disse...

caro Miguel,
na tropa aprendi que o exemplo deve partir de cima...
acho que já era tempo de Portugal meter os pés no chão e aperceber-se que não se pode dar ao luxo de ter um nivel de vida igual ao de outros países.Concordo consigo nesse ponto.
Aquilo que não concordo nesta política do "faz de conta" que se faz neste país é que os sacrificios vão sempre para o mesmo lado.Porque raio não começaram com os cortes no numero de deputados no parlamento?porque é que não cortam nos inumeros subsidios que estes senhores recebem, alguns deles, como o de deslocação, na maior parte dos casos fraudulentos...tente pesquisar quantos deputados indicam Lisboa como a cidade onde habitam.Aposto que uma pequena percentagem o terá feito, de modo a conseguir "sacar" mais alguns tostões.
Já para não falar na quantidade exagerada de carros de luxo, tanto no governo central, como nas autarquias, os ordenados principescos de secretárias, técnicos assistentes ou qualquer outro técnico que seja "abençoado" com um lugarzinho nos gabinetes dos vários ministérios.
Dito isto, seria assim tão necessário cortar no que a classe trabalhadora ganha?
Seria necessário esta asfixia em termos de impostos,taxas,retenções de subsidios,portagens,etc?
Justificam-se os salários que os ministros, chefes de gabinete,chefes e administradores de empresas publicas ganham num país em que o ordenado mínimo, tirando descontos,taxas e impostos fica na ordem dos 350€??
Dir-me-á que a justificação destes ordenados é para evitar que os mesmos senhores sejam tentados a aceitar subornos? Até agora não tem funcionado...
Justifica-se um país que nunca esteve realmente envolvido numa grande guerra, invista milhões que tanta falta fazem em 3 submarinos "meio-avariados"?
Afinal....fui eu que vivi acima das minhas possibilidades, ou foram estes senhores e os anteriores que, com negócios ruinosos, negócios obscuros, negócios em que muita gente fica a ganhar menos os cofres do Estado?
Se o vencimento de quem governa fossem salários mínimos, garanto-lhe que não havia nenhum que estivesse interessado em sentar-se naquelas cadeiras.
Se não fossem os compadrios, as cunhas e as capacidades de saltar de lugar em lugar, de empresa para empresa e as altas regalias,tinhamos agora uma assembleia da republica realmente composta por pessoas interessadas no bem do povo e no bem do país...
Por estas e por outras, não posso apoiar um governo que faz anuncios de medidas de austeridade antes dos jogos da Seleção, para diluir melhor...não posso apoiar um primeiro ministro que faz pedidos de sacrificio ao povo(mais uma vez) e depois vai com a sua esposa a um concerto do Paulo de Carvalho e aparece todo animado,como se tivesse acabado de anunciar que Portugal era o país mais próspero e rico da UE.
Para finalizar, deixo-lhe um comentário feito a um canal de televisão quando lhe perguntaram se não achava que ganhava muito :" Não ache que ganhe muito.Se ganhasse menos, não dava nem para comprar os vestidos que a minha mulher precisa para irmos a certos eventos."