25 setembro 2012

A entrada da Rússia na vida europeia em mostra na Biblioteca Nacional

Com o patrocínio da embaixada da Federação da Rússia, a Biblioteca Nacional de Portugal apresenta a partir de hoje ao público uma mostra documental intitulada "1812: a Campanha da Rússia", oferecendo ao público um percurso documental sobre esse acontecimento axial do nascimento da Europa contemporânea.

Foi produzido catálogo anotado, precedido por textos da autoria do embaixador da Rússia em Portugal, Pavel Petrovskiy e Lyubov Melnikova, Investigadora Chefe do Instituto da Historia da Rússia e membro da Academia das Ciências da Federação da Rússia. Enquanto comissário da mostra, coube-me seleccionar, catalogar e descrever as peças expostas, assim como o texto explicativo sobre as origens e consequências do conflito, do qual retiro um breve excerto.

"Um tema ainda marcado pela paixão

Dois séculos passados, a Campanha da Rússia de 1812, parece resistir aos proclamados princípios que distinguem o labor historiográfico de outras formas de saber. A deontologia que obriga os investigadores manifesta-se, sempre, através de veementes manifestações de isenção, limitação da paixão e do irracional, compreensibilidade e explicação dos factos; em suma, o estudo da história não consente explicações lineares, simplistas e apaixonadas.
Contudo, como lembrou Marc Ferro, independentemente da sua vocação científica, a história exerce outras funções, nomeadamente terapêutica e militante, abeirando-se do senso comum, produzindo imagens poderosas, servindo causas, justificando, anacronizando e fazendo leis, naquilo a que Popper chamou de miséria do historicismo. Se a história só interessa pela actualidade que repercute e se os “acontecimentos” só subsistem se transformados em “memória” dos agrupamentos humanos – das sociedades, das nações e dos Estados – a necessidade da história torna-se fenómeno cultural cujos factores são psicológicos, morais, políticos e ideológicos.
A Campanha da Rússia, pela diversidade de aspectos, é tema rico, ainda havido como marca identitária contemporânea. Subsiste a ideia de uma fronteira entre o Ocidente e o Oriente, sendo a Rússia tida como limite físico da Europa; o “mundo russo” equivale a vastidão, exotismo, “misticismo”, medos e fantasias: o gelo, a estepe, as hordas tártaras e cossacos, o “despotismo”… – o que as ideias literárias dos séculos XVIII e XIX, aliás sem marcas de envelhecimento, permitiriam substanciar.
2012 tem sido um ano de celebrações, de iniciativas e festividades: entre os russos – a Guerra Patriótica, assim cunhada ainda na primeira metade do século XIX por Mikhailovsky-Danilevsky, enquanto marco da identidade nacional e exemplo; e também entre os franceses, que nela identificam o fim da hegemonia da França sobre a Europa.
O entendimento que hoje se poderia fazer da contenda, encarada não apenas como conflito militar, mas antecâmara de uma Europa em busca do concerto da paz - que o Congresso de Viena e até a Santa Aliança inicial quiseram consagrar – colide com surda resistência de quantos mobilizam mitos, velhos de séculos, persistem em entender a campanha à luz de preconceitos de natureza civilizacional.
A dificuldade francesa, pese a importância e inegáveis méritos de muitos académicos especializados na matéria napoleónica, reside no facto dessa era continuar a ser interferidos por uma persistente indústria napoleónica, que se espraia sob a forma de obras de divulgação, sítios-web e blogues, associações de recreio entusiastas de militaria, jogos de guerra e miniaturismo, tour packages napoleónicos e revistas de divulgação – a mais recente das quais, Vive l’empereur, surgida em finais de 2011, afirmava no seu manifesto de intenções que “nous nous démarquerons résolument de la legende noire de Napoleón” – bem como conferências, simpósios internacionais e seminários organizados por institutos, círculos e associações de natureza mais testemunhal que académica. (...)"



2 comentários:

O Diabo Coxo disse...

É bom ver publicações desta natureza num país que acabou com o 1º de Dezembro...

Cumprimentos,

DC

Chardon Ardent disse...

Félicitations…

Fasse le Ciel que bientôt la Grande et Sainte Russie ressuscitée vienne une fois de plus palier l’inconséquence des « Européens »…