13 agosto 2012

Uma história sinistra lida às crianças e lembrada ao povo


Deixem-me contar uma pequena história. Houve em tempos no Sudeste-Asiático um grande Estado budista, forte, expansionista e temido como nenhum outro jamais o fora na região. Chamava-se Myanmar, mas os ocidentais deram-lhe o nome de Birmânia, ou Bramá, terra de
Brahma, deus hindú da criação. Nesse tempo, a China mantinha-se desafiante, tinha uma porta aberta ao comércio ocidental em Macau. Com os Portugueses, havia um acordo tácito. Eles mandavam, nós estávamos lá. Não havia tratados, nem outras relações para além das necessárias. Ali perto, em Cantão, tal como os japoneses em Dejima, facultaram os chineses entrepostos aos outros europeus que ali iam carregar as sedas, as porcelanas e as lacas. Como do Ocidente só queriam telescópios e outras geringonças, os ocidentais pagavam forte, em prata. Era o chamado sistema de Cantão. A China detinha o seu sistema internacional e o seu modelo económico, controlando as redes comerciais do Extremo-Oriente através do junk trade. A Birmânia estava a meio caminho entre a Índia dominada pela East India Company e a China. Em Malwa, produzia-se ópio, mas era de má qualidade. Dizia-se que ópio birmanês era o mais puro. Para além disso, a teca birmanesa era a melhor.
Em 1824, os britânicos - diz-se que instigados pelo lóbi dos mercadores de Calcutá - inventaram um casus belli e derrotaram os birmaneses. Pelo tratado assinado em Yandabo, tiraram-lhes a costa do Mar de Andaman e o Arrakan (Arracão). Não estavam safisteitos. Na Grã-Bretanha, as gazetas populares investiam forte nas delirantes estórias do "despotismo birmanês", da impiedade e violência do governo birmanês. Em 1842, a China foi forçada - pela guerra - a abrir os portos ao "livre comércio" e ao "progresso". Escancaradas as portas do Império do Meio, incluiram no clausulado de tal capitulação a liberdade da exportação para a China do ópio produzido na Índia. Porém, o ópio birmanês estava ali, bem perto. Lord Dalhousie, responsável pelo governo da Índia, enviou à Birmânia o Comodoro George Lambert, escolhido, nas palavras de Dalhousie, pelo seu carácter "combustível". Por uma ninharia recoberta com sagradas mentiras e grandes proclamações de liberdade, os britânicos deram início a outra guerra, no rescaldo da qual ocuparam Rangún e o acesso birmanês ao mar.
Os birmaneses, humilhados, tiveram então um Rei excepcional (Mindon Min), modelo de estadista reformador que introduziu o telégrafo, os caminhos de ferro, criou o banco nacional, cunhou moeda, anexando-a à Libra, fez concessões comerciais aos britânicos, introduziu o sistema de ensino ocidental e até enviou a nata dos jovens príncipes para estudarem em Londres, Singapura e Calcutá. Mas os britânicos não queriam ou não fizeram caso do zelo do monarca. Viraram-lhe as costas e persistiram em negar-lhe outro estatuto que o de um vassalo do Raj britânico. Esperaram pacientemente que morresse para, de seguida, atacarem o que restava do Reino.
Não vos ocorre, caros leitores, algo de muito semelhante com a Líbia, a Síria e os Afeganistões de hoje?

2 comentários:

WZD disse...

Os romanos faziam o mesmo, com os seus "estados-cliente", anexados após morte do rei...

"Na Grã-Bretanha, as gazetas populares investiam forte nas delirantes estórias do "despotismo birmanês", da impiedade e violência do governo birmanês."

Ele há coisas que nunca mudam...

WZD disse...

Os romanos faziam o mesmo, com os seus "estados-cliente", anexados após morte do rei...

"Na Grã-Bretanha, as gazetas populares investiam forte nas delirantes estórias do "despotismo birmanês", da impiedade e violência do governo birmanês."

Ele há coisas que nunca mudam...

O que conta é sacar o máximo de riqueza e aumentar o poder que já se tem e do qual se abusa cada vez mais. ;)