31 agosto 2012

Ladra, Couto


O Mia Couto sai hoje na Visão. Entrevista miserável, cheia de falsidades, pretensiosa, tão má como o são os livrinhos do bípede que, não sabendo português, se atreveu inventar uma nova sintaxe e centos de neologismos para uma língua que desconhece, uns piores que outros, mas todos exibindo absoluta falta de leitura de base e incapacidade para a captação da inteligência do idioma. O Couto não é mau literariamente, é péssimo. O seu sucesso é uma moda nascida da confluência da praga dos crioulismos, dos "estudos pós-coloniais" e dos marxismos terceiro-mundistas. Por meia dúzia de vezes, induzido pela propaganda, abdiquei do meus preferidos Camilo , Miguéis e Brandão para me abeirar daquelas estoriazinhas: uns pós de psicanálise de trazer-por-casa, uns grão de moralismo pequeno-burguês, umas pitadas de bem-aventuranças, tão requentadas como as bebedeiras sentimentalóides do bom velho Godwin. Literariamente, o Mia mal existe, mas o que subsiste nos tiques e afectações do autor é de náusea.
Afirma, entre outras enormidades, que em Moçambique se chicoteavam os negros, que na parte de trás dos autocarros havia um banco corrido destinado aos negros, que pelo Carnaval os brancos organizavam correrias pelos bairros do caniço, aí fustigando os negros com correntes. Pela experiência dos anos, sei que a generalidade das pessoas têm um preço, que a traição é uma questão de oportunidade, de lugar e de montante, mas no caso do Couto - sempre de queixo apoiado na mão, fazendo o imaginado chique do intelectual, coitado - tudo soa a cata-ventismo apalermado.

8 comentários:

Isabel Metello disse...

Interessante, Miguel, eu li dois livros da criatura e gosto em parte, até porque reflecte muito da nossa capacidade de recriarmos palavras (aportuguesávamos anglicismos: chwinga, farma...; adoptávamos palavras nativas: Xikuembo, Kanimambo, Hambanini, junguila..., mas, pensava :) mas que Moçambique é este deste homem, que nunca vi nem alguma vez experienciei? E olhe que eu vim para Portugal com 7 anos, mas tenho memórias tão vivas de Moçambique! Onde é que este homem foi buscar isto? Será que eram os seus Pais e círculo de amigos que assim agiam? Pois eu andava de machimbombo e via sempre negros e brancos misturados, a minha Mãe dava aulas no mato a Crianças de todas as raças e os meus colegas da 1ª classe e os meus amigos tb eram de todas as cores...Não entendo! E, depois de o ler, sentia-me mesmo muito mal, a sério-cheguei a ter pesadelos consecutivos com Moçambique por causa da leitura de Mia Couto, mas eram mais ao contrário- eram com a FRELIMO!

Bic Laranja disse...

Sempre que ouço de Moçambique ratificar o tratado do desconchavo ortografico a noticia vem com etiqueta de preço. Diz que uma parte é para pagar a este energúmeno pela propaganda que lhe faz. São todos tão mesquinhos, tão rascas...
Cumpts.

Xico disse...

Essa do autocarro é de gritos. Andei em muitos e, muitas vezes,com o autocarro cheio, eu era o único branco. Devia ser um banco muita grande...!
Vivi perto de bairros de caniço e passeei por alguns. Brinquei ao carnaval e devo ter sensivelmente a mesma idade de Mia. O que ele fazia no carnaval, não sei. O que eu fazia nunca se pareceu com aquilo que ele diz que fazia.

jorge.oraetlabora disse...

"Almada Negreiros"... a zurzir no "Dantas" ...?!
O Almada não tinha razão, só talvez inveja, porque Júlio Dantas é um grande escritor.
Mas o Miguel... a vergastar o Mia Couto...?!
Não emito opinião sobre a qualidade deste homem como escritor; mas já li umas coisas dele - que apareceram nos media - de análise da sociedade actual moçambicana, em que, corajosamente, desanca os podres dos políticos.
Aqui, em Portugal, ainda não vi nenhum vulto de referência a criticar sem destemor as poucas-vergonhas dos políticos nacionais (salvo seja...) ...!

Conservador disse...

Ainda bem que não sou o único a pensar o mesmo. Vá lá...a sério que fiquei naquele estado em que se acabou de aterrar: pensava que era marciano por desprezar este "mais-ô-menos" das coisas escritas.

mujahedin مجاهدين disse...

Caro Miguel (e restantes),

permita-me uma sugestão. O Miguel diz que as coisa não são como Mia Couto as conta. Eu não duvido.

Mas a verdade é que não sei. Nunca estive em África nem nasci a tempo de ver fosse o que fosse. Ora pense no que tem à sua disposição alguém que seja educado hoje em dia, sobre assuntos como esse.
Apenas um lado da história. O de Mia Couto.

Propunha então que, se tiver provas - fotos, relatos, recortes de jornal, seja o que for de documental - que o publique.

Assim, gente como eu, tem como basear a sua opinião mas concretamente, mas sobretudo, tem como convencer quem disso duvida, por só ler Mia Couto e pensar que aquela é a verdade.

Está na altura de trazer a verdade ao de cima. Já há quem o faça. Façamo-lo todos!

Façam aparecer tudo! Que senão nunca mais saímos disto...

Xico disse...

Caro Mujahedin,

Gostaria muito de lhe fazer uma reportagem fotográfica sobre o que foi e o que é Moçambique. Infelizmente, quando lá vivi não adivinhava que iria ser interpelado para isso pelo caro comentador.
Posso só relatar alguns aspectos da minha experiência, pois lá vivi desde que nasci até aos dezanove anos, altura em que parti já meses após a independência daquele país. Acresce que os meus pais também lá nasceram.
Mentiria se lhe dissesse que aquela era uma sociedade justa e não racista. Era uma sociedade em que os brancos eram nascidos lá e cá, mas a maior parte descendentes dos portugueses das Beiras, do Algarve ao Minho. Se eram racistas cá, lá continuariam a sê-lo. Nem mais nem menos. No entanto, em regra, os portugueses aceitam bem os outros e por isso muitos fizeram casamentos mistos ou tiveram mulheres negras com quem viveram e tiveram filhos. Era uma sociedade multi-cultural e multi-étnica. Em regra não misturada, mas respeitadora dos outros e em paz. Só assim se explica que eu, miúdo, podia andar por qualquer bairro de caniço que nenhum mal me aconteceria. Desde o meu bairro até à baixa, uns poucos de quilómetros, não me lembro se havia esquadras de polícia. Hoje não posso visitar em segurança o bairro onde nasci e vivi.
Mas o que aqui se pode fazer é refutar o que Mia Couto disse. Sempre em minha casa houve criados negros. Na dos vizinhos também. Nunca vi ninguém levantar a mão a um criado. Se havia quem os chicoteasse, nunca vi, mas posso acreditar que houvesse quem o fizesse. Afinal quando cheguei a Portugal impressionou-me, pela negativa, a forma como em regra se tratavam cá os empregados especialmente os criados. Diferente da forma mais familiar e amistosa como me habituei a ver em minha casa e na dos vizinhos, pese embora as diferenças culturais. Lembro-me de uma vez uma das minhas irmãs se referir à criada, como a rapariga, e foi severamente admoestada por esta que exigiu que lhe tratasse pelo nome, pois raparigas eram as xxxxs.
E se não posso afirmar o que no segredo das casas dos outros havia, posso contudo garantir-lhe que essa do banco nos autocarros só pode surgir por quem nunca neles andou, uma vez que estes eram públicos. Brancos e negros não viviam necessariamente misturados nos bairros. É certo que muitos dos negros que acorreram à cidade para trabalhar se estabeleceram em bairros de caniço, como em Lisboa nos bairros de lata. Mas eu vivi num bairro popular onde eram meus vizinhos, minhotos, algarvios, alentejanos, árabes, paquistaneses e moçambicanos negros. Não havia indianos porque me lembro de terem sido expulsos da província quando da tomada de Goa. Se um autocarro só atravessasse bairros citadinos com a maioria de população branca, é natural que um negro se sentisse constrangido e se sentasse no banco de trás. Mas eram raros, os autocarros que o faziam e em regra vinham cheios das zonas mais negras da cidade e seria ridículo pensar que só se sentavam no banco de trás. Este aliás era o mais desejado por nós, estudantes, quando vínhamos em grupo da escola, num autocarro em que o motorista e o cobrador eram negros, bem como a maioria dos passageiros. Muitas vezes fiquei ao lado da mãe negra amamentando ao peito o filho. Fui escuteiro e com negros no meu grupo. Dormimos nas mesmas tendas, lado a lado, seria ridículo pensar que no autocarro nos sentássemos em bancos diferentes. E se isso fosse verdade o que estariam a fazer os vereadores negros da Câmara (que os havia)?
Quanto às brincadeiras de carnaval, se nunca nelas participei poderá pensar que não tenho legitimidade para desmentir Mia Couto. Manda no entanto o bom senso que pensar tal ser possível é absolutamente ridículo. Ninguém se atreveria a tal devido ao labirinto das suas ruas. Atravessei muitos quando atalhava com amigos e nunca vi animosidade de espécie alguma. Tinha colegas e criados que aí viviam, e seria natural que ouvisse falar se isso tivesse acontecido.

mujahedin مجاهدين disse...

Compreendo.

Mas haverá certamente bastantes arquivos pessoais. E também há quem se dedique a publicá-los.

Mas interessa também o motivo por que se publicam determinados documentos. Pelo que tenho visto a maioria publica por razões estéticas ou de nostalgia.

Mas documentos que desse ponto de vista possam não ser notáveis, podem sê-lo por demonstrarem objectivamente a falsidade de certas afirmações e.g. bastaria uma só foto de um banco de trás de um autocarro em Moçambique para demolir Couto.

No fundo eu falo de publicação com um intuito consciente contra-propagandístico.