07 agosto 2012

"Jovens" e "comerciantes"


Disse-me há dias um amigo meu que a comunicação social, com o anti-racismozinho racista ditado pela estupidez, estabeleceu, nos parâmetros da novilíngua da globalização, duas novas caracterizações étnicas, substitutas, respectivamente de negro/preto e cigano. Convém lembrar que há africanos pretos que consideram "negro" um insulto, pois que importado do anglo-saxónico nigger. Quanto aos ciganos, estes assumem com orgulho o etnónimo. Pois bem, os jornalistas - grupo particularmente tocado pela iliteracia - passaram a referir-se aos pretos como "jovens" e aos ciganos como "comerciantes". 

Sempre que há problemas envolvendo africanos pretos - pois também os há mulatos, como brancos, incluindo-se este Vosso criado na última categoria - lá vêm os senhores jornalistas apontar o dedo aos "jovens" (i.e. pretos), lembrando o tratamento de "boy" que os americanos brancos indiferenciadamente davam a qualquer preto, tivesse este 10 ou 70 anos. Boy/jovem quer, tão só, dizer "criado", "serviçal". O mesmo acontece com os ciganos. Problemas de esquadra, tiros e facadas em que são actores ciganos, recebem o rótulo genérico de "problemas com comerciantes". Assim, se os comerciantes da Rua Augusta se juntassem em abaixo-assinado, exigindo medidas de segurança perante uma hipotética escalada de problemas envolvendo membros da etnia cigana, como apresentar a notícia ? Comerciantes pedem protecção contra distúrbios causados por comerciantes?

Sei que as pessoas, sobretudo aquelas que se recrutam nas bandas da estupidez inteligente (adoro a expressão de Bloom), vivem com mil e um bichinhos na cabeça. Eu, branco africano, que nasci em África e desde sempre tenho convivido com pretos, mulatos, monhés, canecos e "chinas", nunca carreguei tais expressões com qualquer intenção pejorativa. O racismo vive, sobretudo, nos anti-racistas eriçados de racismo camuflado. Ainda não entendi como os cérebros da nossa comunicação social não se referem a Obama e ao madiba como os "jovens". Vão-se despir ! Eu cá vou começar a exigir que me tratem por afro-europeu.

4 comentários:

José disse...

No caso dos ciganos, mais do que "comerciantes", os mesmos são identificados nesses locais como "feirantes" :-)

Nuno Castelo-Branco disse...

Em 1995, tive uma violenta troca de palavras com uma advogada atrasada mental. Em Los Angeles, ficou extremamente ofendida quando lhe disse que era Afro-Portuguese. Claro que o fiz intencionalmente, sabendo que dali sairia berreiro mais que certo. havias de ver a forma como prosseguiu o jantar, numa sala apinhada de gente. Veio "ao de cima" toda a esperada burrice, ignorância arrogante - "YES, Cleopatra was black, just like me! ! - etc, etc. O pior de tudo foi quando puxei dos pergaminhos de família africana estabelecida em Moçambique desde 1885. A fulana ficou completamente histérica, até porque minutos antes dissera jamais ter posto as suas patinhas no continente "negro". Como me diverti!

João Pedro disse...

Lá está o Miguel a atacar as 'criações' dos senhores sociólogos. Se não fossem estes estratagemas como teriam eles 'objecto de estudo'??

mujahedin مجاهدين disse...

Afro-Portuguese! Afro-Europeu!

Ahaha! Que expressões catitas! Tenho pena de não ter nascido em África só para as poder usar para arreliar essa gente do bicho na cabeça!

Ahaha!