24 agosto 2012

Antena 2: o último grão de dignidade


Sei que, para muitos liberais, aquilo que não se pode vender ao desbarato ou não se pode comer, nada vale.  Os homens do business first - as criaturas das gestões, os maníacos da bolsa, os paranóicos do marketing & publicidade, os fetichistas do management - são os bárbaros de hoje. Para essa tribo alucinada e selvagem, o Terreiro do Paço dava uma excelente urbanização, os Jerónimos um hotel de 5 estrelas com Spa, a Torre de Belém um centro multiusos, a Sé Catedral uma excelente discoteca. O fanatismo desses salafistas do mercado, desses comunistas dos cartões-de-crédito e desses fascistas do poder do dinheiro é alimentado por um profundo desprezo por tudo o que desconhecem, nomeadamente o inefável, inútil e grandioso que resplende da arte, do pensamento teórico, da leitura literária, da escrita criativa, da investigação. Em pouco mais de vinte anos, destruíram o movimento editorial - substituindo-o pelo consumo dessa livralhada que inunda escaparates - mataram o jornalismo - hoje nas mãos de grupos empresariais alvares - e tomaram de assalto os pequenos mundos da fruição que eram os museus, as galerias, os círculos literários, erigindo as "indústrias culturais".
Ouvi hoje, de fonte que reputo credível, que se querem desfazer da Antena 2 - o canal de música clássica - no "package" da transação do canal 2 da RTP. Sim, a Antena 2 não gera receitas, não vende, não tem publicidade de cremes, comidas e ténis; não faz dinheiro. Ora, se algo ainda garante um pingo de dignidade a esta terra transformada nisto, é essa Antena 2.
Senhor Primeiro-Ministro, não mate aquilo que ainda nos distingue da Mauritânia e das Honduras.

6 comentários:

Duarte Meira disse...

“Sei que para muitos liberais ....”

E também devia saber, caro Miguel Castelo Branco, que não há por que meter tudo no mesmo saco e confundir liberalismo, liberalismo económico, capitalismo. O liberalismo económico porque liberal, nem é por princípio nem tem sido historicamente adverso a uma “economia social de mercado”, como não o é a formas de cooperativismo ou de mutualismo, precisamente porque quer a máxima liberdade social e, portanto, a liberdade de os cidadãos organizarem a vida económica. Com certeza que, por isso mesmo, não é adverso ao capitalismo; mas é certamente adverso à organização oligopolista ou monopolista do capitalismo, mormente quando este capitalismo vive (como no caso presente, a oriente como a ocidente) em simbiose com o Estado. O liberalismo quer simplesmente o Estado o mais independente possível da vida económica, e dedicado aos sectores básicos – justiça, segurança, defesa -, onde já não lhe falta muito que fazer e fazer bem. Podia ser que assim, livre das organizações que o infiltraram e gravitam à volta dele, o Estado estivesse em condições de poder defender os cidadãos contribuintes, e não explorá-los e oprimi-los, como acontece. Por outro lado, como o Miguel muito bem sabe, o capitalismo é historicamente muito anterior ao liberalismo, tem convivido e convive bem com regimes os mais anti-liberais.

Agradecia por isso que, tendo estes princípios e factos em consideração, não voltasse a misturar liberalismo com timocracia, e os genuínos liberais (entre os quais me prezo de incluir) com gente grunha e obcecada por dinheiro e vontade de mandar na vida dos outros.

A propósito da Antena 2, porque é quase a única rádio que oiço, apenas uma questão, aliás extensível à televisão (que não vejo e tenho de pagar): - Parece-lhe bem que as pessoas que não querem ouvir música erudita paguem por o que não querem ter ? (Mormente quando o Estado, péssimo gestor, está na bancarrota? ) Se o Miguel gosta tanto dessa música como eu, decerto que estamos dispostos a pagar por tê-la e temos muito gosto em divulgá-la, contribuindo para que outros venham a gostar; mas não podemos – não devemos – obrigar os que não gostam ou não lhes interessa a continuarem a pagar (mesmo que não fossem) empresas monstruosamente deficitárias. Tal é a simples e racional essência do liberalismo.

luís Vintém disse...

Seguindo esse principio, caro Duarte Meira, para que pagar para ter um sistema de saude se somos saudaveis? Cada um que pague o tratamento da sua asma ou da sua diabetes.
Ja' agora, para que colocar a linha divisoria das responsabilidades do Estado na segurança ou na justiça? Cada um que pague tambem a sua. Acontece nas Filipinas, no Brasil, e em tantos outros paises. Se ate' as guerras americanas sao feitas recorrendo cada vez mais aos Black Water contradados directamente pelas grandes corporaçoes.
A unica vitima desta forma de pensar e' aquele fantasma a que antigamente se chamava Bem Comum. Coisa pouca.

Justiniano disse...

Caro Duarte Meira, discordo profundamente deste seu último parágrafo, apesar de o secundar em boa parte do desabafo que aqui oferece ao caro Castelo Branco que habitualmente teima, mal, em ver o horizonte literário liberal como o vazio grotesco e abominável que apenas pode ser preenchido pela pecúnia e pela dor da alma de outros homens, mas isso seria outro assunto.
Acho-o, àquele tal parágrafo do seu texto, muitíssimo irreflectido e de onde nada se pode validamente retirar como princípio normativo!! Parece-me até em plena contradição com o esforço desmistificador do restante texto!! O tema, como a responsablidade por gerações, merece mais reflexão e esforço!!
Um bem haja para si,

Duarte Meira disse...

Caro Miguel Castelo Branco:

Permita-me uma palavra de resposta aos comentadores Luís Vintém e Justiniano.

A justiça, a segurança e a defesa são as funções básicas e originárias no estado político das sociedades humanas. Há aí já muito “Bem Comum” a assegurar.
Satisfaçamos ao menos o básico e essencial, que mesmo esse “mínimo” os mega-estados contemporâneos – começando pelo nosso português! - estão muito longe de satisfazer; e deixemos as pessoas tratarem das suas vidas (e da sua saúde) no resto, como e com quem quiserem.
De resto, função básica não quer dizer exclusiva. Os cidadãos podem bem participar na sua segurança: por exemplo, permitindo aos de idade maior o livre acesso a armas de defesa pessoal. A razão é simplicíssima: direito humano básico à vida e à segurança da sua pessoa e dos outros a seu cargo; impossibilidade de ter um polícia atrás de cada pessoa a qualquer momento; desnecessidade de ser perito noutras técnicas de defesa pessoal. Mas de aí à empresarialização da segurança vai um grande passo, e cheio das consequências inconvenientes que Robert Nozick já demonstrou no seu clássico de 74.

Mas o Luís Vintém não se preocupe: não se lobriga no horizonte histórico nenhuma reversão da lógica do centralismo estatista que temos vivido nas sociedades ocidentais desde o séc.XV, antes pelo contrário. Portanto, pode continuar a esperar pelas beneficentes intervenções do Estado, nacional, transnacional ou mundial. O que espanta é que, estando gritantemente à vista de todos, no caso português, aonde viemos ter com a toxicodependência estatista, ainda haja cidadãos à espera que apareçam uns sábios e imaculados que, na administração pública e política, trariam por meios administrativos o “bem comum” aos cidadãos, que são uns miúdos egoístas que só sabem tratar de si.

Quanto ao sr. Justiniano, lamento não poder responder senão com a perplexidade, porque não entendi a sua crítica. O meu ´”último parágrafo” pretendia apenas relembrar um princípio de elementar bom senso: não obrigar ao contribuinte a pagar (até na taxa do condomínio!) a rádio ou a televisão que ele não vê. O que é um princípio de urgência racional, quando tais empresas mediáticas são ainda por cima mal geridas e fontes de manipulação ideológica. É de lembrar, e aplaudir, a este último respeito, toda crítica e trabalho que, já na Tailândia, o nosso estimado Miguel Castelo Branco fez e continua a fazer para nos dar uma informação mais circunstanciada e ideologicamente menos enviesada e serviçal. Graças ao “Estado” ? Não, graças à liberdade que (ainda) temos aqui na blogosfera. Quero crer que, se o nosso bloguista entrasse de futuro na superintendência dalgum meio público de radiodifusão, não daria um passo para limitar esta liberdade.

José disse...

Concordo com tudo o que diz. Ressalvo apenas que as Honduras possuem duas orquestras filarmónicas apoiadas pelo Estado -http://www.filarmonicadehonduras.org/

Justiniano disse...

Caro Duare Meira, o principal "trabalho" da arte é o de inspirar os indivíduos a compreender e a saber sentir a tragédia, o amor, o ódio e o grande friso da vida, para quando aí nos encontrarmos sabermos estar à altura, não lhes passarmos ao lado!! Este é o papel de qualquer geração que abomina a decadencia!! Não podemos no puro mercantilismo ou no "bom senso" utilitário encontrar resposta ou solução, não há aí regra válida que, verdadeiramente, salvaguarde a geração!!
Foi isto que lhe disse!! (Note que não estou, sequer, a falar de "música clássica", mas tudo o que é essencial e instrumentalizável àquele plano - música, cinema, literatura, pintura...)
Quanto ao resto e às materias gestionárias, tudo pode ser utilitariamente discutido!!