26 agosto 2012

A propósito do plumitivo e de Rui Ramos


Mostrou-se o plumitivo indignado por Rui Ramos citar Henri Massis, homem da escola de Maurras a quem foi concedido asilo político em Portugal após a guerra e que por Lisboa ficou até que lhe fosse concedida amnistia, lá para meados da década de 1960. Houve em França, como é sabido, uma declarada simpatia por Salazar, sobretudo entre os jovens Camelots du Roi, mas também Maurras e León Daudet, fundadores da Action Française, que sempre se reclamaram como remotos inspiradores da "ditadura dos professores" instaurada em Portugal em 1933.
Henri Massis terá sido, talvez, o mais tardio entusiasta de Salazar, mas como todos os seus amigos da AF -que amiúde incensavam a ditadura sem sangue, o "regime do apagamento voluntário" (Bainville) e a "ditadura mais honesta, mais prudente e comedida da Europa" - encararam Salazar como um caso atípico num continente então dominado por partidos-milícia, acima do Estado, faustianas e belicistas. Salazar era, para Bainville, um adepto da "politique d'abord" e conseguira, nas palavras do historiador dessa belíssima Histoire de France - aquela que deve ser lida como a resposta a Michelet - distinguir a "demofilia da democracia" e subordinar "os interesses particulares aos interesses gerais da nação"(1). Bainville era monárquico tradicionalista e, como tal, exprimia de forma clara as suas dúvidas a respeito dos fascismos então triunfantes, considerando as ditaduras como regimes de excepção - isto é, transitórios, ditados pela necessidade - e como soluções extremas que tanto poderiam abrir porta a  a uma nova ordem, como ao caos. Neste particular, não se enganou a respeito de Hitler, considerado-o um "filósofo primário" e, fulminante, um "ninguém ainda disse que Hitler seja um homem inteligente, no sentido que nós tomamos ordinariamente esta palavra"(2).
Sobre Salazar escreveram Pio XII, Maeterlink, Eugénio d'Ors,Gergório Marañon, Daniel Halevy, Abel Bonard, Hilaire Belloc, Winston Churchill e Anthony Eden, Mircea Eliade, Gonzague de Reynold e muitos outros nos termos mais elogiosos, antes como depois da guerra (3). 
Ao longo da última década na governação - década que foi de relativo isolamento internacional - Salazar mereceu, contudo, um tratamento muito distinto daquele concedido a Franco. Até 1968, a França recusou-se sempre alinhar nas críticas a Portugal, mantendo tal posição após a independência da Argélia(4). Repetidas vezes de Gaulle fez elogios públicos a Salazar e em França, nos círculos do gaulismo, o regime que vigorava em Portugal era encarado como um arranjo à portuguesa, "de autoridade e semi-representativo". É curioso - e o plumitivo esquece-o- que a tese da "semi-ditadura" portuguesa vigora como perspectiva académica. No hoje já clássico de Woolf, O fascismo na Europa, a tese de Rui Ramos é validade: "a Constituição de 1933 (...) foi, de facto, um compromisso parcial com formas demoliberais" (p.439). Do mesmo Woolf, a ideia de Ramos, segundo o qual o regime não foi, como as outras ditaduras ocidentais, sanguinário.
Era o salazarismo um fascismo ? É evidente que não, se bem que o Estado Novo tenha passado, nos anos 30 e princípios de 40, por uma fase de "impregnação fascista" (a expressão é de Milza), exterior, mimética, não sentida. Salazar parecia acreditar na existência em Portugal de uma "democracia orgânica", um regime que se situaria algures - as palavras não são minhas, mas do insuspeito A.H. de Oliveira Marques - "entre as democracias liberais da Europa Ocidental e as democracias populares do Leste". Em Portugal não havia liberdade, mas havia liberdades, ao contrário das "democracias populares", regidas por modelos concentracionários tão do agrado do plumitivo. Quanto a mim, caindo voluntariamente em anacronismo, se me dessem a escolher viver na RDA, Roménia ou Bulgária dos anos 60 e viver em Portugal de Salazar, não pestanejaria. Em Portugal não havia hospitais psiquiátricos para opositores, como não havia passaportes internos, a subordinação do Estado a um partido político, a doutrinação obrigatória, o controlo permanente e interferência do governo na vida íntima das pessoas, no que à escolha de residência, emprego e constituição de família respeitava. 


(1) Jacques Bainville, Os ditadores, Porto, Liv. Civilização, 1937
(2) Idem
(3) Está por fazer o levantamento exaustivo da presença de Salazar, como estadista e como teórico, no ensaísmo europeu e sul-americano, assim como os centos de artigos elogiosos surgidos ao longo de décadas na imprensa internacional. Um breve tentame foi reunido por Ápio Garcia em Um homem chamado Salazar, Lisboa, António Francisco Barata, 1968.
(4) Para a história das excelentes relações diplomáticas entre Portugal e a França, entre 1958 e 1969, ver Daniel da Silva Costa Marques, Salazar e de Gaulle: a França e a questão colonial portuguesa (1958-1968), Lisboa, Instituto Diplomático, 2007

2 comentários:

Duarte Meira disse...

Caro Miguel Castelo Branco:

"Ditadura de professores", se lembro bem, foi uma expressão utilizada pelo próprio reitor Salazar, num dos seus discursos. De resto, as considerações que faz são, como é seu costume, genericamente correctas,historicamentente bem informadas e justificadas, com ressalva de alguns aspectos no que sugere quanto à (não) "interferência do governo na vida íntima das pessoas". Tal interferência, sobretudo até à década de 60, existiu e fazia-se sentir, em aspectos que hoje nos poderiam parecer caricatos, e não só ligados ao que se designava por "bons costumes".

Mas o que mais me interessa era saber da sua opinião quanto a duas questões:

1ª A relação entre o tipo de regime ou "situação" salzarista (como quer que seja classificado tal regime) e a grande catástrofe que nos sobreveio em Abril de 74.

2ª A relação entre esse regime e a Monarquia, os monáquicos e a eventual Resturação.

Se já aqui teve ocasião de se pronunciar sobre isso, agradecia que me indicasse as datas.

José disse...

Miguel Castelo Branco. Aproveito a mensagem do Duarte Meira para evocar esta recente edição. Deixo-vos aqui a ligação para a versão original, em Português, e em francês para quem querer. Talvez contribuira para uma análise pessoal da questão nº1 do Sr. Meira, embora permaneça inteira.

http://www.esferadoslivros.pt/livros.php?id_li=277
http://lnk.nu/laprocure.com/24yu.html

Atenciosamente.