22 agosto 2012

A propósito da polémica de Rui Ramos com um plumitivo


O João Gonçalves já apresentou o caso com meridiana clareza, pelo que qualquer esforço adicional para situar o nível da diatribe que um ignaro plumitivo dirigiu a Rui Ramos surgiria como redundante e gratuita. Limito-me, por ora, fazer dois comentários exteriores à matéria em questão, mas que estimo relevantes para que se compreenda aquilo que está verdadeiramente em questão.

À cabeça, naturalmente, o efeito a que os psicólogos chamam de superjustificação. Em tudo o que fazemos ou dizemos há, sempre, uma motivação. Ora, o plumitivo não existe, ninguém o lê, ninguém o conhece, sente-se diminuído na sua quase invisibilidade. Nas garatujas com que maculou as páginas do Público, pressente-se ódio quimicamente puro e despeito profissional por um colega de ofício, pelo que, como todas as expressões de ódio e inveja, a vítima acaba por ser o arremessor. O corta-cola, a notória incapacidade em interpretar e situar as acusações que faz a Rui Ramos, vão caindo uma a uma, numa quase dolorosa exibição pública de mentecaptismo.Como lembrou Ferro, independentemente da sua vocação científica, a História exerce outras funções que não são de natureza científica, nomeadamente terapêutica e militante, abeirando-se do senso comum, produzindo imagens poderosas, servindo causas, justificando, anacronizando. A criatura, tão obcecada que vive no acerto da sua infantil visão ideológica, não se deu conta que Rui Ramos situa os problemas sobre os quais se debruça num patamar bem mais interessante. Rui Ramos interpreta e sugere leituras distintas daquelas impostas como verdades inquestionáveis. Não concordando com algumas conclusões de RR - que são mais que opiniões, mas conhecimento - não posso deixar de reconhecer a dimensão da sua obra. Ramos tem partido muito traste velho que se instalara na cristaleira da historiografia portuguesa, tem varrido muito lixo que se acumulara sob as passadeiras vermelhas da História-ao-serviço-da-politicazinha, pelo que concitou inimizades, às quais se somou a sempiterna invejazinha lusitana. Que culpa tem Rui Ramos de viver entre académicos que nunca produziram uma partícula de conhecimento, que nunca acrescentaram um grama, que escreveram aquilo que lhes garantia a ficção de uma carreirinha sem horizonte?

Outro aspecto do problema é o do lugar e do papel do historiador na sociedade. Rui Ramos sabe que o seu trabalho académico tem implicações que extravasam largamente a vidinha tola e as vaidades microscópicas em que vive imersa a universidade portuguesa. Para ser franco, com excepção de duas ou três figuras, a História que produz a nossa academia é má, é insignificante, é pouco mais que nada. As pessoas não investigam, não possuem travejamento de leitura e referências; ainda mais grave, não sabem pensar. Se os profissionais encartados fazem o que fazem, o problema assume proporções terrificantes com o assédio que à História fazem os amadores. Em Portugal, qualquer criatura com a 4.ª classe atreve-se "fazer História", havendo médicos "a fazer História", músicos a "fazer História", diplomatas "a fazer História". Daí resulta que os investigadores sérios - aqueles que queimam as pestanas - são obrigados a conviver com oportunistas de toda a sorte.

Rui Ramos que vá em frente, que continue a partir a loiça saloia e até os falsos Ming que por aí se vendem como pão quente. Rui Ramos tem passado, tem presente e tem futuro. Os outros, nada têm, nada são, pelo que lhes sobra a inveja.


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