16 julho 2012

Só para ser visto por gente intelectualmente honesta


Há tempos, em amigável conversa com duas figuras de relevo da vida académica portuguesa, conhecidos intelectuais situados naquela esquerda que não se deixou obnubilar, nem pelo estreito ideologismo, nem pela ganância que leva à imoralidade e à rendição ao dinheiro, dei-me conta da total desinformação por ambos manifestada em relação à situação na Síria. Repetiam as banais e desavergonhadas mentiras colhidas na CNN e quejandas máquinas de intoxicação, até que ousei dizer-lhes que na Síria há 10% de cristãos, todos apoiantes de Assad, 12% de xiítas e alauítas, apoiantes do governo, que há partidos políticos representados na nova assembleia nacional eleita em Maio através de eleições em que participou 55% do universo eleitoral, que o Ba'ath perdeu a hegemonia na vida política síria, que a Síria é o mais consistente dos Estados do mundo árabe, que a simples visita aos jornais em linha publicados no país em língua inglesa permite aquilatar da sofisticação, educação e excelente gabarito da elite do país. Continuaria por horas, mas aconselhou-me a boa educação não transformar o jantar numa discussão política.
É evidente que, para quem já se libertou de esquematismos e, sobretudo, da enorme vulgaridade inerente à visão americana das relações internacionais - tendo presentes os bombardeamentos de Belgrado, Bagdad e Trípoli - a situação na Síria é um déja vu e que ali se está a praticar, de forma tão clara como indecorosa, o cumprimento de acordo entre os pequenos aventureiros que tomaram rédeas em Washington e as forças mais destrutivas do Islão. Sim, o caos interessa a muitos - que não menciono, não me vão chamar nomes -mas parece constituir o grande objectivo dos EUA na região, após os absolutos fiascos no Afeganistão e no Iraque. A palavra de ordem - instituído em dogma nunca pronunciado - é o de espalhar caos e neutralizar politicamente a região.
Ouvindo o Presidente Assad nesta entrevista, poderão os leitores comparar a caricatura do genocida, veiculada pela imprensa da plutocracia, com a postura cordata, séria e transparente nos propósitos aqui revelada. Muito gostaria que os nossos diplomatas - se é que ainda os temos - suspendessem os seus repentes e tentassem por momentos afivelar o distanciamento, o julgamento sereno e imparcial que conduzem à análise.

1 comentário:

João Pedro disse...

Caro Miguel, sem pôr de parte certos jogos orquestrados, parece-me que está a desculpabilizar um regime ao qual não faltam sinistros esqueletos no seu armário. Mesmo que possa considerar que este Assad é de alguma forma controlado pela cúpula bahatista, é bom não esquecer que o modus operandi do pai dele (que até tinha ar de gentleman inglês, lembrava David Niven)era já o de bombardear sem dó nem piedade quem lhe fizesse frente. Entretanto menciona Belgrado, Tripoli e Bagdad. É claro que a estratégia americana falhou e primou pela ilegitimidade, em nome de um duvidoso conceito de "liberdade",dando origem ou a grotescas anarquias ou a invenções como o Kosovo, mas isso não pode fazer esquecer que os ditadores dessas capitais não hesitaram em brutalizar e massacrar o próprio povo ou facções étnicas que estavam sob sua jurisdição.