24 julho 2012

Sim, "que se lixem as eleições": Passos Coelho voltou a ser menino


Passos Coelho produziu hoje o dito mais desassombrado produzido ao longo das últimas décadas em Portugal. Aos deputados do seu partido, o Primeiro-Ministro (é a primeira vez que o escrevo com letras maiúsculas) afirmou que há coisas mais importantes que o número de deputados. Para os cultores da demagogia e da jogatana partidocrática, estas palavras soam a heresia. Passos Coelho hierarquiza valores e coloca, no topo, o interesse da Nação, a segurança do Estado e o futuro de todos nós. Habituámo-nos às falácias e à lógica de um regime absolutamente contraditório, que se afirma democrático mas mente consecutivamente, que afirma a soberania popular mas refastela-se na manipulação e só premeia quem mais prometer, quem mais mentir, quem mais ludibriar. Este tem sido, ao longo dos últimos 40 anos, o curso das vitórias e das maiorias. Que eu saiba, só Adriano Moreira quis alertar os portugueses do curso fatídico que iria levar Portugal ao abismo. Foi em 1987, e o eleitorado, que gosta de mentiras, reduziu o CDS a 4% e ao tal grupo parlamentar que cabia num táxi. 
Passos Coelho sobe dez furos na minha consideração. Finalmente, alguém declara guerra à desonestidade dos fulanos e fulanas que vivem da política e da expectativa de ocupar lugares. Nem todos os regressos são retrocessos. Passos Coelho voltou a ser criança e disse a verdade que mais ofende; aquela que vai directa ao bolso e conveniências dessa gente que nada faz, nunca fez e vive, apenas, das sinecuras proporcionadas pela industrialização da mentira, ou seja, as eleições.
Perguntei há dias ao Nuno Miguel, que tem 11 anos, o que faria se fosse primeiro-ministro. Respondeu-me sem pestanejar: "metia-os a todos na cadeia". Quem ? "Todos". Passos Coelho disse-o hoje, mas de forma mais adulta. As crianças são seres maravilhosos !

14 comentários:

José disse...

Finalmente, alguém declara guerra à desonestidade dos fulanos e fulanas que vivem da política e da expectativa de ocupar lugares. Nem todos os regressos são retrocessos. Passos Coelho voltou a ser criança e disse a verdade que mais ofende; aquela que vai directa ao bolso e conveniências dessa gente que nada faz, nunca fez e vive, apenas, das sinecuras proporcionadas pela industrialização da mentira, ou seja, as eleições.

Esperemos que sim, mas pessoalmente fiquei com sensação diversa: Passos Coelho prepara-se uma vez mais para ir ao bolso dos do costume...

Combustões disse...

José:
Até 2011 íamos aos bolsos das Donas Brancas globais e ninguém parecia incomodado com isso. Hoje, acabou-se o crédito. O Passos Coelho não é culpado. Culpem 38 anos de demagogia.

Pedro Botelho disse...

Duas perguntitas:

1) Metia-os todos na cadeia antes ou depois de eleito?

2) E «todos», quem? A oposição? A classe política, à excepção dos «nossos» políticos? Toda a classe política e viva a mono-anarquia d'El-Rey desnudo? A população em geral, segundo critérios genéricos mensuráveis, como sejam narizes, QIs e por aí fora?

Ou são apenas ignições indignadas que não devem ser levadas a sério, por nós, o povo atento, venerador e obrigado?

Só para perceber melhor os aspectos ideo-ilógicos...

Combustões disse...

O Botelho parece que quer brincar com as palavras. Sim, não devemos levar a sério muito do que se diz, mas neste caso tem um rosto e um nome e é, apenas, o Primeiro-Ministro.

Pedro Botelho disse...

Entendido Bem me parecia que muito do que se lê por aí não devia ser lido à letra. E até concordo que a idade mental do (apenas?) primeiro-ministro parece frequentemente comparável à do autor do pronunciamento...

Combustões disse...

Há quem tenha idade menor do que a aparenta, como há quem a tenha superior àquela que tem, sobretudo algumas pessoas que julgam viver no século XVIII. No primeiro caso, temos jovens de espírito; no segundo, casos patológicos.

jorge.oraetlabora disse...

Tenho Passos Coelho por pessoa séria. E com objectivos patrióticos para Portugal. O que me parece é que a situação real do País baralhou-lhe todas as boas intenções.
Também não sei se os seus conselheiros serão as pessoas mais qualificadas.
Por outro lado, será tarefa ciclópica remover todos os parasitas que se enquistaram nos centros privilegiados do Estado, e que apenas sugam e sugam… - e nada dão ao País...
Depois, é evidente que muita gente que decide não o faz da forma mais correcta, pois o grande "handicap" dos políticos é o seu completo desfasamento das realidades sociais e desconhecimento quase absoluto do que seja viver com salários módicos de 500/600 euros...
Habituados a facilidades e mordomias - que exaurem as finanças do País - não imaginam o esforço que um cidadão médio tem de fazer para sobreviver...
Esta ignorância - para não falar na ganância e corrupção desenfreada… - é o "calcanhar de Aquiles" da maioria dos políticos. Enquanto os que nos governam (e têm governado) não souberem o que custa a vida, não podemos esperar mudanças para melhor na sociedade portuguesa.
E enquanto não tivermos gente impoluta, honesta, competente e patriota à frente dos destinos do País, nada de bom poderemos esperar...

Bmonteiro disse...

«há coisas mais importantes que o número de deputados»
Pode ser, depende.
Do Orçamentos disponiveis para lhes pagar, por ex.
Digo, discurso para dentro do partido, a aplicar a todos.
Porque é que o deputado 'mãos leves' (o dos gravadores), não fou ainda expulso?
Bm

Isabel Metello disse...

Miguel, concordo totalmente- aliás, porque estamos todos fartos de sofistas ornanigrâmicos! Quando ouvi a primeira vez expressão de PPC, disse à minha Mãe:) "Ai, Meu Deus, que já deu carniça aos abutres para a esmiuçarem até aos ossos, durante semanas, mas depois, pensei melhor e creio que foi a melhor resposta, pois respeitou o registo compreensível à maior do povo, ao mesmo tempo que se afirmou como uma sátira bem divertida e muito propositada ao discurso sofista dominante do regime parasita que deu cabo deste país, pleno de salamaleques (voc. que provém da saudação árabe salam alecom à qual se responde alecom salam :) vácuos, de genuflexórios vis e infames em prol de interesses menores, porque particulares de grupos e indivíduos e não em prol do bem-estar colectivo. Aliás, esta forma de estar burocrática, que obstaculiza o real desenvolvimento dio país, só enchendo os bolsos de personae detentoras de um egoísmo social atroz, é muito própria dos formalismos quase anedóticos das formas de tratamento da Língua Portuguesa estudadas pelo Professor Lindley Cintra (fiz um trabalho sobre tal e, como Africana de naturalidade, acho um piadão à distnção entre a D. Maria (a porteira) e a Sra.D. Maria (a Senhora mais chic do prédio (há casos que se justifica! :) e mais acho piada ao: "Pode-me passar ao Sr. Engenheiro?"; "Ai, o Sr. Dr, hoje, está muito bem disposto!" ou "o Senhor Professor Doutor desce, agora, as escadas, qual Rei D. Luís XIV, para ir comer uma sandes à cantina! Como é louvável que se misture com a plebeia turba académica" :) Mas o mais engraçado é que, depois do 25 de Abril, com a artificial mudança de mentalidades na então Metrópole (que não mudam de um dia para o outro :), os grandes falsos camaradas do tu cá tu lá, pseudo-hippies (hippie que é hippie é-o toda a vida! :) e revolucionários se terem sistematizado e cristalizado (então, aqueles das passagens de ano administrativas, hoje, com cargos importantíssimos, que são os 1ºs a apontar o dedo a Miguel Relvas :) são os que, tendencialmente, não dispensam vénias histriónicas :))) Os Espanhóis fartam-se de rir quando telefonam para cá! Imagine o que este sistema de burocratização mental faz à economia do país, quando milhares de horas por ano são disperdiçadas nas formas de tratamento formal! I.e., nem a Língua Patria tem economia discursiva e muito menos revela inteligência pragmática, focada na solução para problemas e não na discussão sobre as hipóteses das hipóteses hipotéticas de hipóteses!
Comparado com a real má educação do governo de Sócrates (mãos na anca; timbre efeminado; corninhos de Pinho; et caetera...:) Passos Coelho passou bem a mensagem- o que interessa é trabalhar para recuperar o país e parar-se com a reunite aguda das comissões de inquérito para casos de caracacá, quando outros bem graves passam por debaixo da mesa! Por falar nisso, Inês de Medeiros tem astigmatismo? Sei lá, é só para saber...

José disse...

Caro Miguel, Passos Coelho tem uma culpa e muito grande: a de ter faltado à palavra dada ao seu eleitorado. Quando referi o bolso do costume, esse é o bolso dos que mais têm sido sacrificados com a selvática austeridade passista: a classe média cada vez mais proletarizada, já para não falar nas faixas sociais mais depauperadas da nossa população, num mundo do trabalho hoje em luta literal pela sobrevivência. Porém, quanto à despesa, às gorduras que Passos se havia comprometido a eliminar, nada se vê feito! Nada nas PPEs! Nada nas empresas públicas estatais e municipais! Nada nos institutos e nas fundações públicas! Nada nos interesses rentistas! Nada no saque que as clientelas político-partidárias e os homens de mão do lóbi bancário-cimenteiro nos aparelhos partidários fazem da coisa pública em proveito próprio, pessoal e privado. Nada nas “jobs for the boys” das “jotas”! Nada de nada! Portanto Passos é culpado e é mentiroso! Muito mesmo! E isto nada tem de infantil ou maravilhoso, nem merece qualquer embevecimento serôdio…

Pedro Marcos disse...

"Bem intencionado"...

Se é com esse tipo de raciocícios não se chega ao poder.
Mas anda tudo a dormir?

Quem ainda se acredita em "boas intenções" vindas de partidos?

É graças a estas ingenuidades que estamos com estamos, reduzidos a vil colónia, a reviver um novo período Filipino.

Não há mais lugar a ingenuidades. Nunca houve, aliás. Chega!

António Bettencourt disse...

Uma atitude muito digna do nosso primeiro-ministro (com minúscula como a personagem exige).

http://crimedigoeu.wordpress.com/2012/07/24/antigos-combatentes-contra-passos-coelho-chefe-do-governo-homenageou-os-mortos-da-frelimo-e-esqueceu-os-militares-portugueses-que-repousam-num-cemiterio-em-maputo/

Enfim...

Combustões disse...

António Bettencourt
Sabe tão bem como eu que as visitas oficiais são integralmente desenhadas pelos ministérios dos negócios estrangeiros (do país visitado e do visitante), pelo que a falta poderá ter a ver com a embaixada de Portugal em Moçambique ou, talvez, com os serviços do MNE em Lisboa, que não propuseram ao governo moçambicano a visita a um dos muitos cemitérios onde repousam soldados portugueses. Lembro que durante a guerra, só era prática enterrar nos teatros de operações militares naturais das províncias ultramarinas, brancos como negros.

Daniel Gonçalves disse...

Na minha opinião é uma interpretação errada das palavras de Pedro Passos Coelho, ao afirmar "Estou-me a lixar para as eleições" não estava a dirigir-se aos caciques do PSD, nem a frase era um aviso implícito aos sectores internos do Partido, a intenção do Primeiro-Ministro era expressar a ideia de que não se preocupa com o que pensam os eleitores e os portugueses em geral sobre a política seguido pelo actual Governo. Reflexo de que Passos Coelho julga ser dono da razão, portador da "verdade" e de que o Governo, e só ele, está do "lado certo" da História.
Que a Passos Coelho não interesse saber o que os outros pensam da política do Governo por ele liderado é sinal de um "egocentrismo" intelectual, de um fanatismo sectário dos que se julgam possuidores da "verdade" e do rumo certo, levando a uma prepotência típica do vanguardismo leninista mas que não está nas raízes ideológicas do PSD. Mais facilmente esta frase seria dita por um ditador, leninista ou facista, do que por um democrata. Se a intenção do Primeiro-Ministro era afirmar que não está preocupado em perder as próximas eleições legislativas, tinha de escolher outra frase, mas penso que o mesmo possui sérias dificuldades de expressão e análise.

"dessa gente que nada faz, nunca fez e vive, apenas, das sinecuras proporcionadas pela industrialização da mentira, ou seja, as eleições." Na minha humilde opinião, Pedro Passos Coelho é um "produto" típico do que se quer caracterizar nesta afirmação.