21 julho 2012

Renascer sucessivamente

José Hermano Saraiva estava predestinado, com o pai e o irmão que tinha, a ser alguém, e a florescer intelectualmente num país bisonho, misoneísta e silenciador. Cumpriu a promessa, elevou-se acima da multidão e traçou a sua rota entre ventos e marés, renascendo incessantemente, imparavelmente, por entre o alarido dos que não tinham força para o deter nem fôlego para o acompanhar. Podia ter sido o melhor Professor de Direito da sua geração; foi-lhe negado por razões políticas – mas nem essas lhe tolheram a possibilidade de regressar, por cima, à ágora de que tinham procurado proscrevê-lo, e depois metamorfosear-se em direcção à única consagração que conta, a da apreciação daqueles que sabem estimar.
Nunca esqueço que um dia um bando de carrancas engalanadas quis persegui-lo – mas teve a infelicidade de lhe conceder o direito de defesa. Ele, que vendia sozinho mais livros do que todos os perseguidores juntos, olhou para o conclave e rematou: "vejo que nesta caserna se marca falta a quem anda na guerra!".

Claro, no Ericeira Norte