16 julho 2012

1812-2012: para encher a alma em tempo de trevas



O Miguel, da Azambuja, antigo sargento da Legião, visita mestre Brás, pai do jovem tambor caído em Wagram:  “Vocemecê sabe lá, desde a Espanha até a esse fim do mundo da Rússia, como a gente se cobriu de glória! Quando era preciso marchar e morrer, - lá iam, à frente, os portugueses! Negros, alegres, ardidos do sol, com as barretinas de peles chapeadas de cobre, as baionetas adiante dos olhos, fuzilando nas cargas, - quantas vezes nós nos atirámos para a morte a cantar as cantigas da nossa terra! E o Imperador – juro-lhe, mestre Brás, por estas três divisas! – já não via outra coisa senão os portugueses! “Quem são aqueles carvoeiros que se batem como leões?” – perguntou ele em Wagram. E quando lhe disseram que era a legião, que eramos nós, o Imperador empinou-se nos estribos e gritou aos marechais: - “Qu’on me ménage les portugais!” Poupem-me os portugueses, que são os melhores soldados do mundo!”
“Dali a pouco, no campo, perante o cadáver do pequeno tambor caído de bruços e crivado de metralha, o coronel Pêgo, com as lágrimas nos olhos, contava a Napoleão e aos marechais como aquele pequeno de catorze anos conduzira à vitória os batalhões portugueses. (…) Enquanto Oudinot, comovido, cobria com a sua capa cinzenta de marechal o corpo mutilado, Napoleão, tirando do peito a sua própria cruz da Legião de Honra, deixou-a cair sobre o cadáver do pequeno tambor”.

Júlio Dantas, O Tambor, In: Pátria portuguesa, Lisboa, Parceria António Maria Pereira, 1914, p. 111-126

1 comentário:

Duarte Meira disse...

"Poupem-me" não me parece a melhor tradução para "qu'on me ménage". Aliás nem se pouparam nem foram poupados. -

Arranjem-me portugueses! Como quem diz:Tragam-me os portugueses.

Vá esta nótula (do lado da Excelente Senhora D. Leonor,virtuosa e constante anti-bonapartista) em memória seu irmão querido, D. Pedro de Almeida Portugal, comandante da Legião,falecido na retirada da Rússia.