26 julho 2012

Os barões dos Alcatruzes deste regime e seus lacaios intelectuais


Quem não conhece Camilo não sabe português. Ontem, recebendo para jantar um velho e sempre leal amigo dos tempos da adolescência, rimo-nos até às lágrimas com Um Jantar de Barões, talvez a maior prova da desconhecida genialidade de Camilo como poeta de pilhéria; mais, Camilo mantém perfeita actualidade.
Vamos à história. O poeta fora convidado para o simpósio do barão dos Alcatruzes no seu palácio auriflamante. A fome apertava, as terrinas ferviam, o odor a toucinho pedia inspiração à musa da sopa e do cozido, mais o rodovalho que o senhor barão prodigalizara. Quem era, pois, o generoso anfitrião?

"D’Alcatruzes é chamado, 
Porque, sendo ainda moço,
Muitos baldes d’água fresca
Dizem que tirou dum poço.
Nenhum outro mais destreza
Revelou na árdua empresa
De puxar acima um balde.
Um que seja tão robusto
Há-de vir mui tarde e a custo
Do concelho de Ramalde. 


É barão; não vale a pena 
Discutir-lhe os nobres feitos;
É barão dos Alcatruzes,
Já tem pagos os direitos.
Inda é mais; pois, além disto,
É comendador de Cristo
Com bastante indiscrição.
Mal diria Cristo, outrora,
Que seria posto agora
No peito dum vendilhão!

Ou seja, o barão viera de nenhures, fora aguadeiro e fizera-se gente comprando um título de barão; mais, havia conseguido a Ordem de Cristo.
A vara de comensais ansiava pela abundante ração ali exposta à gula insatisfeita, até que, dado o sinal, se atiraram ao festim

Da terrina a caudal sopa
Em silêncio é devorada.
Só então fingiram d’homens,
Porque não disseram nada.
Mas venceu a natureza!
Um barão por sobre a mesa
Estendendo o prato diz:
“Ó compadre!isto é qu’ébô!
Venha sopa, e acabô!
Cá de mim torno à matriz!”

O barão de Cogumelos,
Junto estando à baronesa
Que se diz dos Sacatrapos,
Quis fazer-lhe uma fineza.
Arrastou pra junto dela
Um peru, e a cabidela
No prato lhe despejou.
E lhe diz: “Cá isto é nosso;
Coisa que não tenha osso
É pró estâmago, e arrimou!”

Outro diz à gorda esposa
Que bem perto de si tem:
“Bai-le bobendo po’riba,
Ó mulher, come-le bem!”
Este pede ao seu vizinho
“Que lh’atice bem no binho
Qu’é da bela Companhia.”
Diz aquele ao seu fronteiro
“Que lhe chegue um frango inteiro,
E biba a santa alegria!”

E como para tão selecta sociedade importava ter a seu pé um "intelectual" - os intelectuais são hoje o que os bobos e goliardos foram na Idade Média - pediram que "um literato em seu conceito"

A palavra pede, e reina 
Um silêncio de respeito.
Ele diz: “Risonhas galas
Que refrangem nestas salas
Repercutem, simbolizam
Acrimónias insolúveis,
Nos acrósticos volúveis
D’epopeias que eternizam.

Pandemónios exauríveis
De indeléveis congruências,
Requintados se escurecem
Nos empórios das ciências
E libérrimos se escudam
Nas façanhas que transsudam
Em fantasiosas luzes.
E, portanto, a mais aludo,
Quando, férvido, saúdo
O barão dos Alcatruzes!”


Camilo ridicularizava os poetastros da moda de então - os simbolistas - esmerados compositores de musicalidades ocas, destoando tal poeira dourada dos pedaços de humanidade que à volta de uma mesa batalhavam de faca e garfo para satisfazer o estômago. Sem nada terem compreendido, mas inebriados por tanta cultura - que eles, sim, eram uns senhores - deram largas à exaltação de tão sublime momento "cultural":

Sucedeu o grito ao pasmo!
Nunca se viu coisa assim!
O orador foi abraçado
Com furor, com frenesim!
“Isto é qu’é!” dizia um,
Convertido em rubro atum,
Beterraba até não mais.
“Viva Cic’ro!” outro dizia,
Despejando a malvazia
Com grasnidos infernais.

Os barões estão vivíssimos. Entram-nos casa adentro todos os dias - os banqueiros roncantes, os super-merceeiros das "grandes superfícies comerciais", os bezugos autarcas, os senhores deputados mão-de-porco e pé-de-vitela, os ministros e os bispos saídos da enxada, os presidentes e as presidentas arrancados de retrosarias. Portugal pouco mudou. as elites são hoje o que eram no liberalismo dos Alcatruzes, com a agravante de serem piores, bem piores. Quanto aos intelectuais, já não sabem a métrica de Eugénio de Castro, exibem títulos da lusófona e infernizam-nos os serões à televisão com análises, citações e flatus vocis.

2 comentários:

João Távora disse...

Brilhante. Não conhecia.

Bic Laranja disse...

Estupendo! Bravo!