04 julho 2012

Não me falem de diplomas, mostrem-me uma redacçãozinha


Ano-sim, ano-sim, uma polemicazinha em torno de uma suposta licenciatura fraudulenta. O doutorismo/engenheirismo/arquitectorismo português, sem dúvida uma das muitas bolsas de subdesenvolvimento existentes numa sociedade que requer títulos para cobrir a nudez dos Silvas, dos Pereiras e dos Lopes, requer algumas considerações. Já aqui contei o episódio de uma delegação japonesa que um dia me expressou deferente espanto pelo facto de, durante a visita a Portugal, ter sido confrontada com tantos doutores e doutoras. Até as secretárias eram doutoras, mais a senhora das relações públicas, o homem do economato, o montador de exposições, o revisor de textos, a fulana da livraria. Um mar de scholars a somar aos mestres, aos pós-graduados, aos "especialistas" e aos verdadeiros "doutores", que já são tantos que até foi necessário inventar os pós-docs. Quando lhes disse que "doutor" é um arranjo semântico correspondente a uns três reles anos na universidade, riram-se e perderam a gravitas nipónica. "Então, no Japão temos 75% de doutores", comentou um dos japões (Luís Fróis dixit).
O pior é quando as pessoas, ofendidas e envergonhadas por não serem doutores, nos dizem: "não sou doutor". É como se dissessem "não existo".
Sinceramente, já não dou uma caracoleta por um título académico. Para saber quem é quem, não dispenso ler um texto - até pode ser a receita para um pudim; a Maria de Lourdes Modesto é uma grande escritora - e ouvir o curriculado a falar em público sem a maldita muleta do discurso escrito que é, para além de acto de má educação para quem ouve, uma tremenda e insofismável prova de incapacidade de comunicação.
Se Miguel Relvas precisa do doutor para sobreviver, se foi tentado a ser doutor para garantir reconhecimento público, o problema é dele, mas é, sobretudo, um problema português que importa corrigir quanto antes. Em Espanha, o problema foi corrigido num só dia, em simultâneo no campo nacionalista e no campo republicano. Em 1938, Burgos, num assomo falangista, e Madrid, em arrancada igualitária, legislaram e proclamaram o fim dos doutores. Doutores e doutorecas há muitos. Presumo, até, que há mais analfabetos entre os doutores que entre os analfabetos rudimentares. Os mais perigosos são, certamente, os doutorinhos e doutorinhas alvares.
Ora, meus amigos, Camilo, Herculano e Pessoa, nem António Ferro (talvez o mais talentoso dos nossos responsáveis governamentais do século XX) foram doutores. Não sejamos ridículos. Inventando um neologismo, desridicularizemo-nos..

3 comentários:

kabuenhapodre disse...

Respeitosas saudações;
Escreve no seu texto, brilhante como os demais: "os doutorinhos e doutorinhas alvares". Pergunto sem ponta de ironia: quis escrevr "alvares" ou porventura, alarves?
AAO

scheeko™ disse...

Um dos problemas, estou convencido, é de que se trata duma muleta de discurso.

"Senhor Silva" cai mal. Remete para o talhante, o mecânico, ou o merceeiro. Por ventura tratar-se-á dum sinal de provincianismo e pequenez, mas, talvez como o "você", tenha vindo ocupar um espaço desocupado do discurso falado.

O "senhor" acaba por não conseguir o mesmo efeito que um "herr", "monsieur", "mister", ou mesmo "don". Talvez seja apenas falta de hábito e tento combatê-lo, porque já há tanto que é artificialmente inflaccionado na nossa sociedade que temos de começar por algum lado. E por isso deixo uma pequena rotina que um conhecido habitualmente usa, sobretudo quando vai a bancos:

- Minha senhora, queira fazer o favor de me...
- Senhora não! Doutora, se faz favor.
- Olhe que é pena. Doutoras, hoje em dia, há muitas! Senhoras é que já há poucas.

André Miguel disse...

Muito bom!
Trabalhei 5 anos em Espanha, não imagina a irritação do administrador sempre que tinha reuniões em Portugal, só porque toda a gente tinha que ser tratada por doutor, claro que o homem se negava a isso e volta e meia era corrigido, até que um dia saiu-se com uma brilhante tirada: "escuche mi amigo, en España doctor es un titulo académico, utilizado entre los muros de una universidad por quién lo detiene, como estamos hablando de negócios limitemos-nos a lo que estamos tratando aqui..."