22 julho 2012

José Hermano Saraiva e o Oriente


Em 2004, no quadro das celebrações do 150º aniversário de Venceslau de Morais, comissariei na Biblioteca Nacional de Portugal uma exposição denominada "Os Portugueses e o Oriente:1840-1940". Com o talento do José Maria Saldanha da Gama - talvez o mais dotado metteur en scène de exposições, pois que numa exposição há qualquer coisa de teatral - com um texto meu, outro do Professor António Vasconcelos de Saldanha (então Presidente do IPOR) e palavras introdutórias de João de Lima Pimentel (então embaixador de Portugal na Tailândia), produziu-se para o efeito um catálogo. A exposição foi visitada por largos centos de interessados e o catálogo vendeu-se tão bem que hoje é uma raridade bibliográfica.
Contudo, por mais que procurasse o apoio da imprensa, o evento foi quase ignorado pelos senhores jornalistas, que nada sabendo do Oriente, raramente acorrem a estas raras iniciativas que visam rememorar o impacto da presença portuguesa na Ásia.


Não me dei por vencido e liguei directamente ao Professor José Hermano Saraiva, com quem estive quase uma hora ao telefone. Mostrou-se vivamente interessado, pediu-me que ligasse ao seu produtor e, no dia aprazado, lá estava à minha espera no hall da BN. Falava com todos, do porteiro ao Director-Geral, com o mesmo entusiasmo, contando histórias e respeitando os seus interlocutores com a sinceridade e afabilidade que marcam os homens que gostam verdadeiramente das pessoas. O Professor Saraiva era assim. Sem peneiras, sem arrogâncias e distâncias, era petulante, petulante mas generoso, ouvindo todos, falando com todos, sem corrigir, sem esmagar o próximo. Levamo-lo para um gabinete e as minhas amigas e colegas Ana Cristina Santana Ferreira e Margarida Silva Pinto até deram uma ajuda a compor-lhe o fato. Falou-se um pouco de tudo e o Professor Saraiva gracejou com a política e os políticos, rematando com algumas sentenças sobre a crassa ignorância atrevida da nossa "classe política sem classe alguma".


Mostrei-lhe o catálogo e ali esteve meia hora a ler, sublinhando passagens que lhe sugeriam boas sínteses. Depois, olhou-me, pôs-se de pé e disse: "caro amigo, vamos à luta". Assisti à gravação do programa e espantei-me com o desembaraço daquele ancião de 85 anos. Falou durante quarenta e cinco minutos sem qualquer ponto, parecendo estar a ler o catálogo que meia hora antes folheara pela primeira vez. Um prodígio de memória e um verdadeiro actor em palco. Apenas me pediu que escrevesse, sobre uma grande cartolina branca, alguns nomes de difícil pronunciação, para que tudo saísse correcto. Terminada a filmagem, falámos uns dez minutos mais e foi-se. Ao despedir-me, agradeci-lhe, ao que o Professor atalhou e disse: "não vim cá fazer favor algum. Vim aqui para servir o país e lembrar aos Portugueses o sulco que deixámos na Ásia". Não o voltei a ver. Hoje, ao cair da noite, voltei a ver o episódio da Alma da Gente e fiquei emocionado. Obrigado, Professor.

3 comentários:

Bic Laranja disse...

Às vezes vejo os seus programas, uma, duas, tres vezes no mesmo dia. Embalam a gente.
Fica-se emocionado, sim.

BOS disse...

Este texto é provavelmente a mais bela homenagem ao mestre desaparecido.

BOS disse...

Este texto é provavelmente a mais bela homenagem ao mestre desaparecido.