20 julho 2012

A super-democracia antiga: mentiras & representação


Há quem diga, impelido pela ilusão e pela ignorância - as pessoas não lêem - que nunca como hoje tantos tomam parte na governação da República. Conceptualmente, é uma entorse, estatisticamente é uma mentira. No Ancient Régime português, 10% da população pertencia à nobreza provincial ou à aristocracia (duas realidades sociais distintas, amiúde confundidas), 10% da população (masculina como feminina) pertencia ao clero regular, secular ou tomara votos, e 15% a 20% do total da população pertencia à antiga classe média - o "Estado intermédio" - de "gente limpa" relacionada com os ofícios, com a educação, as magistraturas e a governança local. Ou seja, de algum modo, cerca de 30 a 40% da população intervinha na vida política. Quando comparados tais números, ressalvadas as especificidades e privilégios, com os cerca de 100.000 fulanos que hoje vivem da vida pública (autarcas, deputados, membros da nomenclatura) o Ancien Régime era uma super-democracia.
Para mais, a partir do século XVII, o funcionalismo público e a "nova nobreza" (a nobreza dita togada) provinha directamente do braço popular, pelo que os privilégios de sangue estavam condenados ao desaparecimento. Há que explicar às pessoas que aquilo que lhes foi contado na escola-catequese-de-mitos não corresponde à verdade, que estão enganadas; ou melhor, foram enganadas. A filosofice serve para muita coisa, nomeadamente para fazer comboios de citações, mas não responde e nada impugna. É hora de deixar de lado as filosofias e fazer história descritiva, pois nos arquivos está tudo o que a má-fé e a ignorância atrevida não querem ver.

2 comentários:

FB disse...

Caro Miguel Castelo Branco,

Concordo em parte com o que diz, as coisas não são como nos ensinam na "escola-catequese-de-mitos". Contudo no que diz respeito ao exercício de cargos políticos as coisas não deveriam ser assim tão simples. Por exemplo, nos municípios onde foram feitos estudos da composição das vereações entre meados do século XVIII e 1834, é fácil perceber que para aceder ao cargo de Vereador era necessário pertencer à "primeira nobreza" de uma determinada localidade. E essa, por regra, era a nobreza de sangue. Não raras vezes a nobreza de toga ao tentar aceder a certos cargos era pura e simplesmente excluída...É claro que existiam diversas formas de um indivíduo se nobilitar, contudo fico com a ideia que a aceitação dessa nobreza (e o respectivo acesso aos cargos, especialmente os da governança local) não era de imediato alcançada pelo indivíduo que se nobilitava...era um processo geracional.

Melhores cumprimentos,
Francisco Brito

Combustões disse...

Aleluia, Francisco Brito
Alguém que conhece o assunto. Deve notar que o faço com intencional liberdade latitudinal. O tema é apaixonante e há mil e uma nuances exigindo pormenorizada explicação sobre cada situação. Contudo, o que queria destacar - não obstante tudo o que o meu cato afirma com todo o conhecimento - é a persistência da associação de representação a liberalismo. Quis dizer, tão só, que a representação social escolhia as elites funcionais. Obrigado.