23 julho 2012

A política externa portuguesa e a Síria


Há dois meses, mal informado ou obrigado, Portugal considerou persona non grata a embaixadora síria Lamia Chakkour, acreditada em Lisboa. A decisão decorria do encerramento pelos EUA, França e Grã-Bretanha das respectivas embaixadas em Damasco. Já em Novembro de 2011, Portugal pedira ao Conselho de Segurança das Nações Unidas que condenasse a Síria pela violação sistemática dos direitos humanos. A declaração, assinada pelos representantes da Grã-Bretanha, França e Alemanha abria portas a outras iniciativas mais incisivas visando, quiçá, a aceitação de um governo sírio no exílio e seu reconhecimento pelas potências ocidentais. Pensava-se, então, que o regime sírio estava na sua última fase e que ali se repetiria algo análogo à Líbia.
Sei de fonte fidedigna que a embaixadora Lamia Chakkour - cristã e reconhecida pela sua grande autoridade em questões do desenvolvimento, bem como pela luta que tem travado pela defesa do património arquitectónico, facto que ditou a acumulação do cargo de embaixadora com o de representante da Síria na UNESCO - mostrou-se surpresa e triste pela associação portuguesa a um plano que ultrapassa largamente a capacidade de Lisboa em avaliar e apreender a realidade que se vive na Síria. Terá dito a alguém, cujo nome preservo, que os portugueses sempre haviam sido amigos e compreensivos e que a mudança súbita se ficaria a dever a má assessoria diplomática em Lisboa ou a simples coação exercida pela França e Gra-Bretanha.
Parece que o governo português não ouviu ou não fez caso da viagem de trabalho que SAR o Senhor Dom Duarte fez à Síria em meados do ano passado. O Duque de Bragança informou o governo português, facultou informação precisa - que se veio a mostrar a correcta - e disponibilizou-se para prestar esclarecimentos adicionais. Não voltou a ser ouvido, pelo que se deduz que o nosso governo deu prioridade a versões que lhe foram induzidas pelas chancelarias de Londres, Paris e Washington. 
Agora que Assad parece triunfante sobre o exército salafista que pretendeu tomar o poder pela força, vê-mo-nos na incómoda posição de não poder participar na solução do problema sírio. O Presidente Assad lançou as bases para uma reforma democrática e cumpriu até ao presente as expectativas. Portugal poderia estar bem posicionado para representar uma posição intermédia ocidental, cooperante e vigilante, no cumprimento daquelas expectativas aberturistas. Infelizmente, os senhores das Necessidades informaram mal o nosso Ministro. A velha incompetência da diplomacia croquete-e-falso-chique das recepções a comprometer qualquer possibilidade de valorização da nossa presença no jogo diplomático internacional. De fora, também, as empresas portuguesas, que poderiam fazer bons negócios na reconstrução da Síria, posto que Assad nada mais quer com franceses, ingleses e seus satélites. Sempre ouvi dizer que as pequenas potências devem ter uma forte diplomacia. Nas relações internacionais não há afinidades ideológicas. Há interesses. O corte de relações com a Síria foi um desaforo. Mutatis mutandis, por que razão não cortamos relações com o Zimbabwe?
Paulo Portas deve andar cansado de ter à sua volta umas dúzias de diplomatas que mais se preocupam com a pérola na gravata e com os botões de punho que com o interesse nacional. Se eu fosse Portas, fazia algo de espectacular. Ia à Síria, encontrava-me com Assad e pedia-lhe que cumprisse integralmente o plano de reformas.

5 comentários:

Pedro Leite Ribeiro disse...

Embora eu não seja tão compreensivo com Portas (penso que deve pensar com a própria cabeça e as intervenções que tem feito na ONU têm sido de uma hostilidade tremenda para com o governo legítimo da Síria), reconheço que a solução que aponta poderia constituir uma saída airosa desta situação em que a diplomacia lusa se meteu.

Pedro Marcos disse...

O Miguel deve quanto antes começar por estudar as teorias de "conspiração", não vá passar por ingénuo.

D. Duarte esteve em grande, para quem consegue ver, coisa que escapa à escória que gosta de levar no lombo e pedir mais, queixando-se ao mesmo tempo.

Agora quanto à Síra, nunca - nunca mesmo - pensei dizer isto, mas neste momento a Rússia apresenta-se mais como defensora da civilização que o pessoal de Londres e os seus esbirros (EUA).

Nuno Castelo-Branco disse...

Pérolas nas gravatas? Antes assim fosse, pois quereriam dizer alguma coisa. Aqueles fulanos não passam de uns lacinhos Zara postos à conveniência. Vivem colados à CNN e ainda teimam em passar por "europeus", isto é, fazendo tudo o que os amigos mais fortes dizem. Se amanhã a UE nos obrigasse a cortar relações com Moçambique, ou a declarar Timor "uma ilha indonésia", acredita que seria prontamente obedecida. Já perdi as ilusões, mas PP bem podia fazer uma limpeza na casa.

Combustões disse...

Eu sei Nuno. Eu sei que por ali só há manias e atavios neo-burgueses, mas ainda acredito na capacidade do Ministro em mudar alguns figurões e mandá-los para casa.

Pedro Marcos disse...

Acredita, oh Miguel?

Olhe ele aqui:

http://espectivas.files.wordpress.com/2012/07/pernalonga-em-maputo.jpg

Veja a "transmutação" do mural, do polícia branco a segurar o negro com PP, segurado pelo negro.

Coincidências?