11 junho 2012

Requiem por uma capital

Lugares da minha remota memória. Ali nadava, logo que as aulas acabavam e o verão ainda era verão. Eram as piscinas municipais, antes dos clubes "chiques" de frequência duvidosa, da privatização do desporto e da entrada em cena dos bandidos argentários que foram matando e estropiando um a um os espaços públicos do outro regime, que era autoritário, anti-democrático, anti-tudo, mas cuidava dos parques, dos bairros sociais, das piscinas e das bibliotecas. Aqui estão, mutiladas, insultadas, cuspidas, a piscina do Areeiro e a piscina do Campo Grande, literalmente entregues à escória e aos vândalos. Podia discretear longamente sobre estas ruínas - a nossa ruína, o nosso abandono e, por que não, a nossa cobardia - mas deixo as imagens eloquentes tiradas do Lisboa SOS, que faz mais pela defesa da nossa capital que os peralvilhos iluminados que por aí andam a recitar teses e lavrar sentenças sobre cidades utópicas que nunca existiram nem existirão. Sinto vergonha por Lisboa, pelo Estado e por tudo o que nos foi enganando a extremos destes. Tenho ou não direito à indignação, esse clichézinho que parece só ser exclusivo das grávidas barrigas burguesas de tanto revolucionário de passadeira vermelha, segurança à porta, carro com condutor pago pelo contribuinte ? É para isto que vão os nossos impostos? 


3 comentários:

Bmonteiro disse...

E lamentamos nós, os civilizados, o estado de piscina e hotel antigos, na cidade da Beira-Moçambique.
Em ruínas.
Nada que não tenhamos aqui.
Pior, a proliferar no futuro.
O triunfo da democracia lusitana.

Mário Machaqueiro disse...

Não fazia ideia que a piscina do Areeiro - onde aprendi a nadar - se encontra neste estado lastimável, revoltante e deprimente.
Lisboa está, de facto, num caco e os lugares da nossa memória estão a ser permanentemente violentados. Veja-se o que se passa com o Terreiro do Paço e as suas zonas envolventes: o escândalo que é aquela estação fluvial, de discreta arquitectura modernista, abandonada à decrepitude e a um branco sujo e descascado. O escândalo daquelas intermináveis obras à beira-Tejo que insistem em roubar-nos o rio numa das zonas mais belas da cidade (recordo-me do que era percorrer, de manhã muito cedo, o espaço que separava o Terreiro do Paço do Cais do Sodré, vendo o rio e as gaivotas nessa luz rosada do amanhecer, e como agora tudo isso é uma visão mutilada).
De facto, razão tem o Paulo Varela Gomes...

zazie disse...

Que impressionante!