27 junho 2012

Para dias de depressão: Napoleão sobre os portugueses


O dito é conhecido, mas importa lembrá-lo para afagar o nosso amor-próprio. Em Fontainebleau, na primeira audiência diplomática após a grande vitória de Wagram, na qual os portugueses da Legião Portuguesa se haviam batido como leões, Bonaparte, "ao entrar na sala dirigiu-se primeiramente ao embaixador da Rússia e depois voltou-se para o Conde da Ega dando alguns passos para o lugar onde este estava e lhe disse diante de todo o corpo diplomático e de toda a corte: Senhor Conde, estou muito satisfeito dos vossos portugueses. Eles combateram sempre com muita galhardia nesta guerra e decerto na Europa não há melhores soldados que eles" (1).
Dois anos depois, no decurso da retirada da Rússia, com a Grande Armée em decomposição, "passando Bonaparte a cavalo junto [das tropas de Ney], e reparando que eram os portugueses que marchavam na testa da coluna, não sendo costume entre os franceses dar aquele lugar a estrangeiros, fez a este respeito uma observação ao marechal, [ao] que este respondeu: sim, Senhor, os portugueses são os nossos guias, e os que os seguirem não se hão-de desviar nunca do caminho da honra" (2).
O ditador nunca deixou de lançar sobre os legionários portugueses a magia da sua retórica. Em 1810, em arenga feita à Legião em Grenoble disse: "a águia que paira sobre Paris cobrirá os povos com as suas asas, do Bósforo ao Tejo"(3). Terrível profecia que nunca se cumpriu.

(1) Manuel de Castro Pereira de Mesquita, Historia da Legião Portugueza em França, Londres: T.C.
Hansard, 1814
(2) Idem
(3) Teotónio Banha, Apontamentos para a história da Legião Portuguesa ao serviço de Napoleão, Lisboa, IN, 1863.

12 comentários:

Luis disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
José disse...

Um tema muito interesante.
Cumps.

A.F disse...

E havia a outra..a LLL
Leal Legião Lusitana, organizada em Inglaterra.

OCTÁVIO DOS SANTOS disse...

Sinceramente, caro Miguel, não consigo ver como é que elogios a traidores - ainda por cima de Napoleão, que queria retalhar Portugal, salvo erro, em três partes - servem para «afagar o nosso amor-próprio».

Combustões disse...

Eu não exprimi juízo valorativo algum. Quanto aos traidores, a maioria (com excepção o Gomes Freire e do Lafões) foram obrigados a seguir marchae ficaram em França em semi-reclusão após a Convenção de Sintra. Sei que "El-Rei Junot" roubou 50 milhões de cruzados a Portugal, que a soldadagem francesa matou e pilhou como ninguém, mas talvez o Álamo desconheça que a primeira cosa que o Wellington fez em Portugal foi retirar do tesouro do Estado 300 milhões de cruzados. Quanto aos ingleses, o próprio Wellington queixava-se nos relatórios que se portavam como num país conquistado, roubando, queimando igrejas e violando. É o que dá ter estrangeiros a defender os nossos interesses. Estou a preparar um livrinho com saída prevista para Setembro e tenho lá estas e muitas outras enormidades. No meu trabalho sério - o blogue é uma brincadeira - não me rendo a mitos.
Cheers
Miguel

Luis disse...

" É o que dá ter estrangeiros a defender os nossos interesses."
.
pois...o Monarquicos esses...em vez de defenderem fugiram...
.
branquear a acção de Napoleão em Portugal !!?? como é que é possivel ?? você não se rende a mitos, rende-se a ...

OCTÁVIO DOS SANTOS disse...

Do que já li sobre este tema e aquela época, ficou-me a ideia - a certeza - de que os ingleses, ao contrário dos franceses, não assassinaram portugueses, não violaram, não roubaram, não destruíram igrejas - quando muito, promoveram a inutilização de terrenos e produtos agrícolas no âmbito da táctica de «terra queimada», mas para prejudicar os invasores. Além, claro, de se terem portado com alguma arrogância, soberba, paternalismo, quase colonialismo. Desconheço essas queixas nos relatórios de Wellington. Mas, se tal aconteceu, serei dos primeiros a admitir que era ignorante e que estava enganado - devo aplicar a mim o mesmo critério que exijo aos outros, mesmo que em diferentes assuntos. Aguardarei, pois, com interesse a publicação do seu livro.

Combustões disse...

Luís:
Não compreendo o tom agastado, pois nesta casa não se deixam as coisas por dizer; por outro lado, diz-se o que se pensa, pensando-se o que diz.A "monarquia portuguesa" não fugiu. essa é uma das mais soezes mentiras da pobre historiografia portuguesa à la José d'Arriaga (vide História da Revolução Portuguesa de 1820), pois a Casa de Bragança foi extinta por decreto de Junot em Dezembro de 1807 e andavam à procura de um candidato ao trono (talvez um dos irmãos de Napoleão). Foi o que aconteceu em Espanha, onde a família real foi chamada a uma cimeira em Bayonne, capturada e substituída pelo "botelhas", ou seja, José Bonaparte. A "fuga" da família real salvou Portugal, mas sobretudo salvou o império português da voracidade dos ingleses, que perderam o argumento de intervir. Quanto aos legionários, eram comandados por notórios maçons do círculo que visitava os salões da Alorna. O mesmo se passa com a Leal Legião Lusitana que veio com os britânicos. Era maioritariamente integrada por maçons de obediência inglesa, como o poeta Vicente Pedro Nolasco da Cunha. Para fazer história é preciso combater os nossos ímpetos, inclinações e preconceitos.

Combustões disse...

Octávio dos Santos:
Os ingleses tinham um plano de ataque a Portugal, discutido na Câmara dos Comuns em meados de 1807. O ataque este iminente, levando o Príncipe Regente a aceitar o bloqueio que lhe impunham os franceses. Contudo, Dom João foi mais inteligente que uns e outros e decidiu-se pela partida para o Brasil.
Os britânicos, mal puseram os pés em solo português (na Figueira), passaram a arrasar por sistema todas as fábricas de fiação que encontraram, dizendo que as mesmas eram contrárias ao tratado de Methuen. Depois, permitiram que o saque de Junot saísse pela barra do Tejo, devidamente escoltado pela marinha britânica. Sobre o saque das povoações e as violações - que provocaram um verdadeiro surto de doenças venéreas - dissso tratarei com propriedade (com documentação) no livrinho.

OCTÁVIO DOS SANTOS disse...

Sobre a Convenção de Sintra, que autorizou os franceses a saírem de Portugal com (quase tudo) o que tinham roubado, não há dúvida, é bem conhecido e foi uma vergonha - mas fez com que os comandantes de topo ingleses de então (que ainda não era Wellington, que se opôs) fossem julgados em Conselho de Guerra.

Quanto à destruição de fábricas de fiação «por serem contrárias ao Tratado de Methuen» e às violações (por ingleses) «que provocaram um verdadeiro surto de doenças venéreas», lá está, isso é tudo novidade para mim.

Lionheart disse...

Ainda bem que esta' a fazer esse trabalho sobre esse período tenebroso da história de Portugal. Período esse que ainda hoje e' ideologicamente fracturante. Qualquer Estado que tivesse memória histórica, e cuja classe política nao fosse tão corrupta e dependente de quem nos violentou há 200 anos, trataria de cultivar no povo a memória desses acontecimentos, que foram "apenas" a maior desgraça que alguma vez se abateu sobre Portugal e que contribuíram decisivamente para a decadência do Estado português. Por razoes ideológicas, a "elite" do actual regime nao se inibe de malhar na "pérfida" Albion (apesar de na visão anglo-saxonica do sec. XIX os portugueses serem vistos como mesquinhos e ingratos) sempre que vem 'a baila o assunto das guerras napoleónicas. Mas e' lamentável que só vejam para um lado, parecendo esquecer quem começou a guerra. E' que o dinheiro da "Europa" também serviu para branquear na actualidade os crimes de guerra cometidos pela França pois e' um escândalo o modo como a materia e' ensinada nas escolas e como até abdicamos do nosso capital de queixa. Nao e' por acaso que os ingleses nao deixam cair no esquecimento a II Guerra Mundial, enaltecendo a sua resistência no conflito, enquanto a Alemanha tenta por todos os meios que o assunto seja remetido para segundo plano, inclusive protestando como quando agora os ingleses homenagearam os pilotos de bombardeiros com um monumento em Londres. Até nisto nos deixamos colonizar! Envergonhadamente, alguns municípios tem recordado o passado, com iniciativas por causa das Linhas de Torres. Do Estado central, então ainda por cima tutelado, nada. Uma vergonha.

Justiniano disse...

Aguardemos, então, pelo seu trabalho!! Mas quando se apontam honrarias desalmadas de desalmados não nos podemos surpreender com o arremesso de lama, especialmente quando apontamos lama àqueles que desmerecidamente diz, o meu caro Castelo Branco expressivamente, miseravelmente animados de um misticismo primitivista, ali em cima!!