02 junho 2012

O doente não se cura mudando-o de cama

Li em tempos, da pena de um místico italiano já falecido, que o doente não se cura mudando-o de cama. O que o cura é o boa prescrição que o médico lhe receita. Porém, antes da medicação, há que saber fazer o diagnóstico correcto. Assistindo aos últimos tumultos da paupérrima vida política portuguesa - que perdeu o rumo e desbaratou as últimas três semanas num risível folhetim - surge de manifesto que o mal de que padece  Portugal e o regime não pode ser corrigido sem o diagnóstico correcto. Que cada um tire as ilações e reflicta sobre isto.
O problema, meus caros, foi diagnosticado há quase 20 anos por Richard von Weizsäcker, para não referir outras autoridades menos consensuais. Para Weizsäcker, que na altura levantou imenso coro de protestos, a democracia foi pervertida e substituída pela partidocracia. Os partidos políticos transformaram-se num quinto poder e destruíram lentamente a autonomia dos restantes quatro poderes: ocupam o legislativo, o executivo, o judicial e até os poderes moderadores. O problema é que esta forma corrupta de democracia se transformou numa nomenclatura fechada, incapaz de discernir a medida justa, o bem-comum e os interesses gerais da sociedade. Sendo os partidos um elemento fundamental da democracia, não são a democracia.
É esta, fundamentalmente, uma das razões pelas quais sou monárquico. O reforço do poder moderador - que por ser aquele que maior consenso reune - pode permitir que o Estado e a sua maquinaria se libertem do clientelismo dos partidos; que os juízes que velam pela imparcialidade não sejam cooptados entre gente de partidos; que o critério de competência para o exercício de funções técnicas e executivas não passe por acordos entre partidos. Enquanto daqui não sairmos, não vamos a parte nenhuma.

1 comentário:

Isabel Metello disse...

Miguel, cheguei a esta conclusão, que não brilhante: a História mostra-nos que só estrangeirados e os retornados/exilados políticos que mantiveram outra matriz sociocultural com horizontes mais alargados, que não os das ruas estreitas de Alfama em que "cada qual puxa a brasa à sua sardinha", e outros poucos "loucos" lúcidos internos que fogem ao paradigma incapacitnate e incapacitado da modorrice do politicamente correcto e Eticamente abjecto(não foi o Professor Medina Carreira um verdadeiro áugure, a quem apelidavam de apocalíptico e até de "maluqinho" que previu esta hecatombe há mais de 10 anos? Então???!!! e o que os Professores Maria Filomena Mónica e José Gil sempre disseram? E o Engenheiro e escritor Jorge de Sena e tantos outros???!!!:), que conhecem os códigos internos, mas detêm um distanciamento narrativo capaz de desconstruí-los de forma objectiva e agir com inteligência pragmática... por isso gosto tanto do Ministro da Economia e, como há vários governantes retornados/exilados políticos neste Governo, creio que, pelo menos, nalguns campos avançaremos...não será fácil, pois esta matriz da mediocridade, mesquinhez, malvadez palaciana, horizontes pequeníssimos (por muito que viagem, pensam que Cuba se resume às praias paradisíacas, não conseguem vislumbrar para além do seu umbigo hedonista, das bases ao topo... ainda me lembro de uma tuga que dizia num telejornal, depois da tragédia do tsunami na Tailândia, que iria na mesma para lá, pois queria constatar in loco a tragédia- lá está a matriz das falsas carpideiras e beatas de bairro vouyeuristas, que não passam de vampiros emocionais, quando não se transformam em real psychos- há dois eminentes psiquiatras que defendem que este território é uma estufa plena de case studies interessantíssimos (ao nível científico, claro, porque ao nível humano de humane...xiiii, patrão!!!:) cobardia em alcateias que adoram bodes expiatórios e autos-de-fé para expiarem os seus próprios vícios...