10 junho 2012

Não é nostalgia, mas de um outro Portugal

Não se trata de nostalgia. Também não é "patrioteirismo", palavrão detestável, pois ou há patriotismo, ou não há. Décadas atrás, corriam tempos negros em que os nossos vultos grandes eram levados ao tribunal da história, alguém com a consciência pesada cunhou o dichote, e ficou. Seria, estou certo, ou um desertor ou alguém que, tendo agido em inteligência com o inimigo, queria justificar a sua falta. 
Para essa gente, patrioteirismo é sinónimo de mentira, sentimento postiço, alienação de muitos ou justificação de poucos para  cavilosos intuitos. Contudo, o patriotismo não é um adorno, mas um sentimento tão forte e profundo como aqueles sentimentos que dão sentido à vida dos indivíduos singulares e dos seres colectivos que são as nações. O patriotismo está para a sociedade organizada em Estado como a devoção filial ou o amor estão para os indivíduos. 
É forte, está lá e não se questiona. Sem ele, tudo soa a contrato, a interesse ou expectativa de retribuição. Péricles, na Oração Fúnebre aos atenienses caídos no campo da honra, pedia aos vivos que seguissem o exemplo dos mortos; por outras palavras, dizia-lhes que morressem eles também, se necessário, pela razão por que aqueles haviam dado as suas vidas. O patriotismo é, pois, uma razão objectiva e não uma razão subjectiva ou instrumental. Se não existe patriotismo - orgulho, vontade de viver em conjunto, percepção de tudo aquilo que faz um nós perante os outros - não há argumento algum que justifique a existência de um país. Sem patriotismo não há, também, cidadania, civismo, bem-comum.
O grande drama português é o do eclipse do patriotismo. Dizemos eclipse e não desaparição. Como todos os sentimentos, tem de ser cultivado, inculcado e exercitado. Tem de ser exibido. O patriotismo é um mito político colectivo e deve estar acima dos regimes e das circunstâncias. A tragédia portuguesa dos últimos quarenta anos tem precisamente a ver com a destruição metódica e tudo quanto fazia o nós que não se questionava. Em seu lugar, quiseram-nos fazer "europeus" sem pátria, indignados e reivindicativos e até espanhóis, conquanto tal garantisse a cada português uma "vida confortável". Abominou-se o patriotismo, como se este fosse exclusivo de uma forma de regime e como se democracia tivesse de ser, fatalmente, anti-patriótica. Da desaparição do patriotismo da paisagem emocional - exilado para os futebóis, coisa pequena - nasceram duas gerações de criaturas incapazes de entender o bem-comum, o serviço público, o papel e o lugar de Portugal no mundo. O resultado está à vista. Mais grave que a crise económica, a pobreza que trepa, o quebranto da coragem colectiva, a fuga dos indivíduos, é a inexistência de um sentimento colectivo.


Lourenço Marques. Comemorações do 10 de Junho (de 1963 e 1972). Retirado daqui.

4 comentários:

cs disse...

Lembro-me tão bem:)
ás vezes nem sei se a s minhas memórias são fantasiosas se são verdadeiras. Desconfio sempre se as ruas eram largas, se o comércio tinha os nomes que me vêm à memória e por ai fora.
Uma coisa tenho à mãos. As minhas fotografias de menina eram todas da fotoportuguesa :)
Obrigada pelo link :)

Osório disse...

Por acaso hoje passei nesses sítios, na baixa de maputo. Já nem vou falar na forma como a cidade está diferente (para pior - de acordo com o que vejo nas fotografias de LM como estas, já que tenho 32 anos e estou cá há 6 meses e por isso não conheci a cidade noutros tempos), mas o que me causou mais imoressão foi ver que toda a baixa, pelo menos, está hoje sem electricidade. É irónico que neste dia a cidade esteja assim apagada.

AM disse...

Retrato acertado das causas que trouxeram Portugal, os portugueses, à mediocridade presente.
Sim, já vão duas gerações a quem foi negada a Pátria. E como vencer esse hiato? quem e em que bases poderá fazê-lo?
(tomei a liberdade de transcrever este seu texto no «facebook»)
A. Marques

Isabel Metello disse...

Engraçado como o início do fim de Portugal como Nação Digna se deu com a desavergonhada e criminosa descolonização...democratização não houve, mas sim oligarquização- mantiveram-se e até se acirraram as moscas e os vícios opressivos, piores pois dissimulados, logo, manteve-se a opressão e uma aviltante ausência de Liberdade de Expressão- ai de quem não se pusesse como os McCann em posição de oração islâmica ao ouvir a sacralizada música do Zeca, esse ícone!...desenvolvimento, ora desenvolvimento, não me estou, agora, a lembrar-me assim de nada relevante- ah, as estradas, temos mais autoestradas e mamarrachos (depois da conveniente queda de lindos edifícios devolutos:), entre os quais o maor shopping center da Europa (snjiff, que orgulho!!!:), mas em compensação temos uma frota pesqueira destruída, uma agricultura devassada, o comércio arrasado, a população faminta, muitas lojas de usurários a crescerem como cogumelos, a total impunidade de grandes criminosos...ah, e a Polícia Política sofisticou-se, mas manteve o mesmo m.o., mas mais tipo Homem Invisível, o mesmo tb das suas oponentes "virgens ofendidas"-a não incorporação do Princípio do que é servir-se uma nação e não do ser-se servido, i.e., a hipocrisia do palco onde a "retórica do silêncio" faz crer à marabunta alienada que este caso de promiscuidade entre campos sociais é inédito (tantos bem piores nos vários governos socialistas e não só, desde o 25/74!!!- a propósito, não foi "o grande democrata" que a criou ou estou enganada? E para quê? Para nos defender dos ETs? Ah, por isso tanto poder sempre tiveram os Ministros da Administração Interna (de facto, saber-se de tantos podres dos piores dos que se julgam melhores deve compensar- que podres serão???!!!! Devem mesmo ser cabeludos!!!...:), e lá se foi para o espaço intergaloáctico a Dignidade desta nação...e assim se destruiu Portugal...e o mal age sempre assim- dividir para conquistar tanto a nível micro como macro, logo, por isso, o assanhamento contra este governo...bem, ao menos todo o episódio da jornalista dos chliques que acabou por desacreditar o próprio jornal, de Miguel Relvas e das Secretas permitiu a muita gente perceber :) (a) continuamos numa aldeia em que o primo da dona da mercearia fica no posto dos correios, onde lê as cartas todas para escrever um romance, porque o tio da avó do filho da mãe do padeiro é amigo do talhante que é amante da mulher que cria porcos na quinta; (b) que muita gente adora invocar Princípios quando lhes interessa, pois os bastidores mostram que, afinal, o que está em causa são interesses empresariais do mais básico que há; (d) que muitos dos nossos jornalistas são mais para o gourmet do que para repórteres de guerra (só se for como a tal persona tétrica do Albarran :) "algures no deserto do Sahara" = muito longe de alguma coisinha que possa pôr em risco este meu falso sorriso Pepsodent, o meu ego despótico e a boa vidinha que adoro!"