29 junho 2012

Exaltação do autoditatismo


Uma discussão à volta da mesa do almoço. Um choque. O fulano, palavra sim, palavra não, lembrava a sua condição de "universitário", "académico" e "intelectual", acrescentando o palito métrico dos comboios de citações. Por que raio não consegue essa gente andar sem as muletas do citacionismo dos Hegel, dos Foucault, dos Kants & C.ª (só falta o Bazar Henri-Lévy) para discorrer sobre uma cólica, uma dor de garganta ou um creme de praia? Respondi-lhe que o género filosófico - género literário, sem dúvida - é uma forma airosa de não saber. Pessoas que não sabem uma data, não conseguem esgrimir com um facto, nada leram daquilo que faz uma pessoa civilizada, não conseguem separar um Rafael de um Rubens, não sabem onde fica o Volga, nunca leram um Stendhal, de Paris conhecem o Estádio de França e não o Louvre, nunca puseram os pés numa ópera ou num teatro, nunca perderam 10 minutos na Biblioteca Nacional, têm o desplante de puxar pelas dragonas de uma autoridade académica que nada diz. Partem do nada, preenchem o vazio com qoutations, ponderam sobre coisa alguma e aí está, impante, o "saber universitário".

Para o provocar, disse aquilo que penso há muito. Sim, sou autoditacta, sou diletante (que quer dizer aquele que gosta e se inebria), sou amador (que quer dizer aquele que ama) as coisas pelo acto de gostar e não porque as coisas asseguram status. Na universidade nunca aprendi nada. Nunca professor algum me ensinou o que quer que fosse. Claro, tenho as minhas excepções: da escola primária, a professora Ana Cândida, que me ensinou a ler,  a escrever e contar; do liceu, a professora Marina Pestana e o professor Simões Serra, que me incutiram, respectivamente, o amor da literatura e da história; do mestrado, o Professor José Esteves Pereira (uma máquina de pensar) e do doutoramento o Professor Saldanha, que sabe da coisa asiática o que milhares de espevitados bolonheses jamais saberão com as suas "especializações, investigações, aportações, comunicações", mais os que se esgalgam para aparecer na pantalha, mesmo que seja para falar de brownies.
Curioso. Regressei ao meu gabinete e consultei a bibliografia nacional actualizada. O homem nunca tinha publicado uma linha ! E viva o autodidatismo.

4 comentários:

Liceu Aristotélico disse...

Miguel,

Não aprendeste lá nada... Sorte a tua. Olha... já somos dois...

Duarte Meira disse...

"Regressei ao meu gabinete e consultei a bibliografia nacional actualizada"...

Mas isto não pode querer dizer que não haja estimabilíssimos didactas e autodidactas e bons amadores que não publicaram nada ou muito pouco. Estou a lembrar-me do grande João Camossa Saldanha, que o Miguel deve ter conhecido e (quero crer)estimado, como ele bem merecia.

António Bettencourt disse...

Bravo! Um dos melhores posts seus que já li. A fazer-me lembrar algumas discussões que tive na FLUL com colegas de Filosofia. Nunca consegui fazer uma amizade e ou ter o mínimo respeito intelectual por tal gente.

Isabel Metello disse...

Duarte, claro, cada caso é um caso! Mas, Miguel, eu ainda estou na minha- é um choque cultural ad aeternum! Eu, quando é assim, faço de Barbie, agora mais gorda, antes, uma elegância, para deixar as ondas fluírem, só quando me chateiam a sério é que lhes desconstruo os rótulos! E fazer-me de Barbie e, depois, dar a volta e desconstruir-lhes os estereótipos? Já até dei gargalhadas!!!