03 junho 2012

Em busca dos portugueses da Grande Armée



A 23 de Junho de 1812 deu-se início a uma das operações militares mais importantes da história mundial. Do seu desfecho nasceu o equilíbrio e a polarização que desde então marca a fronteira entre a Europa atlântica e o vasto Leste. Tratou-se, sem dúvida, não apenas de uma campanha, mas do violento parto do nacionalismo, situado erroneamente pela historiografia europeia na década de 1830. Sobre a campanha da Rússia, a batalha de Borodino, o incêndio de Moscovo, a retirada e a tragédia do Berezina muito se tem escrito e publicado. As imagens fazem parte da mitologia europeia. Quem nunca leu a Guerra e Paz, de Tolstoi ? Quem nunca leu a Campanha da Rússia, de Karl von Clausewitz, ou  as Mémoires du sergent Bourgogne? Quem nunca ouviu falar da Legião Portuguesa e dos seus cinco mil homens que se perderam nas estepes geladas? Dos 650.000 europeus que partiram para a Rússia, 1% eram portugueses. Deles, pouco ou nada se sabe, para além das cartas de Gomes Freire à sua mulher Matilde, do noticiário inserto nas gazetas francesas, prussianas e britânicas, das listas de feridos e doentes terminais que foram chegando a Lisboa para aqui morrerem. Partiram ao engano em 1808 e não puderam mais regressar à sua pátria. Olhados com desconfiança pelo imperador, deram tais provas de lealdade e bravura em Wagram (1809) que, ao partir para a Rússia, Napoleão os quis sempre nas proximidades do seu quartel-general o para defender das hordas de cossacos.
Para assinalar o bicentenário, foi-me indicada a responsabilidade de, até ao outono, preparar uma exposição e um catálogo sobre os recursos documentais portugueses - manuscritos, gazetas, memórias, cartografia e gravuras - alusivos a essa efeméride. Até Outubro, com este novo encargo a somar à tese sobre as relações luso-siamesas, praticamente terminada, prometo ir facultando aos meus leitores curiosidades referentes à sorte de milhares de compatriotas nossos apanhados numa das mais mortais armadilhas da história europeia.




3 comentários:

Lionheart disse...

É uma armadilha recorrente, quando a ideologia ou a dependência nos leva a combater pelos interesses de outros... Uma tragédia que continua actual.

Príncipe Valente disse...

O 3º marquês de alorna morreu na prússia oriental, durante a retirada da rússia, devido talvez ao frio, à doença e à fome. mas, digo eu, o que lhe deve ter pesado mais no sofrimento, terão sido "as saudades de Portugal".

João Pedro disse...

Tive dois antepassados transmontanos, da zona de Vila Real, que estiveram nas campanhas da Rússia e que conseguiram regressar. Um deles morreria mais tarde numa disputa por terras com um vizinho, de uma pancada provocada por uma alfaia, numa querela frequente na região. Ainda conservo uma baioneta de um deles, mas infelizmente não tenho documentação.