11 junho 2012

Dois robles de copa entre trepadeiras


Jean-Luc Mélenchon e Marine Le Pen são, cada um à sua maneira e idiossincrasia, dois lutadores tenazes e de gabarito que destoam na paisagem francesa e europeia. São como robles de copa ampla, impondo-se num mundo de trepadeiras e esquálidas árvores-anãs. Tenho acompanhado os duelos ferozes entre estes dois inimigos figadais e em cada embate suspendo os meus preconceitos e aversões, inclinações e afectos ideológicos, e de tal forma as neutralizo que acabei por simpatizar com estas duas excepções. 

Marine representa a tradição da direita francesa resistente que vem desde os dias da Vendeia. A resistência face à Paris burguesa e burocrática, cosmopolita e afectada que quer dar lições ao resto da França, a defesa da milenar obra de Clóvis, do seu ethos e respectivos particularismos regionais, a defesa da memória, da identidade e do "voto dos mortos" - como dizia Barrés - assim como a concepção de uma sociedade em que os direitos dos corpos intermédios, das gentes e do trabalho dos artesãos, dos lavradores e dos pequenos proprietários mereçam o mesmo respeito que as abstracções dos legisladores saídos das baiúcas das Sciences Po.

Melénchon é herdeiro da França de Hugo, das barricadas, da igualdade e dessa propalada generosidade imperial parisiense que quis libertar, contra a sua vontade, o conjunto da população da velha França do "jugo feudal", que foi jacobina e guilhotinista, anti-clerical e laica a tal extremo que substituiu a velha religião pelas novas religiões da maçonaria e do marxismo. Mas Mélenchon é mais que a caricatura esquemática do agitador. É um homem culto e lido, um provocador nato que substitui os combates de boxe pelas violentas batalhas de ideias.

Hoje, a guerra entre Marine e Jean-Luc conheceu mais um episódio. Marine fala do povo e em nome do povo. É neta de pescador e filha de um dos mais espantosos fundibulários do nosso tempo, um homem que saiu do anonimato nos tempos de Poujade e tem imposto, desde há trinta anos, a agenda política, os temas e diferendos que marcam a sociedade francesa. Se o pai Le Pen é grosseiro, provocador, quase vergonhoso em algumas tiradas, Marine é gentil e sorridente. Jean-Luc é pied-noire, descendente de espanhóis, membro do Grande Oriente e comunista desde a juventude. Investiu-se em procurador dos interesses da classe operária, mas desta não mais conhece que a idealização poética saída dos romances sociais. Hoje, foi em torno dos dois que a França se suspendeu, aguardando o duelo no ignoto círculo eleitoral de Hénin-Beaumon, no Pas-de-Calais. Marine Le Pen obteve 42,36% e Mélenchon 21,48%, ou seja, o terceiro lugar. Não irá à segunda volta no próximo domingo. Qualquer que seja o resultado na próxima semana, tenho por dado que a França não se esquecerá tão cedo nem de Mélenchon, nem de Marine Le Pen. Estão para ficar. Por outras palavras, as pessoas ainda não perceberam que a Europa mudou?

2 comentários:

Marina Seminova disse...

So um detalhe : acho extremamente redutor qualificar o carismatico Jean-Marie Le Pen de "grosseiro". Pode até ser de certa forma, mas é incontestavelmente o grande vulto da Patria (francesa) dos ultimos 30 anos !
Quanto a Hénin-Beaumont, se servir para acalmar a arrogância de Jean-Luc Mélenchon, ja não é nada mau !
Felicidades.

Giuseppe Tomasi di Lampedusa disse...

Bravo pour ce commentaire ; réduire Jean Marie Le Pen à un personnage "grossier" est la caricature habituelle que l'on voit en France. Dans le style grossier, que dire de MM. Strauss-Kahn, Barroso et consorts, fidèles chiens de garde du système mondial qui servent leurs maîtres en sacrifiant les peuples sur l'autel de leurs intérêts ? M. Le Pen aura été le tribun de ce siècle, en France ; le chef éveillé. Mille pardons de ne pouvoir poster ce message dans la langue de ce blog. Et mes plus respectueuses salutations aux monarchistes et nationalistes portugais.