24 maio 2012

A nova luta de classes: a propósito de uma lamechice de Zorrinho e da ingenuidade de Cavaco

Bazar-Henry Lévy, o grande porta-voz do parasitismo bem-pensante


Carlos Zorrinho, que parece bem-educado e marca a diferença num parlamento do Arco-da-Velha, escreveu há tempos numa dessas revistas da estupidez inteligente - a Frontline, lifestyle and business, uma coisa pirosa nova-rica toda em papel couché, como manda o mau gosto plutocrático - que "os portugueses são cidadãos do mundo, mas não são carne para canhão" e ainda "é um Portugal forte que dá força à visão aberta e cosmopolita da nossa presença no mundo". Por seu turno, o Presidente Cavaco Silva apelou na Indonésia ao investimento português naquele país, pedindo reciprocidade aos empresários indonésios. Perdoe-me o Senhor Presidente, mas parece esquecer que já não existem "empresários portugueses" e "empresários indonésios" capazes de contrariar a globalização e a nova luta de classes.

A direita do business e a esquerda burguesa gostam de iludir a existência da luta de classes, considerando-a um perigoso artifício. Porém, goste-se ou não, o fenómeno existe desde a génese do liberalismo e ganhou particular relevância a partir do momento em que, destruída a sociedade trifuncional de soberania orgânica e a ética subsidiária do Antigo Regime, o poder passou a ser, por antonomásia, o poder dos detentores do dinheiro. Porém, o poder do dinheiro - o poder da burguesia - assumiu responsabilidades morais e até patrióticas. A burguesia não era, apenas, capitalista: era empresária, corria riscos, fixava e investia, dava trabalho. A história social portuguesa dos séculos XIX e XX demonstra o enraizamento da burguesia e a nacionalização da atitude e cultura burguesas. Olhando para a velha alta sociedade burguesa portuguesa, da segunda metade do século XIX à revolução de 74, verificamos quão patrióticos eram os capitalistas portugueses. Os Champalimauds, os Mellos, os Espírito Santo, os Feteira eram, não apenas capitalistas, mas industriais. Defendiam o interesse da comunidade, estimulavam a riqueza nacional, estabeleciam a fronteira económica portuguesa. A sua riqueza era, sem tirar, a riqueza de Portugal.

O mesmo aconteceu na Europa até à década de 1990. O bom capitalismo e a boa empresa a todos enriqueceu, a todos permitiu a cidadania plena e a todos garantiu voz. Porém, foi precisamente nos momentos finais das tiranias do socialismo real que nasceu a globalização, abrindo um novo capítulo, quiçá o mais sinistro, da longa história da desigualdade. O que temos actualmente pelo mundo fora é uma nova versão da luta de classes, opondo produtores sedentários a nómadas predadores. Para que exista produção e trabalho, importa que as comunidades se enraízem . O nómada não produz nem trabalha: intermedeia, dinamiza, agita e parasita. A tal "comunidade internacional" de nómadas cosmopolitas sem fronteiras, sem raízes e sem responsabilidades éticas - a banca internacional, os acicatadores das deslocalizações, os federadores e unionistas técnicos, os exploradores do trabalho alheio - matou o velho capitalista e destruiu a cultura de trabalho dos velhos capitalistas e industriais. 

Estranhamente, os maiores defensores do parasitismo nómada são os novos-esquerdistas. Servem-se, como disfarce, do sentimentalismo das justas causas. Para eles, a destruição das fronteiras, a diluição das identidades, a livre circulação de pessoas e produtos constituem um aprofundamento sem precedentes na aproximação entre os homens. Sabemos hoje como funciona e para que servem essas fábulas. 

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