21 maio 2012

"May sáab" ou não há assessoria para a política externa asiática?


Ao abordar problemas financeiros caseiros no decurso da visita a Timor, o Chefe de Estado terá inadvertidamente cometido uma das maiores infracções às regras básicas da boa-educação. Para os asiáticos em geral, tocar em assuntos de família, saúde e dinheiro é um interdito no espaço público. O Professor Cavaco tê-lo-á feito julgando estar a prestar um serviço ao país, não sabendo que tal iniciativa mancharia a imagem de Portugal. Para os portugueses, trata-se do triste episódio do pobre a mendigar ao miserável; para os timorenses, é o pai a pedir ao filho.

Este incidente vem demonstrar à saciedade um problema aqui por várias vezes abordado. À presidência da república e aos orgãos do governo responsáveis pela política externa parece faltar assessoria especializada em matérias relacionadas com a Ásia. Não basta ter uns meninos e umas meninas com um diploma de RI para fazer diplomacia com os asiáticos. Há que garantir formação e a criação de carreiras com vinculação exclusiva aos diferentes espaços civilizacionais. Se para o MNE impõe-se o fim das carreiras generalistas - um diplomata não pode partir para a Ásia sem um mínimo de leituras e, até, sem o conhecimento da língua do país onde desempenhará funções - à presidência pede-se que se informe. Infelizmente, Portugal é um país de improvisadores, amadores e amigos. Não basta ler os do's and don'ts e a entrada da wikipédia para fazer a casaca de diplomata. Não basta vestir o casaco pistacho, usar umas gravatas technicolor e dar ares de senhor - com golfe e sundowns à mistura da croquetaria - para cumprir o papel. Assim não se faz política externa na Ásia. Como dizem os tailandeses, que nos pediram de empréstimo a expressão, "may sáab" (ไม่ทราบ = não sabe), falta formação a esta boa gente.

4 comentários:

Alano da Rocha disse...

Parabéns ao autor por mais um post brilhante!
Na verdade, é confrangedora a inépcia dos nossos responsáveis...

Nuno Castelo-Branco disse...

Já nada me surpreende. O próprio Sampas atreveu-se a dizer ao Rei Bhumibol que não queria o chá que ele lhe oferecia, mas uma bebida escocesa de conhecido nome e c
vertida sobre pedras de gelo. Pelo menos, foi o que os tailandeses fizeram transpirar do encontro entre o Grande Rei e o choramingas do costume.

Alano da Rocha disse...

O Sr. PR afirmou que os investimentos indonésios são bem vindos... Acaso perdeu a memória? Ou a vergonha...?! Ou não tem uma nem outra?
Pobre Portugal! Com gente desta estirpe a orientar os seus destinos...!

Alano da Rocha disse...

O Sr. PR afirmou que os investimentos indonésios são bem vindos.
Acaso terá já perdido a memória? Ou a vergonha...? Que gente é esta que orienta os destinos de Portugal...?!
Ao sujo (ensaguentado) metal submetem-se os valores mais lídimos, a consciência de uma Nação, os compromissos com irmãos de séculos...?!