13 maio 2012

Escravaturas


Coisas terríveis acontecem sem que com elas se preocupem as nossas rádios Moscovo, os nossos fracturantes, os nossos liberais - todos com o credo das grandes Cartas e dos imorredouros princípios de 1789 na boca - nem tão pouco as ONG's milionárias, os SOS's e os "cidadãos esclarecidos". Eu não acredito, pois, nos homens, fiel àquela velha máxima de Chesterton, segundo o qual as mais nobres ideias estão quase sempre associadas às mais torpes práticas.
Ora, aqui está uma historiazinha de terror. Tenho, entre os meus empregados - legalizados e descontando - dois empregados nepaleses. Atraídos pelos fumos dourados de uma vida de abundância, vieram parar a Portugal há dois ou três anos. Um deles, licenciado em Direito, fala e escreve perfeitamente três línguas e é um leitor compulsivo, conseguiu emprego num restaurante lá para os lados da Ericeira. Trabalhava 12 horas por dia, deram-lhe um catre na dispensa do restaurante e trancavam-no entre a meia-noite e as dez da manhã. Para cúmulo, não chegou a vencer um só dos ordenados inicialmente acordados e era forçado pelo patrão - que dizia "democrata" e "socialista" - a pagar as refeições. Resultado, nunca recebeu um cêntimo.
O outro, com mulher e três filhos vivendo no Nepal, viu-se obrigado a trabalhar sem remuneração numa empresa a troco de cobertor, acesso ao chuveiro (de água fria) e duas refeições diárias.
Compreendo, pois, a aliança estratégica entre as extremas-esquerdas das cruzadas libertadoras - do "homem como cidadão do mundo" - e a mais desvairada plutocracia global. Uns semeiam a confusão, os outros tiram partido da escravatura. Dois irmãos, ou talvez, o Janus da mesma realidade.

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