25 maio 2012

A ditadura dos comensais de Trimalcião



Entretive-me ontem a arrumar cartas antigas. Entre elas, um poema que me dedicou o António Manuel Couto Viana, cuja obra, vasta e poliédrica, se espraiou pelo teatro - enquanto dramaturgo, encenador e empresário -  pela poesia, pela crítica literária, a história da literatura, a tradução e organização de antologias. A todas estas, juntava-se a de conferencista e orador de talento. Raro encontrar num espírito tantas prendas. Conheci-o em 1983 e com ele mantive sempre até à sua morte uma relação próxima de amizade e admiração. Ao contrário dos cães de fila da fama da medíocre literatice aclamada, o homem não se separava da obra. A sua vastíssima cultura, o amor e entusiasmo transbordantes que tinha pelas artes plásticas, pelo teatro e pelo canto lírico,  o talento para o desenho, o conhecimento profundo que tinha dos autores mais relevantes da literatura e prosa doutrinária portuguesa, a imbatível capacidade para o dito irónico e para a piada inteligente faziam do AMCV um homem admirado, invejado, temido, respeitado.
Com o seu grupo de amigos - o arquitecto Reis Camelo, o muralista e vitralista António Lino, o ensaísta Mário Saraiva, o ´maestro Manuel Ivo Cruz, aos quais se juntava sempre uma inesperada visita vinda do estrangeiro para o reencontrar - passei inesquecíveis tardes de boa conversa.
O António Manuel era um homem de fortes convicções patrióticas. Sentiu, como tantos outros, o desmoronar de uma ideia de Portugal, a ascensão e nobilitação de medíocres, a maldita pecha dos sapateiros feitos escritores, a rendição da literatura ao estreito ideologismo, a comercialização dos prémios literários. Num país de criados e maldizentes, de panelinhas e pequenos lóbis, Couto Viana debatia-se amiúde com a muralha de silêncio e censura dos sapateiros plumitivos. Como não era das bandas do neo-realejo, não fazia tandem com os "trabalhadores intelectuais" e demais excrescências do comunismo, foi dado como morto em duas ou três daquelas histórias da literatura que dedicam três páginas a Camões e a António Vieira e meia centena ao Alves Redol.
Movido pela curiosidade em saber se o youtube possuía alguma memória do poeta, encontrei, datado de 2010, o trecho que abaixo reproduzo. Siderado pelo atrevimento de três ignorantes impantes, que desconhecem a sua obra - o Daniel, sem o patilhame à Zé do Burro, que nunca leu nada do AMCV, a Clara piriquita tisnada qualquer-coisa, idem, o mole do Mexia a dar o flanco cobarde - dei comigo a pensar no desplante destes anões invertebrados cujas postas-de-pescada fariam as delícias de um qualquer banquete de Trimalcião. Assim vai a "cultura" na última flor do Lácio ! Gente a falar daquilo que não sabe, gente sem obra - que não os queria nem como criados de mesa -  a opinar em tom comezinho sobre um dos mais originais artistas da língua portuguesa da segunda metade do século XX. O país precisa, fatalmente, de uma revolução do bom-gosto. Esta tirania de figurinhas insignificantes dura há demasiado tempo.


5 comentários:

Liceu Aristotélico disse...

Miguel,

A safadeza esquerdista só empina o nariz entre ela ou entre aqueles que ela escolhe para protagonizarem uma suposta oposição de sinal contrário. Vê lá se ela se atreve a desafiar quem a ponha de joelhos num abrir e fechar de olhos? É um facto que em Portugal poucos detêm a inteligência e a coragem para o fazer, já que a esquerda ocupou praticamente todos os "espaços culturais" no plano académico, jornalístico, político, etc.

Curial se torna, pois, criar a verdadeira Direita que não existe em Portugal, aquela mesmo que a esquerda teme porque, desde logo no plano cultural, a reduz à mais vil insignificância.

Repito: criar a verdadeira Direita, não em termos partidários, mas sobretudo enquanto movimento capaz de suscitar as condições necessárias para a formação de um escol à escala intergeracional. Que dizes a isto?

Pedro Marcos disse...

O Liceu tem toda a razão. O Olavo de Carvalho defende que a decisiva batalha é a cultural.
O problema são os tempos de antena... que se compram. E se pagam.

Instituto da Democracia Portuguesa disse...

Esta elitezinha saloia existe da esquerda á direita. Desiludam-se os que pensam que é ideológica, pois muda o governo,continuam os mesmos e trazem mais alguns. A ideologia que forjou este regime foi o oportunismo e o exemplo vem de cima, ora temos tanta criatura a vir ao de cima a querer igualar os seus senhores feudais...

Liceu Aristotélico disse...

Claro que a batalha é sobretudo "cultural". Mas há sempre quem, sob o manto de uma afectação olímpica e pseudo-democrática, veja em tudo isto uma questão de poder, de regime ou de ideologia. Aliás, não é por acaso que o pior "feudalismo", nestes últimos decénios, tenha sido sustentado à custa de uma suposta democracia cujos apologistas são, esses sim, sempre os mesmos: os socialistas de direita e os socialistas de esquerda.

João Pedro disse...

Caro Miguel, parece-me que está a ser injusto na parte que respeita a Pedro Mexia: o ponto que ele apresenta (e em quase ninguém repararou)é extremamente relevante e revela decência. Para além disso, tem obra publicada - é um autor com obra poética e um sem fim de crónicas literárias e sobre diversas temáticas - e dirigiu a cinemateca. Se há alguém a quem não se possa chamar ignorante em Portugal é a Mexia. E já agora, também se debruçou sobre a obra de Couto Viana, como se pode ver (http://www.caixotim.pt/home.php?go=detalhe&uid=12).