14 maio 2012

Caterva


As vaias e insultos dirigidos a Passos Coelho fazem um programa. A indignação de alguns vaza-se num Primeiro-Ministro que comete a imprudência de relatar ao país a situação calamitosa em que 37 anos de governos corruptos e demagógicos nos precipitaram. Que eu saiba, Passos Coelho foi único a não recorrer à mentira, ao populismo e à propaganda. Isso paga-se caro. Os portugueses, que não viram, não quiseram ver e tudo fizeram para chegarmos ao descalabro presente - queriam ser ricos, sem trabalhar; tiveram milhões e milhões e gastaram-nos em jipes, cartões de crédito, trapos e apartamentos que não podiam pagar - esquecem-se da galeria infinda de crápulas, idiotas rapaces, locupletadores e bandidos sorridentes que centuriaram pelos seus os dinheiros oferecidos a fundo duplamente perdido pela injustamente caluniada Merkel e seus predecessores. Foram décadas de mordomias e sinecuras, milhares de milhões enterrados em elefantes brancos, pagos a amigos e camarilhas, das câmaras às juntas, às fundações e institutos, betoneiras, futebóis,  viagens e lugares destinados a "grandes senhores" e "grandes senhoras" que nunca estudaram, nunca trabalharam e a isso se habituaram.
Os meninos indignados - essa burguesia inútil, reivindicativa e parasitária produzida por um regime que acanalhou os portugueses até às fezes - podiam por de lado os seus ipod, as mesadas dos pais que os alimentaram e pagaram os estudos até aos 30 - e fazer uma revolução a sério. Não, essa gente não vai fazer revolução alguma, pois em Portugal, as revoluções não passam de alterações à ordem pública, começam às 10 e acabam às 13, quando a fome convida a uma passagem pelo fast food.
É uma cobardia insultar um homem público no espaço público, sobretudo quando se tem a quase certeza da impunidade. Passos Coelho, pelo menos, não está indiciado em terríveis casos de roubo organizado, não fugiu para o estrangeiro e tenta, talvez tolamente, ser fiel ao seu fardo.

12 comentários:

Samuel de Paiva Pires disse...

Provavelmente a melhor descrição que jamais li dos indignados. Um abraço, caríssimo Miguel

Isabel Metello disse...

Totalmente de acordo, o Síndroma da memória curta cauciona a barbárie e a irresponsabilização colectiva. O outro que nos pôs de joelhos e que está em Paris ou Poitiers a gozar de boa vida, sem se saber sequer de onde proveio tanto dinheiro num ápice é que é o herói da marabunta alienada! Isto é vergonhoso! Mas é sempre assim aqui- quem tem, de facto, cadáveres no armário passa sempre por herói/heroína, quem tem Carácter é que é o bode expiatório. É uma pandemia colectiva, só lá vai com a alfabetização anímica!!!

Nuno Castelo-Branco disse...

A polícia estava presente e permitiu os insultos. Os energúmenos são sempre os mesmos, são precisamente daquele partido que em bloco chateia que se farta e estão "em todas", desde os vivas ao Buíça no 1º de Fevereiro de 2008, até ao que ontem se passou. A polícia não age, admite os enxovalhos.

impensado disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
impensado disse...

Concordo, em parte, com o que diz, mas Passos Coelho foi visitar semi-oficialmente a Feira do Livro - ia acompanhado do Viegas, um gajo que o mais relevante que vez a vida foi insultar a memória de Eça de Queiroz, a quem chamou racista (sic!) - e que está lá para impingir a ortografia acordesa com que diariamente nos insultam - sem que o mereçamos. O Coelho, que não em sido brilhante, e em tempos destes, deve estar preparado para umas vaias, são ossos do ofício

José disse...

Concordo genericamente com o diagnóstico que faz acerca do Portugal deste último quarto de século. Porém, em relação a Passos Coelho, há que admitir que o mesmo faltou e continua a faltar à verdade - e com má fé notória - na questão do corte e reposição dos subsídios de férias e de Natal, ademais de as declarações que proferiu acerca dos desempregados evidenciarem uma notória falta de tacto e sensibilidade social.

José Mexia disse...

Muito bem. Acrescento a dupla cobardia de insultar um Homem que passeia com a mulher.

José Machado disse...

Miguel, você até pode estar cheio de razão, mas não diga que Passos Coelho não mentiu ou não enganou. Aproveite a sua argumentação para o obrigar a cumprir o que prometeu fazer e ainda não fez e desaconselhe-o de andar pela rua como se fora inocente. Ele mais do que ninguém tem de ter consciência do que se comprometeu fazer com os portugueses. Ele não pode andar a repetir «o fenómeno Sócrates» no que toca a imagem pública.

Pedro Soares Lourenço disse...

Excelente texto, Miguel; um abraço!!

axanaxplease.com disse...

Muito bem! Boa reflexão.
Subscrevo também o comentário de José Mexia.

intoLisbon disse...

Um texto mesmo em cheio na questão, parece que o povo começa a ter saudade da propaganda hipnotizante do falso engenheiro.

Miguel Castelo-Branco você faz falta na assembleia . Aliste-se, faça esse serviço a Portugal, vá para a linha da frente.

intoLisbon disse...

Um texto mesmo em cheio na questão, parece que o povo começa a ter saudade da propaganda hipnotizante do falso engenheiro.

Miguel Castelo-Branco você faz falta na assembleia . Aliste-se, faça esse serviço a Portugal, vá para a linha da frente.